Papa Francisco na América

Papa admite que nunca pensou em se reunir com dissidentes cubanos

Francisco aterrissa nos Estados Unidos para a segunda metade de sua viagem

A bordo do avião do Papa - 23 sep 2015 - 14:20 UTC
Obama e o Papa Francisco, nesta terça.
Obama e o Papa Francisco, nesta terça.SAUL LOEB / AFP

Das sete perguntas formuladas ao papa Francisco durante o voo entre Santiago de Cuba e Washington, cinco traziam implícita a percepção de que ele se mostrou condescendente demais com o regime dos irmãos Fidel e Raúl Castro e, em contrapartida, ignorou a repressão aos dissidentes. As respostas de Jorge Mario Bergoglio não só não mudaram tal percepção como a acentuaram. O Papa afirmou desconhecer que durante sua visita houvessem ocorrido detenções de ativistas e confirmou que nunca havia tido a intenção de reunir-se com a oposição. Quando lhe perguntaram se acreditava que Fidel Castro se arrependeu do sofrimento do povo cubano durante seu regime, respondeu: “O arrependimento é uma coisa muito íntima. Fidel e eu não falamos do passado”.

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Bergolio, perito em responder de pronto às provocações e se sair bem das questões mais difíceis, demonstrou incômodo e foi evasivo quando lhe perguntaram sobre as prisões –algumas efetuadas com contundência perto do papamóvel – e a possibilidade de receber os perseguidos pelo Governo cubano. “Não estou sabendo que ocorreram detenções, não tenho nenhuma informação”, garantiu Bergoglio a bordo do voo AZ 4001 da Alitalia. Sobre se estaria disposto a receber os críticos do regime, disse: “Não posso dizer sim, não. Não sei, diretamente não sei. Eu gostaria? O Que aconteceria? Essas perguntas são hipotéticas. Eu gosto de me encontrar com todas as pessoas. Considero que, primeiro, toda pessoa é filha de Deus e tem direito. E, segundo, o trato com outra pessoa sempre enriquece. Ou seja, que ao hipotético lhe respondo assim”.

Diante de outra pergunta sobre sua suposta tibieza em relação aos perseguidos, o Papa disse que o trabalho de ajuda, silencioso e prático, já é desempenhado pela Igreja cubana: “A Igreja daqui já fez uma lista e foram indultadas mais de 3.000 pessoas. Mais casos serão estudados e a Igreja cubana está comprometida em continuar trabalhando sobre os indultos. Também alguém me disse que seria lindo que se acabasse com a prisão perpétua. Eu já disse que a prisão perpétua é quase uma pena de morte escondida, é como estar morrendo todos os dias”.

Um jornalista francês e um italiano puseram sobre a mesa uma acusação, cada vez mais presente em alguns setores conservadores, sobretudo dos Estados Unidos. Sustentam que a beligerância de Bergoglio, por exemplo, contra o sistema econômico mundial contrasta com suas posições mais amáveis para com atitudes ou Governos de esquerda. “Já se falava de um papa comunista”, afirmou um dos jornalistas. “Agora se chega a falar de um papa que não é católico. Ante essas considerações, o que o senhor pensa?” Jorge Mario Bergoglio lhe respondeu com uma história de um amigo cardeal a quem “uma senhora muito católica e um pouco rígida” perguntou se ele era o anticristo ou o antipapa porque não calçava sapatos vermelhos. Já mais sério, disse: “Estou certo de que não falei nem uma coisa a mais que não estivesse na doutrina social da Igreja. No outro voo uma colega de vocês me disse que eu havia estendido a mão aos movimentos populares e me perguntou, mas a Igreja vai segui-lo?’ Eu lhe disse “sou eu que sigo a Igreja’. E nisso parece que não me engano. Creio que nunca disse uma coisa que não estivesse na doutrina social da Igreja. Não, minha doutrina sobre tudo isso, sobre aLaudato Si, sobre o imperialismo econômico, tudo isso, é a da doutrina social da Igreja. E se for necessário que eu recite o credo, estou disposto a fazê-lo, eh?”.

Alguns minutos antes das quatro da tarde nos Estados Unidos (cinco da tarde em Brasília), a comitiva papal aterrissou na base militar de Andrews, onde ele era esperado pelo presidente Barack Obama e sua família.

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