‘A garota dinamarquesa’: transexuais em cena

‘A garota dinamarquesa’, novo exemplo do protagonismo que alcançaram os personagens transgênero

Cena do filme 'A garota dinamarquesa’.
Cena do filme 'A garota dinamarquesa’.
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No documentário O outro lado de Hollywood (1997), que retrata a evolução da história do cinema ao abordar a homossexualidade e a transexualidade, observa-se claramente como a realidade transgênero foi plasmada mediante dois arquétipos. De um lado, personagens próprios de um espetáculo de cabaré (Priscilla, a rainha do deserto), inclusive confundindo transexualidade com travestismo, com homens heterossexuais que se vestem de mulher para conquistar sua amada em papéis cômicos (Quanto mais quente, melhor; Tootsie; Uma babá quase perfeita). E, em outra vertente mais predominante, como seres atormentados, infelizes e fatidicamente destinados a um final trágico. Norman Bates em Psicose ou o assassino Buffalo Bill, de O silêncio dos inocentes, seriam os casos mais extremos, mas os demais sofreram o mesmo desfecho mesmo sem ser os vilões do filme. Brandon, o jovem transexual protagonista de Meninos não choram, que valeu o Oscar a Hillary Swank, foi violentado e assassinado por seus amigos quando descobriram que tinha vagina. Também no cinema espanhol, com os transexuais dos filmes de Almodóvar A má educação e Tudo sobre minha mãe, interpretados por Javier Cámara, Toni Cantó e Antonia San Juan, onde se mostravam próximos e até amados, mas sempre em entornos marginais como a droga e a prostituição.

Menção à parte merecem dois filmes precursores da mudança de tom como Minha vida em cor-de-rosa (1997) e Transamérica (2005). Na primeira, um menino chamado Ludovic insiste com seus pais que é uma menina. O tema da transexualidade é proposto a partir da inocência infantil, apesar de o filme continuar desconhecido da maioria. O premiado Transamérica, porém, obteve um grande sucesso, mas na viagem empreendida por Felicity Huffman com o filho adolescente que descobriu que tem e que anda metido em problemas, o filme não se aprofunda na convivência, já que o jovem descobre quase no final que a transexual com quem viaja é seu pai.

Mesmo assim, antecipava uma época de pujante normalização, a atual, na qual capas de revistas do ano passado foram protagonizada pelo padrasto das quatro irmãs mais populares dos Estados Unidos, então transformado em mulher. Na qual atores interpretando transexuais ganharam o Globo de Ouro ou o Oscar de melhor ator secundário. Este ano o prêmio pode ir para o ator principal, mais um trecho percorrido no longo caminho pela visibilidade transgênero. Hoje está na moda, mas, para isso, primeiro foi preciso se tornar familiar.

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