Coluna
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Ninguém em casa

Um diário que nunca escrevi sobre alguns dos 25 locais, em seis cidades, em que vivi

Para Helena Terra

Dia desses, listei os lugares em que morei: somaram 25 locais em seis diferentes cidades (Cataguases, Juiz de Fora, Alfenas, Rio de Janeiro e São Paulo). Abaixo, compartilho algumas páginas de um diário que não escrevi, relativo a um curto período dos já distantes anos 1970, que abarcam sete endereços diversos. Talvez o leitor encontre algo nas anotações – não havendo nada, entretanto, pelo menos terá percorrido ruas desconhecidas, esbarrado em pessoas anônimas, batido em portas insuspeitas. Se minhas recordações fizerem despertar-lhe alguma lembrança, me dou por satisfeito.

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1972 – Cataguases (MG)

Janeiro - Finalmente, nossa casa no Paraíso, construída em mutirão, ficou pronta. Despendi inúmeros domingos em cima de uma Göricke preta com frisos dourados, freio contra-pedal, levando garrafões de suco de uva e sacolas cheias de pão com molho de tomate e cebola para os amigos e colegas do meu irmão poderem levantar as paredes, assentar o piso, puxar a fiação elétrica, bater a laje, rebocar e pintar as divisões. Vamos sair do cortiço na Vila Teresa em que nossa família mora há 15 anos e agora, como diz minha mãe, livres do aluguel, conseguiremos talvez sossegar o espírito.

1978 – Juiz de Fora (MG)

Janeiro - Após um dia inteiro de buscas, arrumei emprego numa oficina mecânica na rua Saint-Clair de Carvalho. Instalo-me num minúsculo quarto, nos fundos do prédio. Durmo num colchonete estendido no chão e tenho um rádio de pilha laranja. O torno no qual trabalho é antigo e o lugar, imundo. Quando a tarde cai, meu corpo está impregnado de fuligem e meu suor cheira a aço usinado. Sinto vergonha das minhas mãos calejadas e pretas de ferro-fundido ao refestelar-me na carteira do colégio, à noite.

Abril – Continuo trabalhando na oficina mecânica, mas me mudei para a Pensão Garfo de Ouro, na avenida Rio Branco, onde divido o dormitório com outros 13 colegas, distribuídos em sete beliches. Há seis funcionários da Construtora Mendes Jr, operadores de máquinas escavadeiras que se preparam para embarcar para o Iraque e a Mauritânia, onde a empresa tem obras: estão entusiasmados, mas temerosos. Há dois desempregados, que revolvem impacientes as ruas da cidade e retornam exaustos e desiludidos; dois universitários pobres, um cursa Direito, o outro, Engenharia; um sujeito simpático que me parece jogador de cartas; outro, carrancudo, que me parece traficante; um, paranoico, que dizem subversivo; outro, que ninguém tem ideia do que faça.

Outubro – Animado, meu pai me procura para anunciar que se aposentou. Como vai continuar em atividade, acredita que sobrará algum dinheiro para me ajudar. Informa ainda que Pedro, irmão da minha mãe, está construindo uma casa na periferia da cidade. Convenço, então, meu tio a me deixar ocupar o único cômodo habitável. Adquiro cama, colchão, lençóis e cobertas (estranhei imensamente o frio da cidade) e largo o emprego para me dedicar exclusivamente ao vestibular. Acordo todos os dias bem cedo, tomo café e como pão com margarina, e, antes que o pedreiro e o servente comecem o serviço, isolo-me no quarto. Não sei se chove, se faz sol; se frio ou calor. Não existo para o mundo.

1979 – Juiz de Fora (MG)

Janeiro – Vou estudar Jornalismo na universidade federal. Deixei a casa em construção no Vale dos Bandeirantes, muito longe, e me hospedo numa pensão familiar na rua Barão de Cataguases, no centro. Divido o aposento com um ginasial que mantém um skate sob a cama. Ele é calado, eu, tímido. Não falamos um com o outro. A casa é grande, a senhoria, embora triste e melancólica, boa, e tudo cheira a limpeza. Mas há cinco noites não durmo. Na madrugada, gritos lancinantes, terríveis, interrompem-me o sono; no breu o coração disparado, os olhos esbugalhados, sinto falta da minha mãe. Acordo angustiado, olheiras profundas.

Janeiro, uma semana depois – Por acaso, encontro V. na rua Marechal Deodoro, onde é balconista numa loja de produtos veterinários. Conhecia-o de vista em Cataguases, mas nunca havíamos conversado. V. me diz que há vaga na república onde vive, na rua Moraes Sarmento, caminho da universidade. Dia seguinte, transfiro-me para lá. Somos seis na casa de quatro cômodos, repartidos em dois quartos. Três fazem cursos técnicos em escolas privadas (incluindo V.), M. prepara-se para o vestibular de Odontologia e D., o mais velho, é terceiranista em Medicina. Nos próximos dois anos, teremos de nos suportar.

Luiz Ruffato é escritor e jornalista.