MÚSICA

Morre aos 65 anos a cantora Natalie Cole

A artista, filha de Nat King Cole, teve numerosos problemas de saúde e em 2009 se submeteu a um transplante de rim

Natalie Cole, durante apresentação em março.
Natalie Cole, durante apresentação em março.Evan Agostini (AP)

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Poderíamos dizer que Natalie Cole recebeu de seu pai um presente envenenado. Nat King Cole teve êxito, mas teve de enfrentar o racismo ainda imperante nos Estados Unidos do presidente Eisenhower. Apesar da limpa imagem familiar, no lar dos Cole houve muitas turbulências: as infidelidades do pai estiveram a ponto de romper seu casamento, embora que a união se recompôs quando se detectou o câncer que acabou com sua vida em 1965. Naquelas batalhas, Natalie tomou partido pelo pai e decidiu se dedicar a seu ofício. Enfrentou a mãe, Maria, que havia desenvolvido certa antipatia pelo show business. Depois de seus anos universitários, onde inclusive flertou com o radicalismo político dos Panteras Negras, começou a cantar profissionalmente. Seu sobrenome facilitava os contratos, mas a longo prazo resultou ser uma âncora: produtores e gravadoras esperavam um repertório middle of the road e ela era uma criatura dos anos sessenta, atraída pelo soul e o rock. Ela se negava a interpretar as canções identificadas com Nat King Cole.

Foi lançada pela Capitol Records, a companhia de seu pai, em 1975 e teve sucesso imediatamente, com músicas como Inseparable, Sophisticated lady ou I’ve got love on my mind. Os produtores seguiram o modelo dos discos maduros de Aretha Franklin, o que provocou a irritação da Rainha do Soul. Na verdade, Aretha não tinha nada a temer: a proximidade de Natalie às drogas pesadas não era um segredo na indústria musical e explicava os numerosos deslizes e ausências. Além disso, Natalie era mais flexível no musical: em 1988, colocou nas listas de mais ouvidas sua versão new wave de uma canção de Bruce Springsteen, Pink Cadillac.

Já nos anos noventa, Natalie se rendeu à pressão e decidiu explorar o legado familiar. Aceitou que a sombra de seu pai era gigantesca demais: viu a agonia de seu tio, o grande cantor e pianista Freddy Cole, cujo desespero o levou a titular um álbum I'm Not My Brother I'm Me. Em 1991, Natalie lançou Unforgettable… with love, onde recriava sucessos do pai. E não só isso: a tecnologia permitia que gravasse um dueto com a voz de Nat King Cole, o que as línguas pérfidas do negócio musical chamaram de “desenterrado”. Mas isso se dizia em petit comité: em um de seus espasmos de tradicionalismo, a Academia premiaria Natalie com vários prêmios Grammy.

A fórmula do “desenterrado” se popularizaria internacionalmente: sua aceitação comercial facilitou aberrações com duetos entre dois ou mais artistas que estavam há décadas debaixo do chão. Pode ser afirmar  que ela aproveitou bem a ressurreição de sua carreira: além dos inevitáveis discos de Natal e as gravações com orquestras sinfônicas, deu vazão à sua paixão pelo jazz. Em 2000, publicou uma autobiografia, Angel on my shoulder, onde relatava seus problemas com a heroína, o crack e o álcool, além de seus conflitos religiosos. Essas confissões facilitaram sua aceitação pelo mundo da televisão, onde protagonizou abundantes especiais e apareceu como atriz em diversas séries; convenientemente embelezada, sua vida transformou-se em um telefilme chamado Livin’ for love. Como ela reconhecia, era seu sobrenome o que despertava a curiosidade de personagens tão diversos como Nelson Mandela ou Frank Sinatra.

Seus últimos anos foram marcados por problemas de saúde. Portadora de hepatite C, teve que se submeter a um transplante de rim em 2009. Foi particularmente crítica com artistas que exibiam seus excessos, como Amy Winehouse e viveu como uma tragédia a morte de sua amiga Whitney Houston.