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Papa Francisco perde na Santa Sé o que ganha fora dela

Sucesso pastoral e diplomático de Francisco contrasta com as resistências no Vaticano

O papa Francisco no Vaticano, no último dia 9.
O papa Francisco no Vaticano, no último dia 9. AP

Mil dias depois de ser eleito, o papa Francisco continua perdendo dentro o que ganha fora. A cada grande triunfo pastoral, diplomático ou midiático das suas viagens – América do Sul, Cuba, Estados Unidos, África –, ele sofre, quando volta a Roma, alguma derrota em seu objetivo de alterar a mentalidade do Vaticano.

Já não se trata tanto de saber quantos bispos continuam se opondo a abrir a Igreja a novos casais, a facilitar as anulações matrimoniais e a limpar as finanças, e sim até que ponto a Cúria Pontifícia e o complexo mundo que a rodeia – congregações, fundações, embaixadas – estão dispostos a assumir em seu próprio comportamento a aposta de Jorge Mario Bergoglio pela periferia. Aquela que, na linguagem às vezes tão cínica e desavergonhada dos corredores do Vaticano, já é conhecida como “a mania do Papa pelos pobres”.

Um exemplo é o último escândalo causado pela revelação de documentos sigilosos. Independentemente de o monsenhor Vallejo Balda – o sacerdote espanhol que continua detido – ser considerado culpado ou de ter, como ele afirma, sofrido chantagem por ir para a cama com uma mulher casada, uma vista-d’olhos na sua vida recente reflete como são velhos e profundos os vícios da Roma vaticana. Apesar de recém-chegado, Vallejo controlava recursos sem supervisão, cultivava à luz do dia relações prejudiciais para a Igreja Católica e participava das frequentes festas mundanas organizadas por alguns embaixadores na Santa Sé, aparentemente mais preocupados com a linhagem dos seus convidados, com a safra do vinho e com a política interna do que com entrar em sintonia com Bergoglio.

A questão é saber até onde chega a paciência de Francisco, mas já há dados para imaginar que seja finita. Por enquanto, ele voltou a anular sine die sua visita a Milão, onde reina o cardeal Scola, príncipe dos rebeldes, e já nem se esforça em sorrir aos diplomatas que se mostram preocupados demais com as plumas do uniforme. Do seu modesto apartamento sem vista, Bergoglio continua tendo claro que deseja mudar o Vaticano. Custe o que custar.

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