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Nisman: uma nova prova aponta para assassinato, mas mistério continua

Oito meses após a morte do promotor, ainda não se afirma se ele foi assassinado ou não

Alberto Nisman, o promotor argentino morto.
Alberto Nisman, o promotor argentino morto. AP

O caso Nisman já é um grande romance de mistério argentino no qual cada avanço da investigação, longe de oferecer certezas, cria mais dúvidas. A última análise oficial realizada nos laboratórios especializados de Salta, no norte do país, aponta para a hipótese de assassinato. Os especialistas reproduziram as condições do disparo da arma com o qual Nisman morreu em um manequim que tinha pele de porco na mão, para encontrar algo semelhante à pele do ser humano, e concluíram que um tiro deveria deixar resíduos de pólvora nessa mão. O corpo de Nisman não tinha nenhum resíduo de pólvora, então a conclusão mais razoável sugere que outra pessoa disparou a arma.

No entanto, a promotora encarregada do caso, Viviana Fein, acredita que esses testes não são conclusivos porque é impossível reproduzir com exatidão as condições do crime e a arma pode não ter deixado vestígios de pólvora na mão de Nisman por outras razões. A verdade é que oito meses depois, e apesar de Fein defender com unhas e dentes seu trabalho e insistir na imprensa que tudo está sendo feito de forma correta, as dúvidas são quase as mesmas do primeiro dia. Ou maiores. O caso tem um alto conteúdo político e seu início, em janeiro, marcou o momento de maior fraqueza do governo de Cristina Kirchner, assim cada avanço é seguido com muita atenção pelos grupos políticos.

O caso se tornou, essencialmente, uma guerra entre a promotora Fein e Sandra Arroyo Salgado, uma conhecida juíza argentina, ex-esposa de Nisman e mãe de suas filhas. Arroyo luta para afastar Fein, pois a vê como propensa à hipótese de suicídio, e Fein critica a juíza por tentar dificultar o seu trabalho. “Não podemos dizer com essa perícia se ele cometeu suicídio ou foi morto”, assegurou a promotora depois de conhecer o novo estudo. “Precisamos de mais, sozinha não é conclusiva. As perícias sobre a arma não podem ser feitas isoladamente, devo considerar outros testes para determinar se Nisman cometeu suicídio ou não”, afirmou.

“Para nós, este teste é conclusivo”, disse, por outro lado, Arroyo Salgado. “Segundo me informaram depois da morte de Nisman, esse tipo de arma deixa vestígios em 100% dos casos”, disse atacando duramente a promotora: “Peço que o tribunal coloque as coisas em seu lugar dessa vez. Devemos lembrar que Fein tinha dito que ‘infelizmente não havia vestígios de pólvora’ nas mãos de Nisman. Pedimos várias vezes que esse teste fosse feito e tivemos que esperar oito meses. Temos muitas provas que mostram que foi um homicídio.”

O Governo conseguiu virar o caso e agora é Nisman que tem uma péssima imagem junto à sociedade argentina depois da descoberta de suas contas no exterior e seu nível de vida. De fato, em uma guinada inesperada, e enquanto o caso sobre um possível assassinato não avança, cada vez está mais próxima a possibilidade de que sua mãe e sua irmã sejam incriminadas por lavagem de dinheiro com as contas de Nisman no exterior, uma acusação que envolve também Diego Lagomarsino, o técnico em informática que entregou a arma responsável por sua morte e que tinha acesso a suas contas no exterior.

O mistério cresce, enquanto um dos principais protagonistas da história, o antigo homem forte dos serviços secretos argentinos, Antonio Stiuso, continua desaparecido e o Governo afirma que está nos EUA protegido pelos serviços secretos desse país. Um roteiro quer serviria a um filme de espionagem, não fosse tudo real e passado na frente de todos os argentinos, que escutam sua presidenta acusar abertamente a CIA de estar por trás da proteção de Stiuso. O agente foi um homem confiança dos Kirchner até que a presidenta decidiu pelo rompimento, em dezembro de 2014, e ele ter começado a agir, segundo a interpretação kirchnerista, obrigando Nisman a voltar de suas férias na Espanha para fazer uma denúncia contra Kirchner por ocultar o maior atentado da história da Argentina, contra a AMIA em 1994, que deixou 85 mortos. O caso continua aberto e Fein afirmou que só decidirá entre suicídio ou assassinato depois das eleições presidenciais de 25 de outubro.

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