Medo ao ebola

“O mundo não está preparado para outra epidemia como a do ebola”

Em entrevista ao EL PAÍS, Margaret Chan, diretora-geral da Organização Mundial da Saúde, critica a hesitação da comunidade internacional em intervir contra o vírus na África

Margaret Chan, diretora geral da OMS.
Margaret Chan, diretora geral da OMS.ALEXANDRE GELEBART/SIPA

Quase três anos depois do início da atual epidemia de ebola, que matou mais de 11.000 pessoas na África Ocidental, a diretora-geral da Organização Mundial da Saúde (OMS) faz um balanço de como a situação foi tratada. Na segunda-feira, em uma conferência da Comissão Europeia (Poder Executivo da União Europeia) sobre as “lições aprendidas” nesta crise, Margaret Chan (Hong Kong, 1947) ressaltou que, enquanto no recente terremoto do Nepal pelo menos 100 equipes médicas internacionais foram mobilizadas em questão de semanas, no caso do ebola essas equipes podiam ser contadas “nos dedos de uma mão”. A chefa da agência sanitária da ONU defendeu a criação de um exército inspirado nos capacetes azuis para travar uma “guerra contra os agentes patogênicos”. Nesta entrevista ao EL PAÍS, Chan analisa o que mais seria necessário para enfrentar as novas epidemias globais que, opina, acontecerão com toda certeza.

Pergunta. Que erros a OMS cometeu na atual epidemia de ebola?

Resposta. A comunidade internacional, incluindo a OMS, demorou a reconhecer a magnitude esmagadora desta epidemia. Mas logo houve uma correção, e muitos países ajudaram a evitar o pior cenário, seja com contribuições econômicas e materiais ou enviando especialistas e laboratórios. Agora, pela primeira vez, não temos nenhum caso registrado em uma semana. Precisamos ficar de dedos cruzados, manter a vigilância, chegar a zero caso e nos mantermos lá. Mas uma coisa é preciso deixar clara: há 20 países da África dentro do raio de alcance do voo dos morcegos que transmitem a doença. A inter-relação entre humanos e animais é tão próxima, por causa do desmatamento e outros fatores, que continuará havendo novas infecções emergentes. Os 194 países que assinaram a regulamentação internacional de saúde devem manter seu compromisso de ter um sistema de saúde com capacidade de detectar precocemente enfermidades pouco frequentes, fazer um diagnóstico rápido e assegurar que os serviços sanitários cuidem das pessoas. Se houver um hospital sem salas de isolamento, a infecção se expandirá. Também se houver um laboratório que não é capaz de fazer o diagnóstico ou que o fizer incorretamente, como aconteceu na Guiné. Os Governos devem estabelecer sistemas para detectar e notificar os casos com transparência. Isso é o que chamo de sistema de alerta precoce, mas só um terço de todos os países da OMS tem essa capacidade.

P. Está o mundo preparado para confrontar uma nova epidemia assim?

R. Não estamos preparados. Uma doença pode emergir em qualquer lugar. Lembra-se da epidemia da gripe H1N1? O primeiro a notificá-la foi o México. Fez bem, foram transparentes e comunicaram o fato à OMS. A OMS mobilizou os EUA, o Canadá e outros para apoiarem o México. Mas os países não têm incentivos para agir assim. Por exemplo, o México foi castigado por seus países vizinhos com proibições de viagens e de comércio. Os países precisam cumprir suas obrigações, mas os demais devem obedecer à OMS. Não recomendamos essas proibições, mas ainda há 43 países que continuam a mantê-las por causa do ebola.

P. Qual acredita que tenha sido o papel da Espanha nesta crise?

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R. A Espanha, como um dos países da UE, agiu bem. Cada país fez o melhor que pôde. Mas, como você ouviu a Comissão Europeia dizer, houve um fator medo, um fator de coordenação, e eles tiveram dificuldade de mobilizar as pessoas. Todos precisamos aprender a lição. Só tenho uma certeza: teremos outra crise. Não há meio de escapar das enfermidades novas e emergentes. Quanto mais estivermos preparados, mais possibilidades haverá de minimizar o impacto, o sofrimento e a perda de vidas.

P. E a vacina do ebola?

R. Agora a vacina está em testes clínicos, ainda não foi aprovada para venda. Não acredito que deva ser usada de forma generalizada. E, mesmo que for aprovada, o número de doses não é suficiente para cada país da África. Mas não precisamos disso. Se se apresentarem os resultados dos testes clínicos à FDA [agência de controle de medicamentos dos EUA] e derem sua licença, trabalharemos com o GAVI [a Aliança para as Vacinas] para obtermos uma reserva e levamos as vacinas a qualquer país que tiver um surto, ajudando assim a controlá-lo.

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