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Furacão Patrícia é um indício de que o El Niño será “monstruoso” no Pacífico

Governo dos EUA recomenda aos californianos que comprem seguros contra inundações

Temperaturas no Pacífico já estão no mesmo nível do pior El Niño registrado, em 1997

Furacão Patricia em Houston Ampliar foto
Carros submersos em Houston pelas chuvas do furacão Patrícia. AP

Enquanto o México respira após a passagem do furacão Patrícia, o resto do Pacífico tira conclusões. A formação em apenas dois dias do mais potente furacão já registrado pelo Serviço Meteorológico dos EUA confirmou que o aumento de temperaturas no Pacífico está intensificando as precipitações e dá indícios de que a temporada de chuvas conhecida como El Niño pode ser a mais destrutiva em décadas. A imprensa da Califórnia, especialista em alertar sobre o apocalipse, desde o começo de 2015 inventa nomes como “El Niño Monstruoso” e “El Niño Godzilla” para explicar o que deve acontecer nessa região até o final do ano. O furacão Patrícia foi o primeiro exemplo real dessa ameaça.

O fenômeno do El Niño é formado por uma corrente quente no Pacífico da altura do litoral do Peru que altera o clima e provoca fortes chuvas. Especialistas da Organização Meteorológica Mundial alertaram em setembro que o próximo El Niño será um dos mais fortes desde 1950. A última vez em que foi registrado um aquecimento com essas características no Pacífico foi em 1997. Em agosto, as temperaturas já estavam entre 1,3 e 2 graus centígrados acima da média.

Não é certo que o fenômeno tenha sido a causa da formação do Patrícia, mas contribuiu para que fosse tão intenso, segundo os meteorologistas, e é o responsável pelo número incomum de tormentas tropicais ocorridas no Pacífico em 2015. Ocorreram oito, o dobro do último recorde, segundo declarações do pesquisador do clima Phil Klotzbach à revista National Geographic no domingo. No ano do pior El Niño já registrado, 1997, o furacão Pauline causou estragos em Guerrero e Oaxaca, no México.

Na Califórnia, as notícias se sucedem desde o começo do ano sobre o aquecimento do mar. Os surfistas afirmam que não viram correntes parecidas em pelo menos uma geração. Os cada vez mais frequentes avistamentos de tubarões próximos à costa são atribuídos à temperatura da água. Há dez dias, banhistas de Oxnard encontraram uma serpente marinha muito venenosa (serpente de barriga amarela) cuja presença no sul da Califórnia também foi atribuída ao aumento das temperaturas. Essa espécie não era vista na região há 30 anos, também durante uma temporada de El Niño. O fenômeno também é responsabilizado pelos altos índices de mortalidade de leões marinhos no litoral em 2015.

Bananeiras arrasadas pelo furacão Patrícia em Jalisco. ampliar foto
Bananeiras arrasadas pelo furacão Patrícia em Jalisco. AP

O fenômeno já se nota no litoral da América do Sul. Em julho, 14 regiões do Peru foram declaradas em estado de emergência. Em uma entrevista ao EL PAÍS, o coordenador técnico de emergência peruano disse que existiam condições para a formação de um El Niño “extraordinário”. No Chile, agosto e setembro trouxeram muita chuva ao centro do país depois de oito anos de seca. O deserto chileno, que se transforma em atração turística quando tem flores, mostra o maior florescimento dos últimos 18 anos.

O último sinal de preocupação foi lançado na sexta-feira pela agência federal de emergências dos Estados Unidos (FEMA). Em uma entrevista coletiva um de seus responsáveis, Roy Wright, recomendou aos habitantes da Califórnia que comprem seguros contra inundações, até mesmo se viverem em regiões afastadas do litoral.

O sul da Califórnia, particularmente, está muito mal preparado para qualquer precipitação que seria considerado normal em outro lugar. Em Los Angeles, uma hora de chuva pode deixar bairros inteiros sem luz e provocar grandes engarrafamentos. Na região norte da cidade, na entrada do deserto de Mojave, no sábado uma tempestade transformou a areia do deserto em um rio de barro que sepultou até o teto quase 200 veículos. As equipes de resgate encontraram um cadáver em um deles vários dias depois.

Depois de quatro anos de seca, o sul da Califórnia não precisa de chuvas torrenciais. A imprensa californiana lembra que a temporada do inverno de 1997-1998 provocou 17 mortos e 500 milhões de dólares (1,96 bilhão de reais) em danos. Essa chuva é necessária no norte, onde está a reserva de água que abastece quase todo o Estado. A previsão mais recente da administração através do NOOA (Administração de condições atmosféricas e dos oceanos) indicou em 15 de outubro que a possibilidade de chuvas em Los Angeles é de 60% a 69%, enquanto ao norte de Sacramento, onde é mais necessária, é de 30% a 39%.

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