Epidemia de microcefalia no Brasil

Bebês vítimas do zika têm lesões cerebrais além da microcefalia

Grupo que estuda fetos infectados registra calcificação no cérebro e acúmulo de líquidos

Maurício Bazílio (GERJ)

Quando o médico baiano Manoel Sarno recebeu a quarta grávida no mês de julho que esperava um bebê com microcefalia, suspeitou que algo estava errado. Especialista em medicina fetal e professor da Universidade Federal da Bahia (UFBA), ele estava acostumado a atender no ano entre quatro e cinco casos da condição, uma malformação cerebral em que o perímetro do cérebro do bebê é menor que o normal.

Depois de entrevistar as mães, ele percebeu que todas relatavam a mesma coisa: no primeiro trimestre da gravidez estiveram em uma unidade de saúde com sintomas parecidos aos da dengue ou do chikungunya, dois vírus transmitidos pelo mosquito Aedes aegypti. Fizeram os exames para ambos e o resultado foi negativo. Logo se suspeitou que fosse zika, um terceiro vírus transmitido pelo mesmo vetor e que acabava de chegar ao país. A Bahia foi o primeiro Estado a confirmar a circulação dele, o que facilitou o trabalho das unidades de saúde.

Sarno já chefiava um grupo de pesquisa na UFBA para avaliar a transmissão de infecções como HIV e Hepatite C de mães para os fetos, com a parceria de especialistas de infectologia. Decidiu, então, levar os casos de microcefalia para lá. Hoje, o grupo já acompanha 53 grávidas com fetos diagnosticados com microcefalia, 80% delas relatam ter tido sintomas do vírus zika. “O que estamos vendo é que esses casos são mais graves do que os que acompanhávamos no grupo até então”, explica Sarno.

O grupo foi o primeiro do país a acompanhar grávidas com microcefalia de forma sistemática. E os resultados do que foi observado até o momento ainda precisam ser sistematizados. Mas algumas coisas já são possíveis de destacar, afirma o médico. O grupo verificou que os bebês que apresentam microcefalia possuem também outras anomalias cerebrais, como calcificação de grandes áreas do cérebro, dilatações e áreas de destruição. “Nos casos de dilatação, por exemplo, há um acúmulo de líquidos que, no futuro, pode causar hidrocefalia”.

Quanto maior o número de lesões encontradas no cérebro do bebê, mais problemas ele deve ter para se desenvolver, aponta o médico. “A maioria [dos fetos das grávidas que acompanhamos] tem muitas lesões. Tem casos de bebês que têm as quatro coisas no cérebro: microcefalia, calcificação, dilatações e áreas de destruição. Tudo indica que são casos graves que terão que ser acompanhados por muito tempo”, explica ele.

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Essas anomalias cerebrais podem ser causadas por outros fatores, como citomegalovírus, rubéola, toxoplasmose. Mas todos os casos avaliados no grupo foram testados para essas outras doenças e deram negativo. O grupo afirma que as pacientes com diagnóstico de microcefalia têm cinco vezes mais chances de ter tido um quadro suspeito de zika do que as demais grávidas. “É uma correlação muito alta”, explica o médico.

Além dos problemas de desenvolvimento do cérebro, crianças que nasceram com a microcefalia após suspeita de zika vírus também tem apresentado problemas oculares, aponta o médico. “Um oftalmologista está fazendo exame de fundo de olho nessas crianças e observando lesões de retina. Outro colega de Fortaleza encontrou ainda a existência de calcificação no globo ocular, o que indica que a gente pode estar a frente de um problema que também ataca o olho”, afirma.

Novos dados

Nesta terça-feira, o Ministério da Saúde atualizou os dados de casos de microcefalia no país. Até o último sábado, foram notificados 2.401 casos em 20 Estados do país. Destes, 2.165 casos ainda estão em investigação – já foram confirmados 134 casos e 102 foram descartados até o momento.

O país enfrenta uma epidemia de casos de microcefalia desde ao menos outubro deste ano, quando um número muito grande de casos começou a ser notificado oficialmente ao ministério, especialmente pelo Estado de Pernambuco. Poucas semanas depois, o órgão informou que havia uma correlação forte entre os casos de microcefalia e o vírus zika, que passou a ser notado no país no início deste ano.

O órgão também afirmou nesta terça que já foram registrados causos de zika vírus autóctones (de pessoas que contraíram a doença no próprio município) em todos os Estados do Nordeste (menos Sergipe), Rio de Janeiro, São Paulo, Espírito Santo, Mato Grosso e Pará. O ministério não informa, entretanto, quantos casos foram registrados no total, já que a existência de zika não é de notificação compulsória – aquela doença que os sistemas de saúde são obrigados a informar ao sistema de saúde.