ANNA MUYLAERT | CINEASTA

“Não há Oscar que pague sentir que seu filme muda a vida de pessoas”

Para a diretora de ‘Que horas ela volta?’, o sucesso se mede nas reações das pessoas

Regina Casé e Anna Muylaert na pré-estreia do filme em SP.
Regina Casé e Anna Muylaert na pré-estreia do filme em SP.Divulgação (Facebook)

Colecionando cartas de espectadores tocados por seu Que horas ela volta?, Anna Muylaert nem precisaria de mais um troféu, mas já o conquistou: o filme, que trata da torta relação entre patrões e domésticas no Brasil e no resto da América Latina, foi indicado para a corrida pelo Oscar estrangeiro de 2016.

Ela é a primeira mulher a representar o país às portas da Academia em 30 anos (antes dela, Suzana Amaral fez isso, com A hora da Estrela). Mas está mesmo feliz com o fato de que ninguém fica indiferente à história de Val, a empregada que, graças ao reencontro com a filha que chega de longe, deixa de se sentir como "uma cidadã de segunda classe".

De Miami, onde está neste momento para a apresentação do filme no Festival de Cinema Brasileiro de Miami, a diretora falou ao EL PAÍS sobre a gênese e o sucesso desta história que levou 20 anos circulando por sua cabeça, resgatando memórias da própria infância com uma babá e também as vivências do embate entre maternidade e trabalho em sua vida. 

Um caminho de sucesso

A carreira de Que horas ela volta?, o filme brasileiro que maior boca a boca gerou nos últimos tempos, já começou promissora. Premiado em dois importantes festivais internacionais – Sundance e Berlim –, foi muito além do que a grande maioria costuma ir em sua busca por espectadores. Mas não parou por aí. Com críticas elogiosas e declarações de amor à cineasta Anna Muylaert (Durval Discos e É proibido fumar) e à protagonista Regina Casé, o filme extrapolou a panela do audiovisual e caiu nas graças do povo assim que chegou ao circuito comercial. E por "povo" entenda-se não só as massas menos abastadas, mas também a elite, ambas postas na tela pelo filme.

Com a história de uma empregada, Val (Regina Casé), que cuida do filho de sua patroa, enquanto alguém mais cria sua filha Jéssica (Camila Márdila), o longa já fez 150.000 espectadores, ganhando público a cada semana de exibição. Para atender a demanda crescente, expandiu seu circuito brasileiro em 90%, e a distribuidora Barbara Sturm, da Pandora Filmes, também responsável pela programação do cinema Belas Artes, em São Paulo, já declarou que fará de tudo para que lá ele fique ao longo de um ano.

No exterior, a recepção tem sido igualmente calorosa, graças à sua qualidade técnica e, sobretudo, artística. O site Rotten Tomatoes, que ranqueia produções do mundo todo a partir das críticas de usuários, tem Que horas? com 96% de aprovação. Mas o que fica, especialmente para o público brasileiro, a quem o filme se destina em primeiro lugar, é a provocação amorosa que ele faz de uma dura realidade, com compaixão e sem julgamentos fáceis.

Pergunta. Seu filme escancara uma realidade negativa que é latino-americana, mas ao mesmo tempo é amável. Como você chegou a esse resultado? O que teve em mente para buscar esse equilíbrio?

Resposta. Eu estava buscando falar de um jogo, um conjunto de regras que todos jogamos, todos somos cúmplices, mas individualmente não somos culpados. Não queria julgar ninguém. Apenas queria expor o jogo, e, neste jogo, embora exista muita perversidade e violência, há também muito afeto. Eu queria falar da complexidade dessa nossa cultura de um modo sutil e não panfletário, justamente para que não gerasse rejeição, que as pessoas pudessem ver os próprios erros com compaixão.

P. Ele ia se chamar A porta da cozinha. Até quando, a seu ver, teremos essa separação entre o espaço da elite e o popular, no Brasil?

R. Acho que isso ainda está muito atrasado no Brasil, onde a mente escravocrata está durando tempo demais. Não se trata de uma questão partidária – como pode parecer agora –, mas sim de contemporaneidade. Na Europa, quando termina o filme, eles perguntam chocados: “Mas isso existe?”. Eles não acreditam que exista. Acho que isso persiste, em primeiro lugar, porque há um problema de educação enorme no Brasil. A educação pública não é boa, e, se o aluno não for excepcional, vai sair da escola sem preparo. E a segunda questão é que nossa elite, além de preguiçosa, é retrógrada. Acha chique ir para Europa, mas não quer abrir mão de seus privilégios em nome de uma nação mais democrática socialmente.

P. Como foram as sessões que aconteceram em São Paulo e no Rio de Janeiro com empregadas domésticas na plateia?

R. A sessão das empregadas em São Paulo foi especialmente forte. Eu não consegui sentir tão bem as reações na hora, porque elas estavam muito chocadas. Depois, soube que um grupo saiu dali e passou a tarde numa espécie de terapia, falando de coisas que estavam presas há muito tempo…

P. Você teve, de pequena, uma empregada que participou intimamente da sua criação. Essa história nasce de algum processo seu de compreensão das relações que aconteciam na sua própria casa? E de que maneira sua babá inspira a personagem de Regina Casé e você, o personagem Fabinho [o filho da patroa de Val]?

R. Comecei a escrever o roteiro há 20 anos, logo depois de ter meu primeiro filho. Eu, que sempre dei muita ênfase na carreira profissional, de repente percebi que o trabalho da mãe não era apenas o trabalho mais importante do mundo, era um trabalho sagrado. Ao mesmo tempo, atentei para o fato de que – no meu meio social – era um trabalho desvalorizado e que muitas mulheres preferiam entregar cotidianamente seus filhos aos cuidados de babás com baixos salários. E, muitas vezes, essas mulheres tinham que largar seus próprios filhos para poder cuidar dos filhos dos outros. Percebi que na figura da babá estavam contidos grandes paradoxos da sociedade brasileira: paradoxos sociais, afetivos e culturais que circundavam todos em relação à questão da educação. Me inspirei na história de Edna, que foi babá de meu caçula anos atrás e, para criar a personalidade de Val, na Dagmar, que trabalhou na casa de minha mãe quando eu era criança.

P. Quem precisa de ajuda em casa pode sentir culpa ao ver o filme, se puder se colocar no papel da mãe e sentir a tristeza do filho ao perguntar “Que horas ela volta?”. Sob que perspectiva você quis construir essa relação mãe e filho?

Grupo presente na sessão especial para domésticas em São Paulo.
Grupo presente na sessão especial para domésticas em São Paulo.Divulgação (Facebook)

R. Esse título aconteceu pelo ponto de vista da criança. Eu entendia que tínhamos ali o Fabinho, que estava sempre longe da mãe – e também a Jéssica, na mesma situação. Ambas crianças estavam esperando pela mãe. Que horas ela volta? é um título que se refere ao buraco causado pela ausência da mãe. Não acho que o filme gere culpa. O que gera culpa é ficar longe dos filhos, porque num mundo ideal acho que toda mãe gostaria de ficar perto de seus filhos. Por outro lado, nós, mulheres, conquistamos um espaço no mercado de trabalho e não vamos perdê-lo. E essa nova situação histórica – mães que trabalham fora – está trazendo novas questões e dúvidas. Outro dia, eu estava dando uma entrevista pra uma jornalista inglesa e, no meio da entrevista, ela me perguntou: “Anna, estou com um bebê de sete meses e preciso trabalhar, o que faço?”. Eu ri e disse que não sabia, que cada um tinha que dar o seu jeito. Hoje mesmo aqui nos Estados Unidos, de onde respondo esta entrevista, uma americana veio com a mesma questão. Acho que temos que começar a debater isso e encontrar soluções. A ajuda dos pais com certeza será um próximo passo. Mas quando me deparo com isso não consigo deixar de pensar no modo de vida dos indígenas do Xingú, onde todas as crianças são criadas por todos os pais. Talvez, no futuro, tenhamos que voltar a uma situação similar.

P. O elenco do filme conta com uma atriz pop (para o público brasileiro) e experiente e outra que é um rosto novo e é iniciante – ambas muito talentosas. De que maneira essa combinação de atrizes potencializou o roteiro e a história como um todo?

R. Escolhi a Regina, antes de tudo, porque a considero uma atriz fascinante. Segundo, porque o tema do filme tem tudo a ver com o trabalho antropológico que ela vem fazendo na TV há muitos anos e que me faziam ver que ela, assim como eu, tinha – além de interesse – muito respeito pela figura da empregada doméstica. Também a escolhi por causa do seu tipo físico: ela tem ou parece ter essa mistura de raça, branca, negra e índia que a torna uma figura muito brasileira, além de ser uma atriz que não fez plástica e tem uma aparência de gente normal. Ao escolher a Regina, que é tão famosa, decidi que todo mundo em volta seria não-famoso. Comecei procurando atrizes pernambucanas, mas elas apresentaram nos testes um certo grau de sensualidade que não achei adequado para a Jéssica [filha do personagem de Regina no filme]. A Camila [Márdila, que interpreta Jéssica] surgiu através de testes de elenco. No começo, inclusive, eu não a queria, pois ela era muito branquinha. Acabei vendo que isso era um tipo de preconceito meu, e depois me surpreendi. A Camila tem uma feição mais fechada, sorri pouco e acaba causando estranhamento. Isso ficou muito rico no filme, porque isso era importante para o entendimento da personalidade livre e rebelde da Jéssica. Como as duas atrizes mal se conheciam e foram se conhecendo ao longo das filmagens, esse estranhamento foi pra tela.

P. Que horas ela volta? é o candidato brasileiro ao Oscar de 2016. O que isso significa para você: representar o cinema do país num prêmio de grande visibilidade?

R. Da minha parte, não existem expectativas. Sei que o filme tem uma carreira internacional linda, e, como fomos os escolhidos do Brasil para representar o país no Oscar, agora faremos o trabalho necessário para tentar uma nominação entre os cinco finalistas. Mas ainda está muito cedo. Meu maior objetivo hoje é fazer o filme chegar a mais pessoas no Brasil, porque o filme aqui, além de ser um filme, é um espelho. Meu maior objetivo é que ele gere debate no país.

P. E se ele ganhar: o que isso representaria para o cinema do Brasil, na sua opinião?

R. Essa é uma hipótese sobre a qual ainda não me debruço, porque não sou pessoa que alimenta esperanças. Mas, se isso acontecesse, acho que seria muito positivo tanto para mim, quanto para o cinema brasileiro – já que se trata de um filme muito simples, cujas qualidades estão baseadas mesmo na ideia e no trabalho artístico. Não há superprodução, é um filme que qualquer pessoa poderia fazer, e isso condiz com o nosso cinema. Além disso, ele discute ideias, o que o cinema brasileiro andou meio esquecido de fazer. Acho que acenderia no nosso cinema a vontade de dizer coisas, o que me parece positivo.

P. O filme está sendo muito comentado dentro e fora do país. Qual foi o elogio mais bacana a ele que você escutou e, por outro lado, a crítica mais acertada?

R. Desde o início, no Festival de Sundance, as críticas sempre foram muito positivas. Na Itália, diziam que “a melhor comédia social italiana do ano era brasileira”. Depois, veio a Espanha, com o EL PAÍS dizendo coisas lindas e francas, etc. Mesmo assim, acho que as críticas americanas foram as melhores. Eles não pouparam elogios em textos enormes e interpretativos. Teve uma que disse que eu era, um passo à esquerda, Almodóvar, e, um passo à direita, Bergman. Eu me divirto muito com todas. Mas, sinceramente, o que mais me comove mesmo são as mensagens que recebo do público diariamente. Ali estão depoimentos emocionados de histórias reais. Sentir que seu filme está mudando a vida das pessoas não tem Oscar que pague!

P. Mesmo depois de estrear em tantos lugares, Que horas ela volta? tem previsão de estreia ainda em poucos países da América Latina. O que você opina a respeito dessa circulação cultural latino-americana tão limitada?

R. É um retrato da sociedade de um continente e entendo que não o comprem. Para que comprar algo que irá causar mal-estar? No Brasil não têm outra escolha, porque é meu país [risos]. A maioria dos países que comprou nosso filme foi entre Sundance e Locarno em janeiro e fevereiro de 2015. Nosso agente de vendas ficou impressionado que os compradores latino-americanos chegavam lá, olhavam e não compravam. Mas agora, cerca de um mês conseguimos distribuição na Argentina, Uruguai e Paraguai no começo de 2016.

P. Há um filme chileno, La nana (Sebastián Silva; 2009), que trata da relação entre patrões e empregados, mas com uma personagem bem diferente, mais ácida, no lugar de Val. Você se inspirou nele, de alguma maneira, ou em outras obras sobre o mesmo tema?

R. Cheguei a ver o filme, mas não até o final, porque não tinha legendas, e meu espanhol é ruim. Não me inspirei nele, mas em outros filmes sul-americanos como Cama Adentro [2004; Argentina] e, mais ainda, El Custodio, de Rodrigo Moreno [2006; Argentina]. E também num conto do [escritor argentino] Julio Cortázar, A casa tomada.

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