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Vinil, o velhote hipster que vence o streaming

Os discos são o único modelo físico a aguentar o crescimento sem trégua do ‘streaming’

De formato sensação a desaparecer pouco a pouco das lojas. Há 10 anos eram vendidos na Espanha 40 milhões de CDs, hoje essa cifra alcança apenas 11,6 milhões. Uma queda de 75% que tem um culpado: o streaming. E há uma década eram negociados 15.000 discos de vinil, e no ano passado foram 260.000 vinis (aumento de 1.700%). Com 75 milhões de usuários em 32 países, plataformas como Spotify e YouTube impuseram uma mudança de paradigma: não é mais necessário comprar fisicamente a música. Uma exceção escapa à regra: os vinis. Esse modelo minoritário e quase extinto, longe de simplesmente manter suas vendas, as multiplicou, segundo dados de levantamentos da Promusicae, associação que reúne 90% dos produtores e distribuidores espanhóis, no período compreendido entre 2006 e 2014.

As vendas de vinil aumentaram 1.700% nos últimos anos

As pequenas lojas especializadas, que resistiram a seu quase desaparecimento com a venda de pôsteres e ingressos para shows, são as grandes beneficiadas. Mas não as únicas. As lojas grandes e o comércio online também aumentaram os espaços dedicados ao formato. O portal Amazon, líder no comércio eletrônico mundial, oferece em seu catálogo 1,3 milhão de discos. Um aumento nas vendas de 80% nos últimos três anos referenda sua boa saúde.

Entre paredes cinza e laranja, Alberto Real, dono da Escridiscos, uma das lojas mais emblemáticas de Madri, sorri ante a pergunta. Toca na vitrola da entrada, como uma inesperada metáfora, a música Run Better Run, de Cheapskates. “O vinil deixou de ser um objeto de colecionador de uma minoria para estar na moda. Todo mundo quer comprar discos”, responde. “Para a indústria interessa que o formato volte: sua produção é barata e o lucro é grande”. Real, como Rob Fleming, o protagonista do livro Alta Fidelidade, vende em sua loja a música que gosta de ouvir.

Lojas de discos recuperam a vida

C.S.

O aumento das vendas não só tornou viáveis as lojas especializadas em vinis, mas também outros negócios, como as livrarias, que aderiram à moda: mais de uma dezena oferece discos antigos entre as últimas novidades literárias. O negócio não para de crescer: durante o primeiro semestre do ano foram vendidos na Espanha 61% a mais de discos de vinil, segundo dados da Promusicae.

Os arredores da praça de Callao, em Madri, concentram meia dúzia desses pequenos estabelecimentos por onde passa a história viva da música. Antonio Real, dono de uma delas, conta como piada enquanto tecla em seu velho computador como Bruce Springsteen visitou sua loja, procurando discos velhos de soul, antes de seu primeiro show na capital espanhola, em 1988.

Em 2005, foram vendidos apenas 15.000 exemplares (1.700% a menos do que em 2014). Esses locais resistiam a aqueles dias vendendo todo tipo de merchandising musical. Eram os anos em que vender discos não era rentável.

Motivos do ressurgimento

Muitas são as razões que explicam esse ressurgimento, desde a moda vintage, que valorizou esses objetos novamente como produtos de culto, até uma decisão premeditada da indústria, em busca de maior diversificação. “Demos resposta a uma demanda crescente. Só isso”, afirma Antonio Guisasola, presidente e porta-voz da Promusicae. “A venda de discos sempre foi um nicho muito pequeno”. O que não admite discussão é que o setor está apostando no formato com o lançamento de reedições remasterizadas. Neil Young, Pink Floyd e Radiohead alcançaram a lista dos mais vendidos. Mas os grupos atuais também valorizam seus novos trabalhos com edições limitadas e detalhadamente cuidadas. “É uma forma de cuidar dos fãs mais incondicionais”, dizem.

A tendência se reproduz no mundo. A associação norte-americana de produtores (RIAA) anunciou há alguns dias que os ganhos com a venda de vinis superou o streaming gratuito: 222 milhões de dólares (866,7 milhões de reais) até o momento em 2015. Nesse sentido, relatório da IFPI, a associação que reúne os distribuidores internacionais, reflete um aumento nas vendas de 55%; nos últimos cinco anos chega a 800%

Os grupos atuais lançam edições limitadas em disco como forma de cuidar de seus fãs mais incondicionais

Na porta da Discos Babel, Raúl Barral, com uma coleção de mais de 2.000 LPs, recorda do velho toca-discos de seu pai e do primeiro vinil que ganhou de presente quando não tinha mais que “11 ou 12 anos”: Abbey Road, dos Beatles. “Gosto do simples fato de procurar e ver que encontro. Normalmente, não compro nada”, diz. No entanto, hoje leva debaixo do braço uma reedição de Story of My Life, do Unrelated Segments, lançado pela primeira vez em 1967.

A qualidade do som

Os discos “tocam com mais qualidade”, se orgulham em dizer os amantes do vinil. A leitura dos imperceptíveis sulcos e relevos que compõem sua música, 36 vezes menor que um pelo humano, tem algo de romântico para a maioria. Na mítica La Gramola, toca a canção Fear Loves This Places. A voz rasgada de Julian Cope e o som de guitarra que percorrem todos os cantos desse local vão pouco a pouco se apagando enquanto um cliente se afasta com seu novo vinil debaixo do braço e os fones de ouvido conectados a seu telefone. Uma metáfora dos novos tempos.

Os colecionadores, essa espécie rara que compra seus vinis atendendo aos critérios mais díspares, aumentam a cada dia. Como diria Fleming: “Há pessoas que encontram uma forma bastante chata para passar uma noite, mas eu não estou entre elas.”

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