Eleições na Argentina

“Os argentinos conseguiram fazer que os políticos tenham medo do povo”

Historiador que apoiou o kirchnerismo acredita que Scioli representará uma virada à direita

Felipe Pigna (Mercedes, Buenos Aires, 1959) é o historiador mais conhecido da Argentina, com quase 600.000 seguidores no Facebook, graças à sua capacidade de explicar a história de maneira simples e atraente na televisão, com programas que obtém um sucesso gigantesco, como “Algo habrán hecho” [Alguma coisa eles fizeram]. Para Pigna, que apoiou o kirchnerismo, o fator principal que tirou a Argentina da disputa que chegou a ter em certo momento com os Estados Unidos pela primazia no continente é a burguesia de seu país. Ele acredita, também, que agora deverá ocorrer uma virada à direita.

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Pergunta. De um ponto de vista histórico, qual é o momento que vive hoje o seu país?

Resposta. Acredito que a Argentina vive um momento muito importante, em que tem de escolher entre duas alternativas: a continuidade com mudanças, que tem relação com a postulação ideológica do candidato mais alinhado com a centro-direita; ou uma volta aos anos 90. Scioli está mais para a centro-direita dentro do peronismo; e o outro é um candidato de direita clássico.

P. O que aconteceu para que a Argentina, que ocupava um lugar de destaque internacional, tenha caído tanto?

R. No final do século XIX, começo do XX, o país era a quinta potência mundial e era visto como um país rico, mas com essa riqueza sendo muito mal distribuída, Isso gerou muitos conflitos sociais, que foram tornando a situação mais complicada. Nossa burguesia é especialmente egoísta, e tinha uma enorme dificuldade para entender que o setor industrial atuava a seu favor. A mentalidade conservadora de 1880 era anti-industrial, diferentemente do que acontecia nos Estados Unidos. Os dois países travavam uma disputa muito acirrada nos anos 80 e 90 do século XIX. Discutiam de igual para igual. A burguesia argentina não soube olhar para o futuro. Depois surgiu o peronismo, que significava um crescimento com inclusão, mas a burguesia não o tolerou. Começou a haver, então, uma fuga de capitais. O peronismo introduziu muitas pessoas ao mundo do consumo, incrementou salários, mas os empresários argentinos, em vez de aumentar a produção, aumentaram os preços das coisas. Escolheram o caminho mais fácil. Temos hoje uma fuga de capitais que se aproxima dos 300 bilhões de dólares. Essa burguesia multimilionária se deu bem quando o país ia bem e se deu bem, também, quando o país ia mal. Tem uma grande capacidade de resistência, um controle muito forte do poder, muito dinheiro, muito poder, que só viu crescer, inclusive nos últimos anos. Não tem se dado nada mal.

P. O kirchnerismo, então, apesar de seu discurso, deixou os ricos mais ricos.

R. A visão que se tem de que o kirchnerismo instituiu o socialismo é ridícula. Creio que houve um crescimento das fortunas que já eram enormes. O kirchnerismo cometeu erros, mas há um ponto fundamental, que é que o poder praticamente nunca esteve em disputa. O único que disputou o poder com eles foi Perón, nas suas duas primeiras eleições presidenciais.

P. O que acha que vai sobrar do kirchnerismo?

R. Primeiramente, algo muito importante, que foi o retorno do debate político, que estava totalmente abafado. Não se discutia política, mas apenas economia, desde o final dos anos 90. Parece-me, também, que vai permanecer um início de um modelo de desenvolvimento produtivo e de inclusão. Também ficará essa questão que para muitos é a presença forte demais de figuras como a de Néstor e Cristina, como um excesso de peso pessoal.

P. Há muitas críticas ao ensino argentino.

R. Sim, este é um assunto importante. Mas, por outro lado, houve um investimento enorme, que é visível quando se percorre o país. Acredito que há, ao mesmo tempo, um problema estrutural. A educação argentina era um modelo até os anos 70. O filho do prefeito, o filho do fazendeiro, o filho do trabalhador, todos estudavam nas escolas públicas. E isso era maravilhoso. Hoje, a classe média opta pela escola privada, deixando a escola pública para os pobres.

P. A divisão interna lhe preocupa?

R. Eu vejo que há uma fenda, um precipício histórico na Argentina. É um país que conheceu 60 anos de guerra civil, de 1810 a 1870-1880. Conheceu massacres operários nas décadas de 10 e 20, ditaduras terríveis. A divisão existente entre nós não é nenhuma novidade. Este governo não é o único responsável por isso. Para os veículos de comunicação hegemônicos, tudo vai mal; para os apoiadores do governo, tudo vai bem. Tenho 590.000 seguidores no Facebook, e, se você diz “que bom que é isso”, é visto como um ultra K, e se diz “isso é ruim”, vira um inimigo.

P. E a questão da corrupção?

R. Vivemos um momento de grande corrupção, que é muito preocupante. Lamentavelmente, toma conta de tudo, sem exceções.

P. Como você vê a disposição de ânimo do país?

R. Acredito que as pessoas estão bem. Sempre acabamos falando mais do portenho, que é uma pessoa muito participativa, muito histérica, muito apressada. Mas não vejo que exista o espírito de “que vá tudo à merda”, como acontecia em 89 ou em 2001. As pessoas passaram por um mal bocado, suas contas foram roubadas, tiraram dinheiro dos bancos. É fácil entender que esteja bem ressabiada.

P. Não acredita na ideia de decadência?

R. Este país não tem nada de decadente. Acredito que quem está em decadência é a Europa, não a América Latina. A Europa se acha o umbigo do mundo. Não queremos ensinar nada a ninguém, mas a Europa teria muito a aprender conosco, se quisesse. Já passamos por situações que eles estão passando apenas agora. Ficaríamos muito felizes se pudéssemos lhe advertir, humildemente, a que tenham cuidado com os bancos, que não confiem no Fundo Monetário Internacional, pois não existe nenhuma receita dele que não acabe em desastre. Infelizmente, a Europa avança, quase cegamente, no sentido de aceitar esse modelo, de dizer para a Grécia que ela tem de fazer isso. E já sabemos como a coisa acaba.

P. A Argentina caminha para adoção de um ajuste como o do Brasil?

R. Acredito que não. Seria muito difícil, porque as pessoas não aceitariam isso. Veja como o próprio candidato da direita se preocupa em dizer que não irá tocar nos programas. Isso é uma vitória da população, uma conquista dos argentinos. Como dizia Maquiavel, a única maneira de levar os políticos a agirem como têm de agir é fazer com que tenham medo do povo. Não há segredo. Eu, que leio de tudo sobre a história mundial, afirmo que é sempre assim. E me parece muito interessante que os candidatos de todos os matizes políticos tenham medo do povo.

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