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Os desafios políticos e econômicos de Mauricio Macri

Divisão do país, congresso oposicionista, ajuste fiscal e inflação são alguns dos desafios

O futuro presidente da Argentina, Mauricio Macri, entra na Usina del Arte, de Buenos Aires, para dar entrevista coletiva nesta segunda-feira.
O futuro presidente da Argentina, Mauricio Macri, entra na Usina del Arte, de Buenos Aires, para dar entrevista coletiva nesta segunda-feira. REUTERS

O próximo presidente da Argentina, Mauricio Macri, deverá enfrentar desafios de curto e de longo prazos ao assumir o poder em 10 de dezembro. Apresentamos aqui uma relação de uns e de outros:

Maioria precária: a vitória apertada no segundo turno sobre o peronista Daniel Scioli, por 51,4% contra 48,6%, deixa claro que a sociedade argentina está bastante dividida. Macri não obteve a vitória ampla que esperava, o que o levará a governar com cautela.

Congresso oposicionista: A coligação Mudemos, de Macri, terá apenas 91 dos 129 deputados necessários para aprovar leis e 15 dos 37 senadores que se exige para o mesmo fim. Portanto, terá de negociar não apenas com os peronistas da oposição e os progressistas, como também com os peronistas que até o momento vem se aliando a Cristina Fernández de Kirchner.

Kirchneristas no Estado: nem todos os funcionários públicos que assumiram na era kirchnerista e que elevaram a folha estatal em 46% são fieis a Kirchner, mas há muitos que o são e que ocuparão desde cargos importantes com mandatos que se encerram apenas nos próximos anos até postos menores mas com presença nos sindicatos do funcionalismo.

Liberalização da trava (controle) cambial: Macri prometeu que, no primeiro dia de seu governo, acabará com as restrições em vigor desde 2011 para a compra de moeda estrangeira para poupança, importações e envio de lucros das multinacionais para suas matrizes. Na última quinta-feira, porém, ele começou a falar na necessidade de adotar essa medida de forma gradual, diante do risco possível de uma desvalorização súbita que tenha um impacto capaz de aumentar a inflação já existente (24%). A decisão de acabar com a trava oporá Macri ao presidente do Banco Central, o kirchnerista Alejandro Vanoli, que poderá ser destituído em um processo bastante rápido.

Desvalorização: o dólar está cotado no mercado oficial a 9,67 pesos, contra 15,07 pesos no mercado paralelo, razão pela qual os próprios economistas de Macri já anteciparam que deverá haver um aumento no primeiro. Diante da expectativa de desvalorização, o Banco Central já perdeu, apenas em novembro, 1,35 bilhão de dólares ao reduzir para 25,92 bilhões, um dos níveis mais baixos da América Latina na relação com o tamanho das importações. Nas últimas quatro semanas, desde que Macri surpreendeu com seu bom resultado no primeiro turno, os exportadores agrícolas –53% das vendas da Argentina para o exterior são de alimentos— diminuíram pela metade a venda de sua colheita à espera de um preço melhor a partir de 10 de dezembro.

Ajuste fiscal: a Auditoria General de la Nación (que controla as contas públicas), sob controle da oposição, prevê um déficit fiscal de 7% do PIB, o que significa um salto em relação aos 2,5% de 2014. O ministro da Economia kirchnerista, Axel Kicillof, afirmou que ele será de apenas 3,5%. Os bancos mais pessimistas preveem mais de 6%, como é o caso do Bank of America, Merrill Lynch e HSBC, mas outros estimam algo em torno de 4%, como Santander, UBS e JP Morgan. Investidores de Wall Street aguardam um anúncio de ajustes como condição para voltar a confiar na Argentina. Um dos economistas de Macri, Rogelio Frigerio, sinaliza com o corte gradual de subsídios a energia e transporte público –que equivalem a 4% do PIB–, “corrupção e esbanjamento”.

Julgamento dos “fundos abutres”: o juiz de Nova York Thomas Griesa planeja convocar o novo Governo argentino a cumprir a sentença que o obriga a pagar devidamente aos “fundos abutres” e a outros credores que recusaram a reestruturação da dívida de 2005 e 2010. Enquanto a Argentina não lhes pagar, continuará em vigor o bloqueio para o pagamento do passivo refinanciado. Frigerio prevê uma negociação difícil para se definir quanto e como o dinheiro será dado aos “abutres”. A dívida pública líquida não constitui, em si, um problema, pois, em 2014, ela era equivalente a 18% do PIB.

Eliminação das barreiras protecionistas: A Organização Mundial do Comércio (OMC) determinou que a Argentina elimine, a partir de 1º de janeiro próximo, as declarações juradas antecipadas de importações (DJAI), que restringem a entrada de mercadorias. Frigerio prometeu que serão tentadas outras formas de proteção “inteligente” que evitem conflitos com outros países e protejam o emprego.

Crescimento econômico: A Argentina cresceu tão pouco nos últimos quatro anos, que a renda per capita diminuiu. Para o próximo ano, os bancos e as consultorias preveem um crescimento do PIB de apenas 0,9%, segundo levantamento da FocusEconomics.

Inflação: desde 2007, o índice ultrapassou os 20% ao ano, com exceção de 2009. Bancos e consultorias preveem que ela chegue a 34,3% em 2016, por conta de uma eventual desvalorização do peso.

Emprego: o desemprego caiu para 5,9%, o nível mais baixo em 28 anos, segundo as questionadas estatísticas oficiais. Mas essa diminuição se baseou na resistência do mercado interno, ao mesmo tempo em que aumentam as dificuldades para as empresas exportadoras de bens e serviços. O grande problema é o trabalho informal, que atinge 33,1% dos empregados.

Pobreza: 21,8% dos argentinos vivem em situação de pobreza, segundo especialistas da Associação de Trabalhadores do Estado (ATE), que combatem há oito anos a manipulação das estatísticas oficiais. Esse nível é o quinto mais baixo da América Latina, atrás do Uruguai, Chile, Costa Rica e Brasil.

Investimento: chega a 20% do PIB. Macri pretende elevá-lo a 25%. O investimento estrangeiro na Argentina é menor do que o que se registra em países latino-americanos com economias de menor porte, como Colômbia e Chile.

Agricultura e indústria: a produção industrial registra três anos consecutivos de queda. A exportação agrícola diminui por causa da queda dos preços internacionais dos grãos e da taxa de câmbio.

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