feminismo

Histórias em quadrinhos, uma revolução no feminino

Novas autoras estão por trás de enredos e personagens que abalam as bases dos cânones

Josune Muñoz, especialista em crítica literária feminista. David Asensio

Amor à primeira vista. Foi isso que aconteceu quando Emma Ríos e Kelly Sue DeConnick finalmente se conheceram pessoalmente. Foi em outubro de 2011, na New York Comic Con, depois de terem trabalhado dois anos juntas, mas à distância, para o escritório da Marvel em que se produziam os gibis do Homem-Aranha. A galega Ríos era a desenhista; a norte-americana, roteirista. As duas foram contratadas em 2009 para levar adiante a revista Osborn, um número que girava em torno do Duende Verde, arqui-inimigo do Homem-Aranha. O personagem estava muito desgastado e elas não tinham certeza se iria funcionar. Mas algo deu um clique entre elas desde o primeiro momento; o que foi comprovado pela boa recepção dos críticos. O encontro serviu para forjar uma amizade que em 2014 derivou num violento faroeste: a graphic novel Bella Muerte, escrita com um oceano no meio (Ríos vive em A Corunha, a colega mora em Portland). Depois de vender 60.000 exemplares, a obra recebeu a indicação para quatro prêmios Eisner, os mais prestigiosos de uma indústria que movimenta 836 milhões de euros (cerca de 3,5 bilhões de reais) por ano nos EUA. O livro está cheio de personagens femininos complexos e fortes, uma tendência crescente no mundo dos quadrinhos.

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“Encontramos a ameaça. Vamos erradicá-la. Saberemos no fim, para o bem ou para o mal, que cobras entraram no nosso jardim”. She-Hulk tem uma expressão desafiadora: sabe que não pode falhar. O futuro de toda a Arcádia, o último reduto de liberdade de seu mundo, depende dela. Em sua vida normal era uma advogada chamada Jennifer Walters. Gravemente ferida, recebeu uma transfusão de seu primo Bruce Banner e adquiriu sua portentosa musculatura e sua cor verde, embora ela não perca a cabeça quando entra em modo besta. Isso foi há 35 anos; sua primeira aparição foi na revista Savage She-Hulk # 1, da Marvel (1980), e a história da origem é semelhante à de tantas protagonistas de quadrinhos, nascidas como franquias dos heróis de verdade, os rapazes: Supergirl, Spiderwoman, Batgirl, Miss America... Mas desde maio She-Hulk subverteu o clichê de Eva e lidera a própria equipe, que só tem mulheres: a A-Force, que pode ser traduzida como Força A. Estamos diante de uma mudança de paradigma no mundo das histórias em quadrinhos?

Cerca de 70% dos personagens da DC e 75% dos da Marvel são homens, embora a proporção de mulheres tenha aumentado de forma mais ou menos estável desde os anos sessenta, segundo cálculos do site FiveThirtyEight, pertencente ao canal de esportes ESPN. Também apareceram dezenas de personagens homossexuais desde o ano 2000. E She-Hulk não é a única inovadora. A nova Ms. Marvel é encarnada por uma adolescente muçulmana de origem paquistanesa. A Capitã Marvel tem o seu próprio título em papel há três anos e vai estrelar um filme previsto para 2018. Enquanto isso, a partir do universo DC, o outro gigante dos gibis, o filme da amazona Mulher Maravilha finalmente obteve a aprovação da Warner Bros para começar a rodagem nos próximos meses. Quanto às protagonistas das histórias, a guinada parece clara. Mas não vieram do nada: por trás delas existe uma nova geração de autoras que revolucionam o gênero do interior da indústria.

Página do primeiro volume de ‘Bella Muerte’.
Página do primeiro volume de ‘Bella Muerte’.Emma Ríos / Kelly Sue DeConnick.

Para escrever a adaptação cinematográfica de A Capitã Marvel, a empresa contratou Nicole Perlman, coautora do filme Guardiões da Galáxia (2014), que já arrecadou cerca de 700 milhões de euros em todo o mundo, e Meg LeFauve, da aclamada animação Divertida Mente, da Pixar (2015). Mas quem levou a Capitã ao estrelato em suas ilustrações foi precisamente a ruiva Kelly Sue DeConnick, que sentenciou em 2012: “Se você pode substituir suas personagens femininos por uma lâmpada sexy e a história basicamente funciona, talvez você precise de outro rascunho. Elas têm de ser protagonistas, não recursos”.

Desde que a norte-americana DeConnick e a espanhola Ríos começaram a trabalhar no hit Bella Muerte, tiveram certeza de que queriam fazer uma história em quadrinhos de época. Elas se inspiraram nos planos surrealistas dos faroestes de Sergio Leone. Para a espanhola, Bella Muerte tornou-se o primeiro trabalho que lhe permitiu dedicar-se exclusivamente ao que gosta. Diz que tem o feminismo dentro dela. “Sem querer, você hackieia os papéis conhecidos e os transforma em algo que é totalmente natural para você. E as pessoas dizem: ‘Veja, pegou os arquétipos e os virou do avesso”. Sua história começa com um homem que se apresenta como um príncipe azul, mas rapidamente se descontrola porque, ciumento, encarcera a esposa, que busca a morte para escapar. O segundo volume começou a ser publicado em fascículos nos EUA em setembro e a Editora Astiberri publicará a obra completa em castelhano no próximo ano. E Emma Ríos não é a única espanhola a saltar para o outro lado do oceano.

A Marvel contratou a ilustradora Natacha Bustos para Moon Girl and Devil Dinosaur, remake de um clássico de Jack Kirby que chegará às livrarias norte-americanas em novembro. E entre os sete autores espanhóis indicados neste ano aos prêmios Eisner está a catalã Meritxell Bosch, pela HQ infantil BirdCatDog, escrita por Lee Nordling. Bosch tem 33 anos e é mãe de uma criança de 4. Vive em Sabadell. Neste ano publicará uma autobiografia pela editora La Cúpula, Yo Gorda. “O romance começa quando a protagonista é pequena e recebe maus-tratos e humilhações. Depois sofre de falta de autoestima e bulimia... O livro trata de tudo o que envolve os transtornos alimentares que levam você a mudar seu comportamento”. Apesar do argumento, a risonha Bosch se mostra incansavelmente positiva durante a conversa: “Começa mal, mas acaba bem”. Seu pai, venezuelano, morreu de sobrepeso há quatro anos. Para ela foi um momento de inflexão. Agora ela prepara um segundo trabalho inspirado na infância difícil dele, em sua adolescência como boxeador de rua e na cultura do vodu em seu entorno.

Fernando Tarancón é um dos fundadores da editora especializada Astiberri, que desde seus inícios, em 2001, apostou em novos nomes como Raquel Alzate. “Há cada vez mais garotas que nos apresentam trabalhos interessantes, cujas primeiras leituras foram romanceadas”, explica Tarancón. “Elas pertencem a uma nova geração de autores em geral que cresceu lendo graphic novels”. Jovens para os quais a Internet é uma plataforma para se desenvolverem e se tornarem conhecidas. Publicam desde trabalhos autorais — como o inquietante e comovente Sangre de Mi Sangre, de Lola Lorente, autora revelação do Salão de Barcelona, em 2012 — até a tira diária  —Let’s Pacheco!, de Carmen e Laura Pacheco; Moderna de Pueblo, de Rachel Córcoles, ou as tiras de Agustina Guerrero, Sara Oncina e Sara Herranz. Para recuperar a memória histórica daqueles que abriram caminho, no ano passado um punhado delas decidiu criar a Associação de Autoras de Histórias em Quadrinhos.

A plataforma, que hoje tem 92 associados — é aberta a homens —, conferiu um prêmio honorário a uma das grandes esquecidas: Núria Vilaplana Buixons, nascida em Barcelona em 1931 e conhecida pelo pseudônimo de Núria Pompeia. Hoje ela está longe dos holofotes, mas foi pioneira da HQ de narrativa experimental no fim dos anos sessenta, em um país em que o gênero era, quase que totalmente, dirigido a um público infantil e segregado.

Durante o franquismo, as artistas espanholas desenhavam quadrinhos românticos para meninas, como Azucena, Florita ou, já na década de setenta, Esther, protagonista célebre para toda uma geração e recuperada por sua ilustradora Pura Campos em Esther Cumple Cuarenta (2014), com texto de Carlos Portela. Naquele tempo eram os homens que criavam as histórias de humor e aventuras para crianças que hoje são consideradas clássicos na Espanha: Mortadelo e Salaminho, Zipi y Zape, Anacleto, agente secreto e Capitán Trueno. Núria Pompeia quebrou as regras. “Porque pôde”, esclarece Josune Muñoz, especialista em crítica literária com perspectiva de gênero. “O marido dela era o dono da editora Kairós”. Muñoz tem em sua biblioteca, em Bilbao, mais de 6.000 volumes, com títulos únicos que lançam luz sobre o passado das criadoras espanholas. Um deles, escrito pela veterana catalã é Maternasis, em que uma mulher grávida de olhos tristes aparece, página após página, com a boca coberta pela própria mão. Durante o parto, então tabu absoluto, as páginas tornam-se completamente pretas. A obra retrata os medos e as dores da gravidez. Mas, acima de tudo, mostra o silêncio que isolava as mulheres da época.

Publicado em 1967, Maternasis foi um volume transgressor em estética e conteúdo. Antecipou-se a La Mamen que, com a tinta de Mariel Soria em El Jueves, reivindicava viver sua sexualidade como bem quisesse, ou a Amparo Torrego, uma mulher liberada da Segunda República desenhada pela autora Marika Vila em 1978. “Sempre houve mulheres na HQ espanhola”, diz Vila, que está escrevendo uma tese de doutorado sobre elas e acredita que foram tornadas invisíveis. Ela enumera algumas que continuaram a publicar nos anos noventa, “Martha Guerrero, María Colino, Ana Juan, Ana Miralles, Asun Balzola, Raquel Alzate, Clara-Tanit Arqué...”. Josune Muñoz explica que, paralelamente, publicações como a revista El Víbora (1979-2005) estavam cheias de garotas “hipersexualizadas”.

A autora espanhola Mireia Pérez.
A autora espanhola Mireia Pérez.Jordi Socías

Hoje o quadro mudou, embora exista a dificuldade de que na Espanha há pouco apoio institucional; a única bolsa de quadrinhos que existia, da Alhóndiga de Bilbao, desapareceu em 2012. “Aqui é muito difícil publicar porque as editoras não pagam o adiantamento, e uma HQ normal de cem páginas consome um ano de trabalho”, afirma Susanna Martín, da Associação de Autoras de Histórias em Quadrinhos. “O normal é ter um ou dois empregos paralelamente. Em nível social, as mulheres têm um monte de dificuldades. E dentro do mundinho da HQ sofremos de falta de referências e de apoio entre nós”. Nos últimos cinco anos, no entanto, as grandes livrarias perceberam o impulso das novas autoras, diz Mercedes Hernández, chefa de produto de quadrinhos da Fnac España. Antologias de feição feminista se multiplicaram, como Enjambre (Norma, 2014); Caniculadas (Astiberri, 2014); Todas putas (Dibbuks de 2014), adaptação dos contos de Hernán Migoya, e o fanzine Folloneras. E neste ano a associação teve um estande próprio no Salão de Barcelona, onde foram, pela primeira vez, três as indicadas à melhor obra estrangeira.

“A graphic novel abriu os quadrinhos para outro público”, explica Tarancón, da Astiberri. Mercedes Hernández, da Fnac España, diz que a maioria dos clientes continua sendo de homens, mas que elas consomem cada vez mais. E o novo público é onívoro. Dos 42 milhões de usuários que em agosto clicaram “curtir” na página de HQ no Facebook, as mulheres representavam 40,43%, de acordo com o site especializado Graphic Policy. Quando a Marvel anunciou, em 2013, que Thor reencarnaria em uma mulher, despertou a oposição exaltada de parte dos fãs. No quinto número do gibi, o vilão Homem-Absorvente pôs a boca no mundo: “Você está brincando? Tenho de te chamar de Thor? As malditas feministas estão arruinando tudo”. Como resposta, ela quebrou-lhe o maxilar: uma reação um tanto drástica. Mas a série supera em 30% as vendas de seu predecessor masculino. Talvez essa seja uma vingança suficiente.