Ódio ao lazer

No comunicado no qual o Estado Islâmico reivindica os atentados, justifica-se o ataque a Paris por considerá-la a “capital das abominações e da perversão”

Legistas da polícia recolhem amostras no Café Comptoir Voltaire, um dos atacados na noite de sexta-feira.
Legistas da polícia recolhem amostras no Café Comptoir Voltaire, um dos atacados na noite de sexta-feira.MARIUS BECKER (EFE)

Não querem que dancemos. Que escutemos música. Que nossos beijos se misturem com risadas. Amar. Divertir-se. Curtir a vida. Compartilhar jantares e almoços. Beber. Comer. Ocupar o espaço público. Sentir-se livre. “Os alvos foram cuidadosamente escolhidos”, afirmam os terroristas. Atacaram os símbolos e as pessoas.

Detestam que as mulheres leiam, escrevam, pensem e decidam por si mesmas. Sobre seu corpo, seus afetos e suas vidas. Não querem que as meninas estudem, por isso atiraram em Malala, no Afeganistão, que queria ir à escola. Tiros para castigá-la, para assustá-la, para matá-la.

No comunicado reivindicativo dos assassinos do Estado Islâmico, relacionam o ato terrorista em Paris com o fato de ser a “capital das abominações e da perversão”. Ou seja, em sua demência, os terroristas identificam a cidade como o pecado, como o demônio. E os cidadãos como depravados. As salas de música como templos pagãos.

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Os atentados atingem pessoas inocentes em bares e restaurantes, salões de festas, estádios e ruas. Tudo o que caracteriza um modelo de liberdades em um espaço público. Odeiam o lazer. Pelo que ele representa como liberdade e emancipação. O fanático contra o lúdico. Vestem-se de preto porque detestam as cores, a música, a diversidade. Odeiam as risadas. Não querem sorrisos, só caretas. De dor ou de sofrimento.

Agiram de noite. Uma sexta-feira. Justo quando a Cidade-Luz se ilumina com a luz dos gozos e dos prazeres, com as sobras das emoções e dos afetos, com a claridade das artes. Quando a vida parece eterna. Quando a noite protege os amantes, os cúmplices, os amigos. Chegaram de noite, para torná-la eterna, para que não tivéssemos um amanhã, e ganhar sua falsa eternidade com seu incompreensível martírio.

Chamam de "idólatras" as pessoas presentes na sala de espetáculos Bataclan. Seu pecado é admirar seres humanos: músicos, cantores, artistas. Eles os matam por serem pagãos, por exercer a mística da música. Seu ódio é tão incompreensível como perigoso e assassino.

Desprezam-nos. Falam do odor das “ruas malcheirosas de Paris”, que tremem indefesas. Vangloriam-se de sua pureza. De novo associam a cidade e os cidadãos ao demônio e à sua presença pestilenta: “Continuarão sentindo o cheiro da morte por terem estado à frente da cruzada”.

Querem que fiquemos atemorizados e paralisados. “Vocês terão medo até de ir ao mercado”, proclamavam em uma mensagem de vídeo da Al Hayat, a seção mediática dos acólitos do califado. “Deram-nos ordens para combater os infiéis onde quer que estejam. O que esperamos? Há armas e carros disponíveis e os alvos estão prontos para serem atingidos”, indica um dos terroristas. “Até mesmo veneno serve. Envenenemos a água e os alimentos de pelo menos um dos inimigos de Alá”, conclui.

“Paris tremeu sob seus pés”, acrescentam os jihadistas. Assim querem que fiquemos: derrotamos em nossos corações, ânimos e valores. Quietos, imóveis, fechados. Querem destruir o riso e o movimento. Agora, hoje, mais do que nunca é preciso rir entre a dor, o pranto e o desalento. Rir chorando. Para enfrentarmos o ódio com o lazer. A barbárie com a arte. Os pesadelos com sonhos. Para que Paris trema... mas com danças e passos livres, não com medos e sustos.

Hoje choraremos, mas amanhã voltaremos a cantar e a desenhar. Para ganhar a batalha das ideias e dos valores. A autêntica grande batalha.

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