ELEIÇÕES GERAIS na ESPANHA

Estratégia de acordos é incógnita no fim da campanha eleitoral na Espanha

O PP e o PSOE têm sido as duas forças políticas com possibilidade de Governo

Mariano Rajoy em um comício do PP.
Mariano Rajoy em um comício do PP.GABRIEL GALLO (AFP)

A campanha para as eleições que ocorrem neste domingo na Espanha termina como começou, levantando questões sobre as possíveis alianças eleitorais que poderiam ser estabelecidas na ausência de maiorias absolutas. Os pactos têm sido a base das estratégias dos partidos, que têm sido utilizados como arma contra os adversários. O Partido Popular (PP) e o Partido Socialista Operário Espanhol (PSOE) têm sido as duas forças políticas sobre as quais paira a possibilidade de Governo, mas com a ajuda e companhia de outros. Populares e socialistas até agora não mostraram suas cartas sobre preferências e afinidades, já que não desistem da vitória e pretendem obter o máximo número de votos.

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A incógnita sobre quais serão as alianças do PP e do PSOE marcou a campanha das eleições mais significativas dos últimos 30 anos, segundo proclamam sem hesitação os atuais atores políticos. Nesse ponto, não houve bipartidarismo. Foi uma campanha com argumentos cautelosos cujos resultados dirão se surtiram efeito. Nos quartéis dos partidos, a percepção é de que o slogan do PP alertando que o voto para os Cidadãos forçaria uma aliança com o PSOE e com o Podemos pode ter sido eficaz. Não se sabe se o apelo ao voto útil por parte dos socialistas, para que o apoio à esquerda não se disperse, tenha sido forte o bastante para convencer o eleitor do Cidadãos e do Podemos de que a única maneira para que "a esquerda" governe é com o voto no PSOE.

Nos cenários elaborados pelos partidos, a soma dos votos para o PP e Cidadãos resultaria numa maioria absoluta de 176 assentos, o que significaria que, no primeiro turno, Mariano Rajoy seria empossado primeiro-ministro. Mas essa opção não parece ser a mais realista, sendo que esta seria a mais provável: um segundo turno no qual os sim superem os nãos, uma maioria simples. O PP se vê nessa situação desde o início da campanha, e agora se consolida na mesma condição, depois que a maioria das pesquisas de opinião — incluindo levantamento do próprio partido na sexta-feira à noite — aponta que o partido está em primeiro lugar e distante do segundo. Diante desse resultado, com um PP com vantagem em relação ao segundo partido, os Cidadãos não teriam escolha a não ser cumprir com sua palavra e permitir que o candidato do partido vencedor assuma o poder, como afirmou surpreendentemente na sexta-feira Albert Rivera, líder dos Cidadãos.

Mensagens da meia-noite

Ninguém mais terá a oportunidade de buscar alianças, embora o resto dos adversários não tenha a menor intenção de fazê-lo. As últimas mensagens da meia-noite, quando a campanha foi encerrada, foram focadas na advertência pelo voto útil. O PP, que subiu nas intenções de voto nos últimos dias na mesma velocidade de queda dos Cidadãos, distribuiu mensagens totalmente bipartidaristas aos seus candidatos. Ou o partido de Rajoy consegue uma maioria suficiente para governar, ou uma "aliança radical de esquerda" será formada, diz um documento interno. Não acham necessário fazer referência ao nome Cidadãos, partido de Albert Rivera, porque, ao pedir o máximo de apoio para obter maioria, desdenham de forma implícita qualquer outra opção de voto. Ou Rajoy governa, ou Pedro Sánchez chega ao Palácio da Moncloa, mas com a ajuda de outros. "Psoemos" é a manchete de um boletim interno publicado pela Europa Press. A demonstração de que os "radicais" podem se unir é explicada pelo apoio às vitórias de candidatos do PSOE nos Governos regionais e municípios depois das eleições de maio.

No lado da esquerda, não foi dada uma só pista sobre as possíveis alianças do PSOE e Podemos. "Quem quer ser a primeira força não pode fazer uma campanha destacando outros como possíveis parceiros", dizem os socialistas. Não foi preciso. Se o PSOE pudesse formar uma maioria com o Podemos, Esquerda Unida (IU) e outras forças nacionalistas, não hesitaria. Tampouco Sánchez abriria mão de um acordo com os Cidadãos para tomar posse, mas teria de ser na primeira posição. Sánchez tentaria ser primeiro-ministro se ficasse em segundo lugar, atrás do PP? A essa pergunta responde: "Depende dos números" e da distância que o PSOE ficasse do primeiro. Essa tentativa seria uma opção se o partido vencedor não conseguisse formar um governo. Ou seja, se o PP e os Cidadãos não conseguirem chegar a um acordo ou não somassem mais votos a favor do que contra. Todas as possibilidades estão contempladas pelas direções do PP, PSOE, Podemos e Cidadãos. O primeiro só teria os Cidadãos como opção, mas nutre a esperança de que não seja preciso.

Analistas econômicos alertam sobre instabilidade

"Os partidos têm marcado muitas linhas vermelhas e, diante dos assentos apontados nas pesquisas, alguém precisará ultrapassá-las ou teremos novas eleições em março," dizem em um relatório para clientes Rubén Segura e Gilles Moec, analistas do Bank of America Merrill Lynch .

"Vai levar tempo para resolver o sudoku. E outra convocação de eleições a curto prazo não pode ser descartada", acrescentaram os especialistas do banco de investimentos, que acreditam que "é provável que as negociações pós-eleitorais sejam longas e complexas".

Embora os analistas do Bank of America Merrill Lynch acreditem que a opção mais provável seja a continuidade de um Governo do PP, seja com uma minoria ou com o apoio dos Cidadãos, destacam que há várias opções possíveis.

A menos provável é que o Podemos consiga chegar ao Governo, mas não descartam que os Cidadãos possam liderar o Executivo, seja graças ao apoio do PP para evitar um Executivo onde o Podemos tenha algum papel, ou com os votos do PSOE para impedir que os populares governem.

A previsão dos analistas é a de que os mercados vão reagir com ganhos diante de um resultado que exclua o Podemos do Governo. E acreditam que a fragmentação do Parlamento impedirá o avanço de reformas importantes, mas também não será fácil desfazer as já realizadas. E citam a situação na Catalunha como um dos principais riscos econômicos, em última instância. Em Andaluzia, o Governo foi formado em maio do ano passado, quase no limite de convocação de novas eleições.