ELEIÇÕES na VENEZUELA

Na Venezuela, 85% estão insatisfeitos com a situação do país

Pesquisa mostra que único consenso entre os cidadãos é que o cenário é ruim

Partidários da oposição em um comício eleitoral em Caracas.
Partidários da oposição em um comício eleitoral em Caracas.CARLOS GARCIA RAWLINS (REUTERS)

A dois dias das eleições parlamentares na Venezuela, só há uma unanimidade entre os seus cidadãos: o país está indo na direção errada. Nos demais assuntos — como a economia ou a conveniência de manter ou não o ideário chavista — há uma profunda divisão dentro da sociedade venezuelana, segundo um levantamento divulgado na quinta-feira pelo Centro Pew de Pesquisas, com sede em Washington. Além disso, o presidente Nicolás Maduro é rejeitado por 68% da população.

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Num contexto de profunda crise econômica e política, e com um presidente criticado tanto por seu enfrentamento com a oposição política como pela forma como lida com a escassez de alimentos, os venezuelanos estão separados por uma linha ideológica intransponível. Enquanto os indivíduos com posições mais esquerdistas demonstram maior apoio ao Governo e ao seu presidente e se dizem menos preocupados com a situação do país, os mais direitistas consideram que Maduro exerce uma má influência sobre a Venezuela, e menos de um em cada dez deles expressam uma opinião positiva sobre o mandatário.

O único consenso que resta na Venezuela é o da profunda decepção com a situação geral. Segundo a pesquisa, 85% dos cidadãos não estão satisfeitos com os rumos do país. Esse número é 28 pontos percentuais maior do que na época em que o presidente Hugo Chávez morreu, em 2013. Atualmente, apenas 14% dos venezuelanos se dizem satisfeitos com a situação do país, e 29% avaliam positivamente a gestão de Maduro.

Entre os desafios econômicos que o país enfrenta, 92% dos entrevistados consideram que o mais grave é a inflação, que é a mais elevada do mundo e influi nas outras preocupações mais citadas pelos venezuelanos — como a falta de oportunidades de trabalho (uma preocupação de 85% dos entrevistados) e a escassez de produtos básicos (84%).

Mais de 60% dos entrevistados na pesquisa do Centro Pew qualificam como ruim ou péssimo o trabalho do Governo nacional, do Judiciário e do Exército

Ainda segundo o Pew, com base numa pesquisa sobre atitudes globais feitas no primeiro semestre, mais de 70% dos venezuelanos consideram que entre os grandes problemas do país estão o índice de criminalidade, a dívida pública, o sistema de saúde e a corrupção. A preocupação com a saúde e com a má qualidade das escolas públicas disparou 15 e 14 pontos percentuais no último ano, respectivamente.

Entretanto, a intensidade dessas preocupações parece depender cada vez mais da posição de cada cidadão no espectro político. Os defensores do Partido Socialista Unido da Venezuela, ao qual Maduro pertence, estão menos preocupados com a crise que afeta o país, ao passo que os direitistas consideram gravíssimos a maioria desses problemas. Assim, praticamente metade (46%) dos entrevistados atribui a atual situação às políticas econômicas do Governo, e outra metade (43%) entende que os problemas se devem à queda mundial do preço do petróleo.

Os venezuelanos rejeitam duramente, além disso, as instituições governamentais, aprovando apenas o trabalho dos meios de comunicação, cuja influência é “positiva” para 59% dos entrevistados. Por outro lado, mais de seis em cada dez cidadãos não aprovam o trabalho do governo nacional (68%), do Judiciário (65%) e do Exército (63%).

A divisão ideológica também se reflete no apoio a Maduro, que é de 29% entre a população geral. Esse apoio sobe a 77% quando se trata dos venezuelanos que se identificam com as políticas de esquerda, mas cai a apenas 9% entre os de direita. Os cidadãos demonstram uma divisão semelhante com relação aos líderes da oposição, já que 56% rejeitam o ex-candidato presidencial Henrique Capriles e 55% rejeitam o político Leopoldo López, preso há dois anos na base militar de Ramo Verde. Apesar da divisão, 77% dos venezuelanos se mostram contrários à resposta de Maduro à oposição política.