Ataque do exército egípcio a mexicanos

Egito enfim pede desculpas ao México pelo ataque a turistas

Presidente egípcio, Abdel Fattah al-Sisi, pede perdão a Peña Nieto, por telefone

Al Sisi, presidente egípcio, na inauguração do Canal de Suez, em agosto.
Al Sisi, presidente egípcio, na inauguração do Canal de Suez, em agosto.

Quase quatro dias depois de o Exército egípcio matar por engano pelo menos oito turistas mexicanos e quatro de seus acompanhantes egípcios no deserto ocidental do país árabe, suas mais altas autoridades expressaram condolências ao povo do México. O presidente egípcio, Abel Fattah al-Sisi, assim o fez através de uma ligação telefônica para o seu homólogo mexicano, Enrique Peña Nieto, e também o ministro de Relações Exteriores, Sameh Shukry, por uma carta aberta aos mexicanos. Além das vítimas fatais, ficaram feridos outros sete viajantes de nacionalidade mexicana, cinco homens e duas mulheres. A chanceler do México, Claudia Ruiz Massieu, os visitou em um hospital do Cairo e afirmou que sua situação é “estável”.

“O presidente egípcio, Al-Sisi, ofereceu suas mais profundas condolências pela morte dos turistas mexicanos”, diz um comunicado público em que o Governo do Egito informou sobre a conversa entre os dois presidentes na terça-feira. A versão da conversa difundida pelo Executivo mexicano é sensivelmente diferente, pois assinala que Peña Nieto expressou profunda “consternação” e “indignação” pelo incidente, e reiterou sua exigência de que seja realizada uma investigação rápida e exaustiva do ocorrido. O Governo do México, que num primeiro momento só reconheceu dois mortos de nacionalidade mexicana, elevou para oito o número de turistas que faleceram.

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Em sua carta ao “Povo do México”, o chanceler Shukry expressa o “mais profundo pesar e condolências pela perda de vidas inocentes” e reafirma o compromisso do Executivo egípcio em esclarecer os fatos. “A cadeia de acontecimentos continua sendo confusa e pouco clara. Houve informes, muitos deles contraditórios”, admite Shukry, que defendeu a atuação das forças de segurança. “Eu lhes asseguro que eles são os mais precavidos e cuidadosos quando se trata de preservar a vida de outros”, acrescentou, tentando responder às críticas recebidas no México pela precipitação exibida pelas tropas egípcias.

O comboio de turistas mexicanos foi bombardeado por um helicóptero Apache no domingo ao meio-dia enquanto seus integrantes se encaminhavam para o almoço. Alguns parentes das vítimas, como o advogado Amr Imam, afirmaram que algumas delas foram liquidadas depois da explosão do projétil, enquanto tentavam fugir do lugar dos fatos. Esse seria o caso de Awad Fathi, um dos guias mortos no fatídico ataque, pois Imam viu o cadáver e eram visíveis os buracos de bala.

O chanceler Shukry tentou conseguir a compreensão da opinião pública egípcia equiparando o sofrimento que o narcotráfico provoca no país americano com o flagelo do terrorismo no Egito. “O México, como o Egito, tem sofrido violência em grande escala, embora por motivos diferentes. A guerra contra as drogas causou a morte de dezenas de milhares de pessoas inocentes... ao longo das últimas décadas, especialmente nos últimos anos. Nós perdemos numerosas vidas de civis inocentes por causa do terrorismo.”

Na manhã desta quarta-feira, a chanceler Ruiz Massieu foi ao hospital Dal al-Fouad visitar os turistas feridos, acompanhada de dois médicos e de vários parentes das vítimas. “Os sobreviventes receberam os familiares com lágrimas”, declarou Mona al Bakry, a porta voz do hospital, segundo informa Azza Guergues, do Cairo. “A maioria dos feridos tem ferimentos de bala e queimaduras de segundo e primeiro grau”, acrescentou a porta-voz.

Ruiz Massieu se reuniu com o chanceler egípcio, com quem concedeu uma entrevista conjunta à imprensa, e está previsto que se encontre também com o presidente Al-Sisi. Ao comparecer diante da mídia, a ministra mexicana expressou agradecimento às autoridades egípcias por sua colaboração, descreveu como “produtivas” suas reuniões e declarou que ambos os países “querem virar a página destes fatos traumáticos”. A chanceler recordou que as autoridades egípcias expressaram pesar e ambos os governos concordaram em esperar o resultado da investigação em curso “antes de tomar as decisões apropriadas”. Por sua vez, ao ser questionado sobre os detalhes da matança, o chanceler Shukry preferiu não fazer nenhum comentário até o final das investigações oficiais.

Em uma nova amostra de sua falta de transparência e de respeito à liberdade de imprensa, o Governo egípcio proibiu na tarde desta quarta-feira a publicação de novas informações sobre o massacre. No mês passado, o Executivo aprovou uma lei antiterrorismo que inclui graves punições aos repórteres que se desviem da versão oficial depois de um atentado. De acordo com o comitê para a Proteção dos Jornalistas, pelo menos 23 repórteres então atrás das grades no Egito.