Escândalo na FIFA

Mediapro, empresa crucial na investigação sobre corrupção na FIFA

Dois exejecutivos em media World admitem ante a promotoria de EUA sua responsabilidade nos subornos e devolvem 600.000 dólares a cada um

Algumas horas depois da revista na sede da Media World, em 3 de dezembro, o Departamento de Justiça anunciou a imputação de outras 16 pessoas, entre dirigentes e ex-dirigentes do futebol nas Américas, em um caso que está agitando o futebol mundial. A nova imputação ampliou um escândalo que estourou no fim de maio com a prisão de sete altos dirigentes da FIFA, acusados de terem recebido propinas e comissões de mais de 150 milhões de dólares (aproximadamente 600 milhões de reais) durante quase 25 anos.

O documento da acusação dos 16 novos indiciados, de 236 páginas, se concentra nas empresas de compra e venda de direitos de retransmissão e marketing de partidas de futebol. Uma dessas empresas é a Media World, filial da Imagina US, que por sua vez é uma subsidiária da Mediapro, fundada pelo empresário catalão Jaume Roures. A Media World possui os direitos de distribuição do Campeonato Espanhol nas Américas, e, como intermediária, os vendeu à rede BeIn Sports para transmissão nos Estados Unidos e à ESPN para a América Latina – uma transação equivalente a 894 milhões de reais, segundo números revelados por Javier Tebas, presidente da Liga de Futebol Profissional espanhola.

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Em um comunicado emitido após a revista na sede, o Grupo Imagina, dono da Mediapro, anunciou que “fará tudo o que estiver a seu alcance para esclarecer as circunstâncias em que se deram os fatos e apurar as responsabilidades que sejam necessárias pelas atuações de cada um dos imputados”.

A Imagina US tem como principal atividade fazer produções de televisão voltadas ao público hispânico. Com sede em Miami desde 1998, possui instalações amplas e modernas em uma área industrial da cidade. Ali são produzidos programas para emissoras como a Univisión e a Telemundo. A empresa desenvolve sua atividade através de duas sociedades: Promofilm, dedicada à criação de conteúdos televisivos, e Media World, que explora os direitos de transmissão de eventos esportivos.

Até poucos dias atrás, Roger Huguet, de 52 anos, era o diretor-executivo da Imagina US e da Media World, que ele fundou em 1998. Seu envolvimento foi revelado depois da revista feita pelo FBI em busca de informações sobre as propinas e da admissão, pelo próprio Huguet, de sua culpa por duas acusações de conspiração para fraude bancária e uma por conspiração para lavagem de dinheiro.

Em uma conversa com o EL PAÍS por telefone, Huguet se recusou a avaliar as acusações que pesam sobre ele, feitas pelo Departamento de Justiça dos Estados Unidos. “Este é um processo muito longo, e prefiro esperar que tudo se acabe”, disse ele, que se mudou para os Estados Unidos há 20 anos e onde obteve cidadania em 2007.

Outro nome fundamental na investigação é o brasileiro Fábio Tordin, que fez carreira na empresa brasileira de direitos esportivos Traffic

Huguet, que foi o homem de confiança da Mediapro nos Estados Unidos durante quase uma década, foi substituído por Irantzu Díez Gamboa, outra executiva da empresa. Até a última quinta-feira, o site da Imagina US ainda apontava Huguet como o principal diretor da filial norte-americana da Mediapro. No site da própria Mediapro também aparecia o nome de Huguet entre a equipe de diretores da empresa.

Outro nome fundamental na investigação pela procuradoria do Brooklyn é o brasileiro Fábio Tordin, de 50 anos. Tordin fez carreira na empresa brasileira de direitos esportivos Traffic. Foi diretor-executivo da Traffic USA, filial da companhia em Miami. Em 2001, começou a trabalhar para a Media World como consultor autônomo. Sua tarefa era negociar contratos para os direitos de retransmissão e marketing em mãos dos membros da Confederação de Futebol da América do Norte, Central e Caribe (Concacaf), aliada à FIFA. Assim como Huguet, Tordin se declarou culpado e pagou uma fiança de 600.000 dólares.

Uma terceira pessoa, ligada à Media World e à Mediapro, aparece nos documentos judiciais como “co-conspirador” (número 4 ou número 5, segundo o documento). O termo, no entanto, não significa necessariamente que esse indivíduo esteja sob investigação nem que será indiciado ou julgado.

Autorizava subornos

A identidade desse “co-conspirador” é uma das incógnitas do caso. Segundo a investigação, trata–se de um membro da cúpula da Mediapro que viajava da Espanha para Miami, autorizava subornos e, em alguns casos, os acertava diretamente. Se seu envolvimento na trama for confirmado, isso significa que a fraude não estaria limitada aos escritórios em Miami. Em resposta a perguntas enviadas pelo EL PAÍS, a porta-voz da procuradoria do Brooklyn evitou dar detalhes sobre se o “co-conspirador” está sendo investigado e se negou a revelar sua identidade. “Sem comentários”, afirmou.

Esse “co-conspirador” aparece citado em um documento sobre Roger Huguet como sendo um “alto executivo e acionista da empresa de comunicações B”. Os documentos não indicam qual é essa empresa, mas há motivos para crer que se trata da matriz europeia da Media World.

Esse alto executivo da Mediapro “viajava regularmente a Miami para se encontrar com Roger Huguet e receber atualizações sobre as operações da Media World, inclusive seus esforços para obter direitos de veículos de comunicação e de empresas de marketing para as partidas eliminatórias para a Copa do Mundo, de propriedade das federações da Uncaf (organização de futebol na América Central, afiliada à Concacaf)”, segundo o documento de acusação aos 16 novos indiciados.

“Roger Huguet notificou regularmente ao co-conspirador número 5 sobre as propinas pagas em nome da Media World a funcionários das federações da Uncaf, com o objetivo de garantir os direitos para os jogos dessas federações nas eliminatórias”, afirma o documento. “O co-conspirador número 5 aprovou a participação da Media World nesse esquema.”

A procuradoria menciona vários exemplos de propinas vindas dos executivos da Media World para os dirigentes do futebol em países da América Central e do Caribe. Um exemplo é a negociação dos direitos para as partidas eliminatórias da Copa de 2022, entre Huguet e a Federação Hondurenha de Futebol (Fenafuth). Segundo a procuradoria, a Media World, pagou até 600.000 dólares em propinas a Rafael Callejas, presidente da Fenaufth e ex-presidente de Honduras, e a Alfredo Hawit, secretário-geral da federação.

Em 2012, a Media World e a Traffic USA, até então rivais no mercado, decidiram unir seus recursos e compartilhar os rendimentos vindos dos direitos sobre as partidas eliminatórias da Concacaf. Durante as negociações entre as duas empresas, o co-conspirador número 5 soube que a Traffic USA tinha concordado em pagar uma propina de 3 milhões de dólares para obter os direitos da União Caribenha de Futebol (CFU).

O receptor da propina teria sido Jeffrey Webb, então presidente da federação de futebol das Ilhas Cayman, mais tarde vice-presidente da FIFA e um dos principais acusados no escândalo de corrupção. O “co-conspirador número 5” teria aceitado dividir com a Traffic USA o custo da propina e teria instruído Huguet sobre a maneira de efetuar o pagamento sem que se conhecesse o seu propósito.

O pagamento começou a ser feito em várias parcelas. Mas, há cerca de um ano, ao saber que o proprietário do Traffic Group, José Hawilla, estava sendo investigado, o executivo da Mediapro instruiu Huguet a suspender as remessas a Webb.

Primeiras detenções em maio

A investigação do Departamento de Justiça dos Estados Unidos e as primeiras detenções, em maio, fizeram soar os alarmes. Tordin, por exemplo, não pagou uma propina com a qual tinha se comprometido para organizar uma partida da seleção de El Salvador e outra do Chile, em Washington, nos dias 31 de maio e 5 de junho. O brasileiro se defendeu alegando que não acreditava que seus chefes autorizariam o pagamento. Em julho, em um encontro de Tordin com dirigentes de futebol da Guatemala, um deles, Bryan Jiménez, disse: “Não podemos falar nada por telefone. Nada! Nada! Nada!”.