ELEIÇÕES NA ARGENTINA

Sombra do papa Francisco domina a conclusão da campanha argentina

Frase sobre Francisco obriga Macri a desautorizar assessor

Uma rua de Buenos Aires, na sexta-feira. Às 8h começou o período de reflexão e não é mais permitido colar cartazes de propaganda.
Uma rua de Buenos Aires, na sexta-feira. Às 8h começou o período de reflexão e não é mais permitido colar cartazes de propaganda.Ricardo Ceppi

A sorte está lançada na Argentina. A campanha terminou, as eleições são no domingo e os pesquisadores não viram muitas mudanças na tendência dos últimos dias: Mauricio Macri, salvo surpresa maiúscula, é apontado como vencedor, embora haja dúvidas sobre a distância que obteria de Daniel Scioli. Algumas pesquisas falam em mais de 10 pontos, até mesmo 15, outras em muito menos. No último minuto da campanha, centrada na tentativa desesperada de Scioli de convencer os argentinos das classes populares de que Macri é “um perigo”, entrou em cena o onipresente Papa argentino, ou pelo menos sua sombra.

Francisco, próximo ao peronismo, pareceu demonstrar um apoio a Scioli na quarta-feira, quando lhe perguntaram, na habitual audiência no Vaticano, sobre suas sensações quanto às eleições argentinas. “Já sabem o que eu penso. Que votem com consciência”. O Papa sempre participou da política argentina quando era bispo de Buenos Aires, foi um personagem muito influente da oposição aos Kirchner, recebe todos os políticos, empresários e sindicalistas argentinos e suas palavras, e sobretudo as de seus amigos, são interpretadas rapidamente como mensagens cifradas que influenciam na realidade de seu país. Na Argentina, ele é considerado quase um político a mais.

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Por isso, a frase foi vista rapidamente como uma mensagem a favor de Scioli, que utilizou a figura do Papa em cada um de seus comícios sem que Francisco tenha protestado. Tanto que Jaime Durán Barba, o principal assessor eleitoral de Macri, se incomodou e, durante uma conversa com jornalistas em Humahuaca, no empobrecido norte do país, onde seu candidato encerrou a campanha, respondeu: “O Papa não está contente conosco por causa de nossa abertura aos homossexuais. Mas um papa não movimenta mais de 10 votos em país nenhum. Ninguém vai votar pensando no Papa”. Ousado, Durán Barba chegou a dizer que é a favor do aborto livre, uma clara provocação a Francisco.

A popularidade do Papa na Argentina é enorme, e Scioli tentou aferrar-se a ela para, na última hora, virar o voto dos católicos contra Macri. É uma operação difícil, mas o candidato peronista já tentou de quase tudo aparentemente sem sucesso. Mas tentou. “O assessor de Macri disse: ‘Que importa o que diz o papa Francisco se ele tem só dez votos!’. Quero repudiar essa declaração ofensiva”, bradou Scioli em seu encerramento de campanha em La Matanza, na periferia de Buenos Aires, antes de repetir pela énesima vez que defende os três “t” proclamados pelo chefe da Igreja católica: “terra, teto e trabalho”. A utilização de Francisco na campanha de Scioli, inclusive nos vídeos, foi feita sem dissimulação.

Macri parece muito seguro da vitória, mas não quer assumir nenhum risco. Por isso ontem, ao ver a repercussão da polêmica, escreveu no Twitter: “As declarações de Jaime Durán Barba são de cunho pessoal e não representam meu pensamento nem o do espaço que lidero. Sinto um profundo respeito e admiração pelo papa Francisco e, pessoalmente, sou a favor da vida”. O candidato recordava assim que ele é tão antiaborto como Scioli ou como a própria presidenta, Cristina Kirchner, cujas posições impediram o avanço das leis de legalização do aborto na Argentina. O aborto é polêmico no país, mesmo em casos de estupro: o Papa se opôs a ele quando era bispo de Buenos Aires, mas a Suprema Corte sentenciou em favor da interrupção da gravidez de uma menina violentada pelo padrasto.

Debates como esse mostram até que ponto as divisões esquerda-direita estabelecidas no mundo ocidental não servem para analisar a política argentina. Scioli procura os votos da esquerda e se reivindica como “um trabalhador”, embora na realidade pertença ao mesmo mundo da elite e do jet set que Macri. Mas ao mesmo tempo defende a doutrina da Igreja e tem um discurso muito conservador em temas sociais como o aborto. Macri vem da direita, mas tem feito um discurso emotivo e nada ideológico. “Não me interessam as ideologias, o que é a esquerda? O que é a direita? Este é um projeto apoiado nas pessoas, em escutar”, explica Durán Barba, praticamente o inventor do fenômeno PRO com Marcos Penha, braço direito de Macri.

Eles conseguiram mudar o eixo da política argentina. Frente ao ideologizado kirchnerismo, fugiram dessa batalha para que não os associassem com a direita, muito mal vista em um país que foi devastado pelo neoliberalismo dos anos 1990. Macri e Durán Barba conseguiram com ideias simples como “mudança”, “viver melhor” e “crescer” aproveitar a onda de insatisfação com o kirchnerismo que parece dominar boa parte da classe média e uma parcela da classe popular. Esfumaram a imagem do candidato como empresário milionário e estão prestes a obter a primeira vitória, na Argentina, de um homem alheio ao peronismo e ao radicalismo, os dois grandes partidos que disputaram a hegemonia durante os últimos 70 anos.

Dois candidatos reinventados

As expectativas na política alteram até mesmo a imagem das pessoas. Os dois candidatos estão irreconhecíveis, segundo admitem inclusive as pessoas mais próximas. Ninguém teria imaginado Mauricio Macri encerrando sua campanha com uma cerimônia espiritual em honra a Pacha Mama, a mãe terra em Humahuaca, lugar por onde passa o trópico de Capricórnio, no empobrecido Norte argentino, perto da Bolívia. As fotos de Macri e os dirigentes do PRO rodeados de indígenas surpreenderam muita gente. O PRO surgiu entre pessoas da classe média-alta de Buenos Aires, a zona mais rica do país. Mas ampliou pouco a pouco seu espectro para poder ganhar. Daniel Scioli, por outro lado, também está irreconhecível. O homem moderado deu lugar a um rival feroz que ataca Macri sem descanso e o chama de “convencido do Barrio Norte”, em outras palavras, ricaço. Muitos analistas acreditam que essa estratégia de Scioli apagou seu principal valor, o de uma boa pessoa, um homem de diálogo que cai bem. A campanha alterou tudo.

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