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Brasil e Argentina: a última cartada de Dunga

Técnico depende dos resultados do jogos contra Argentina e Peru para se segurar no posto

Dunga comanda treino do Brasil em São Paulo.
Dunga comanda treino do Brasil em São Paulo.Andre Penner (AP)

Argentina e Peru. Dois jogos vão definir a situação do técnico Dunga no comando da cambaleante seleção brasileira, quinta colocada nas eliminatórias e fora da zona de classificação direta para a Copa do Mundo de 2018. Em caso de vitórias e futebol convincente, o técnico pode ser mantido no cargo pelo menos até março de 2016, quando serão disputadas as próximas rodadas da classificatória para o Mundial. Resultados ruins, porém, devem selar a demissão do treinador e a substituição de toda a comissão técnica do Brasil.

Enquanto o atual treinador do time brasileiro vive dias de tensão, Tite, técnico do Corinthians e principal candidato a ocupar o cargo em 2016, se divide entre a comemoração do provável título do Campeonato Brasileiro e as perguntas sobre seu futuro à frente da seleção. Na terça-feira, ele falou mais uma vez sobre a possibilidade de assumir o comando da equipe nacional logo após o final do Brasileirão, em dezembro. “Hoje eu não largo o Corinthians por nada. Vivo um momento muito especial aqui, temos muita coisa pela frente. Trabalhamos muito para chegar neste momento e não há nada mais importante do que isso. Tenho mais três anos de contrato pela frente.” Quem conhece Tite sabe que ele jamais negociaria com a CBF enquanto Dunga estiver empregado. Nos bastidores, porém, a substituição é muito provável. Os dois próximos jogos do Brasil nas eliminatórias são a última cartada de Dunga para se manter no cargo.

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A situação frágil de Dunga já traz ruídos até para a reveladora relação da CBF com o grupo Globo, a rede que detém todos os direitos de transmissão dos jogos da seleção e dos torneios organizados pela confederação. Um jornalista do Sportv, canal do grupo, cravou na semana passada que Tite irá substituir Dunga já no começo de 2016. A informação incomodou a CBF, que vetou a participação de Careca, auxiliar-técnico de Dunga nos jogos contra a Argentina e o Peru, no programa do apresentador Galvão Bueno no Sportv. Depois de dias e muita reclamação da Globo, Careca foi liberado para participar do programa.

No Brasil, a impressão é de que não faltam motivos para apostar em uma vitória sobre a Argentina. Dunga tem hoje, em sua opinião, o melhor jogador do mundo à disposição. Neymar está de volta ao time no jogo contra a Albiceleste e só assume essa condição de número 1 do planeta graças à ausência de Messi, machucado, que desfalca o rival e deixa o posto de destaque para o atacante brasileiro tanto no Barcelona quanto no clássico sul-americano. Não bastasse a ausência de Messi, a Argentina ainda entrará em campo desfalcada de outros grandes jogadores. Agüero, Tevez, Zabaleta e Garay já foram cortados por contusão e Pastore, um dos destaques do PSG, corre o risco de ficar de fora. Além disso, há tempos o futebol argentino não vive fase tão complicada. Sob o comando de Tata Martino, a equipe conquistou apenas um ponto nos dois primeiros jogos das eliminatórias. Foi derrotada por 2 a 0 pelo Equador em Buenos Aires e ficou no 0 a 0 com o Paraguai em Assunção.

Baixando a pressão

Seria difícil imaginar cenário mais favorável para uma vitória brasileira na casa do rival, certo? Errado. Pelo menos na opinião de Dunga, o Brasil também tem motivos de sobra para se preocupar. “A Argentina joga em casa, tem outros jogadores, que jogam nos melhores clubes da Europa, é vice-campeã mundial, tem um trabalho de 10 anos praticamente com a mesma base de jogadores, então é um time muito forte.” Mas nem a ausência de Messi representa uma perda significativa do poder da equipe? “Não tem favoritismo de um ou de outro, as duas seleções tem jogadores de reposição.” O volante Elias, porém, discorda do treinador. “Messi é um jogador insubstituível.”

É natural que neste momento o discurso de Dunga pregue a cautela e desvie para bem longe o favoritismo do Brasil. O treinador tem convivido diariamente com perguntas sobre a provável demissão. Na entrevista coletiva que concedeu na manhã desta quarta, Dunga respondeu pelo menos duas vezes sobre a possível substituição no comando da equipe no fim do ano. Mais calmo do que de costume, tentou minimizar o desconforto causado pela impressão ruim de seu trabalho e a convivência com o fantasma de Tite. “Isso tudo não passa de especulação, não tenho mais o que falar. Iniciamos um trabalho na seleção, é difícil para todo mundo. Após dois jogos as pessoas já querem que os problemas antigos sejam solucionados, mas não é assim. Falamos em trabalho de longo prazo. Os torcedores têm que entender que os jogadores chegaram na segunda-feira, alguns na terça, treinamos na quarta e vamos jogar na quinta. Então aumentou a dificuldade.”

Apesar de usar a falta de tempo como justificativa para um possível tropeço, Dunga sabe que do lado argentino a programação foi exatamente a mesma. Alguns jogadores das duas equipes saíram juntos da Europa, portanto tanto ele como Tata Martino encaram as mesmas dificuldades relativas à logística de treinamentos. Para piorar um pouco a situação do brasileiro, uma derrota em Buenos Aires seria a primeira dele no à frente da seleção para o maior rival. Na primeira passagem pelo cargo, Dunga comandou o Brasil no clássico cinco vezes, com quatro vitórias e um empate.

Para dificultar a vida dos argentinos, Dunga não quis divulgar a escalação do time que entrará em campo em Buenos Aires. Fechou os treinos e não deixou a imprensa acompanhar a montagem da equipe. A principal dúvida é quem sairá para a entrada de Neymar. Douglas Costa, destaque do Bayern de Munique, Ricardo Oliveira, artilheiro do Campeonato Brasileiro, e Oscar são os principais candidatos. No gol, Cássio, Alisson e Jefferson ainda disputam a vaga. A única certeza é que Neymar estará em campo. O treinador sabe bem que é dos pés do atacante do Barcelona que devem sair as melhores jogadas do Brasil. Neste momento, é nas costas de Neymar que está o sucesso da equipe nas eliminatórias. E, provavelmente, o emprego de Dunga no comando da seleção brasileira.

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