‘Lolita’ ou o triunfo da liberdade e da beleza

Poetas, escritores e filósofos falam das portas que a grande e controversa obra de Nabokov abriu para a literatura

James Mason e Sue Lyon em 'Lolita', de Stanley Kubrick.
James Mason e Sue Lyon em 'Lolita', de Stanley Kubrick.

“Lolita, light of my life, fire of my loins. My sin, my soul” (“Lolita, luz da minha vida, fogo da minha carne. Minha alma, meu pecado” – em tradução de Sergio Flaksman). São as palavras mágicas com que Vladimir Nabokov abre o mundo de Lolita, um dos romances mais perturbadores e cativantes da literatura, e um clássico universal. Uma obra cuja beleza aumenta com o tempo. Como aumentam as dúvidas sobre se hoje, sessenta anos depois de sua primeira edição, seria publicada em um mundo que parece retroceder em certos aspectos. Mas, o que a literatura teria perdido se Lolita não tivesse existido?

Sua publicação hoje seria difícil, segundo alguns escritores, pensadores e críticos. Até mesmo sua condição de clássico cambalearia, explica o poeta Juan Antonio González Iglesias, “porque os inimigos da liberdade são muitos, e com um grande poder. Na longa luta entre a liberdade e o puritanismo, Lolita está do lado da liberdade”. Uma obra, segundo o filósofo Manuel Cruz, que “mostra que a aparência de liberdade e de tolerância sexual e amorosa em geral na qual vivemos não vem a ser outra coisa, no final das contas, que a substituição dos velhos tabus visíveis por outros novos, invisíveis por representar a obviedade emergente”. Nabokov, garante a escritora Marta Sanz, “convidou a refletir sobre o significado do obsceno e sobre nossa própria hipocrisia”.

Para além do desejo, mais para o lado do amor, rodeado de obsessão e dor, o protagonista do romance, um escritor chamado Humbert Humbert, torna público seu “pecado” de amar e desejar uma adolescente com a arte da literatura até criar, segundo o escritor Mario Vargas Llosa em 1987, uma “das mais sutis e complexas criações literárias de nosso tempo”.

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Rejeitada por quatro editoras – só The Olympia Press, um pequeno selo editorial parisiense especializado em obras eróticas, se atreveu a publicá-la, em 15 de setembro de 1955–, três anos depois apareceu nos Estados Unidos. Lolita nasceu quase maldita. O próprio Nabokov (1899-1977) um dia lançou o original ao fogo e sua esposa, Vera, o resgatou; mais tarde, depois de chegar às livrarias, provocou uma onda de escândalo e acusações por desafiar tabus e pôr a sociedade ante o espelho de desejos obscuros. Sua popularidade aumentou quando Stanley Kubrick lhe fez justiça no cinema, em 1962, com roteiro do próprio escritor russo.

“Lo-lee-ta: the tip of de tongue taking a trip of three steps down the palate to tap, at three, on the teeth. Lo.Lee.Ta” (Lo-li-ta: a ponta da língua toca em três pontos consecutivos do palato para encostar, ao três, nos dentes. Lo. Li. Ta).

A partir desse magistral e musical começo, a história de Humbert Humbert desliza por vários estágios de leitura onde se destaca o virtuosismo da linguagem e sua arquitetura. Nabokov, afirma Marta Sanz, “lançou uma pergunta sobre se é mais obsceno, e até mais imoral, a atração por uma ninfeta ou o assassinato. Sobre se é mais imoral cometer essas ações ou mostrá-las se deleitando nelas. Sobre se o obsceno é a vulgaridade de uma sociedade que acredita que o Redear’s Digest é cultura ou a sofisticação intelectual (maligna?) de um Humbert Humbert que no fundo se movimenta pelo ímpeto lascivo de seus olhos de macaco. Nabokov talvez se conecte com essa sensibilidade estética tão contemporânea que mantém que a provocação pode constituir uma ação moral sem cair no moralismo. Tudo isso se sugere por meio de uma palavra sensual na qual importam tanto as unhas pintadas dos pés da ninfeta como o som de seu nome: Lo-li-ta. Nabokov sabe que é impossível dizer o mesmo de outra maneira e que a textura de sua linguagem é tão atraente, provocadora e excitante como o que nos está contando. De fato, é o que nos está contando: a fusão da ética e da estética em função do princípio libertino do prazer”.

Mas Lolita desatou um escândalo moral, quando justo o que Nabokov buscava era distanciar-se da moral, afirma Javier Aparicio Maydeu, crítico literário e especialista no autor russo. O romance é muito mais que esses adjetivos envenenados ao se tornar um elo na sensibilidade do século XX. Sobretudo, acrescenta Aparicio Maydeu, “é o triunfo do romance que não persegue a militância moral sustentada pelo romance naturalista do século XIX (do qual parece zombar). Lolita parece extirpar a ética do romance e, sem lugar para dúvidas, conquista para o romance moderno a ambiguidade (do narrador) e o protagonismo da linguagem acima da trama em si”.

“Ela era Lo, apenas Lo, pela manhã, um metro e quarenta e cinco de altura e um pé de meia só. Era Lola de calças compridas. Era Dolly na escola. Dolores na linha pontilhada. Mas nos meus braços sempre foi Lolita”.

A partir daí se atribuiu esse nome nas referências àquelas pré-adolescentes tão sedutoras quanto inocentes de seu próprio milagre de atração sobre alguns homens. Vladimir Nabokov não ficou de todo contente com a popularidade e algumas interpretações de sua obra. Em uma entrevista a Bernard Pivot, da televisão francesa, disse: “Fora do olhar maníaco do senhor Humbert não há ninfeta. Lolita, a ninfeta, só existe através da obsessão que destrói Humbert. Esse é um aspecto essencial de um livro singular que tem sido distorcido por uma popularidade artificial”.

A luta dessa história no romance é entre a obsessão presente do protagonista e uma recordação e sonho frustrados que se negam a morrer; e, na vida real, entre a liberdade e o puritanismo, entre a ética e a estética. “Não é unicamente um prazer intelectual para cada leitor”, afirma o poeta Juan Antonio González Iglesias. Esse mundo que Nabokov cria – agrega o poeta – “alarga os limites do nosso mundo. Lolita é um romance de estirpe poética, tem a beleza, a sensibilidade e a perfeição, mas também a tensão ética e política de um acontecimento que é de todos. Na longa luta entre a liberdade e o puritanismo, Lolita está do lado da liberdade. Seu impacto universal é em direção ao futuro, embora também repercuta no passado. Permite reler a experiência humana de outra maneira”. Não duvida Gonzáles Iglesia em considerá-lo um clássico com força para modificar o mundo. Para o que contribuiu, acrescenta, a vocação formal de Nabokov, e também o fato de que ele o escreveu fora de seu país e fora de sua língua materna: “Expõe um arquétipo e por isso pertence à história da literatura. À universal, não à norte-americana nem à russa, nem deveria incidir somente no superficial da questão erótica. Felizmente, Lolita já é um clássico. Eu me pergunto se chegaria a sê-lo caso fosse publicado agora”.

Em tal caso, talvez a respiração de alguns voltasse a se alterar. Quando a verdade, explica o filósofo Manuel Cruz, é que “a grande virtude do livro é ter posto em evidência, para além dos subterfúgios do desejo, o modo obscuro e invisível em que nossas sociedades respondem a ele. O catálogo de figuras dos distintos poderes que (cada uma à sua maneira) atemorizam o protagonista, os fantasmas que o ameaçam convertê-lo ante si mesmo e ante os demais na materialização das diferentes figuras da maldade (criminoso, pervertido, louco...) mostram que a aparência de liberdade e de tolerância sexual e amorosa em geral na qual vivemos não vem a ser outra coisa, no final das contas, que a substituição dos velhos tabus visíveis por outros invisíveis por representar a obviedade emergente. Ou alguém se atreveria a escrever hoje um livro no qual o autor tornasse seu o olhar amoroso de Dante para Beatriz?”

Tesouros perdidos ou secretos. Um grito que se nega a ser silenciado. O resultado, segundo o escritor Colm Tóibín, “é como se Nabokov inserisse uma música artística e requintada na vida norte-americana. Encontrou um tom astuto, cômico, cheio de beleza e desejo para pôr no país que estava menos disposto a tolerar tudo isso. O fato de que Lolita era norte-americana e o romance se passasse nos subúrbios e estradas abertas desse país criou a graça do estilo, o risco obscuro nas sentenças, e a tornou mais sedutora”.

Lolita é uma matrioska na realidade e na ficção. Nas mãos dos leitores surgem múltiplas leituras, mas sempre beleza. Sob o romance, em sua origem, está O Feiticeiro, um relato que Nabokov escreveu em 1939 e que manteve entre sombras até um par de anos depois da publicação de Lolita. Ao mesmo tempo, essa ninfeta da ficção tem uma precursora, o fantasma que persegue Humbert Humbert chamado Annabel Leigh, aquele amor adolescente, correspondido, mas frustrado no limite da realização. E Annabel, por sua vez, vem de um tempo muito distante. Nasce em 1849 pelas mãos do último poema completo que Edgar Allan Poe escreveu: Annabel Lee:

Foi há muitos e muitos anos já,

Num reino de ao pé do mar.

Como sabeis todos, vivia lá

Aquela que eu soube amar;

E vivia sem outro pensamento

Que amar-me e eu a adorar.

(...)

Porque os luares tristonhos só me trazem sonhos

Da linda que eu soube amar;

E as estrelas nos ares só me lembram olhares

Da linda que eu soube amar;

E assim 'stou deitado toda a noite ao lado

Do meu anjo, meu anjo, meu sonho e meu fado,

No sepulcro ao pé do mar,

Ao pé do murmúrio do mar.

(tradução de Fernando Pessoa)

E à beira-mar foi a última vez que Humbert Humbert viu seu primeiro amor, Annabel Leigh, que logo se transformaria em um desejo nocivo. Aquela história de amor e paixão de Poe com sua música de elegante tristeza e orfandade, Vladimir Nabokov a faz ressoar em seu protagonista que sonha com sua ninfeta e seu amor murchado antes de florescer e, sobretudo, deseja ser desejado. “Simplesmente gosto de compor enigmas com soluções elegantes” disse seu autor. E deixou clara sua concepção da literatura: “uma obra de ficção só existe na medida em que me proporciona o que chamarei, pura e simplesmente, de prazer estético”.

E é assim que na confissão de seu escritor Humbert Humbert se lê: “Para dizer a verdade, é bem possível que a atração que a imaturidade exerce sobre mim resida não tanto na limpidez da beleza infantil, imaculada, proibida, quanto na segurança de uma situação em que perfeições infinitas preenchem o abismo entre o pouco concedido e o muito prometido...”.