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“Quito se levantou”

Mais de 100.000 pessoas tomam a capital do Equador para protestar contra Rafael Correa

Enfrentamento entre policiais e manifestantes contra Correa, em Quito
Enfrentamento entre policiais e manifestantes contra Correa, em QuitoEDU LEÓN

Quito se levantou. Essa foi a conclusão de Jorge Herrera, presidente da Confederação de Nacionalidades Indígenas do Equador (Conaie), depois de um dia de protestos na quinta-feira, dia 13, em Quito. Mais de 100.000 pessoas se uniram à marcha convocada pela Frente Unitária de Trabalhadores e secundada pelo movimento indígena. Os números mais tímidos falam de mais de 150.000 pessoas mobilizadas. Durante quase cinco horas contínuas o descontentamento popular passeou pelas ruas do centro da cidade e, ao longo do dia, duas praças praticamente ficaram tomadas.

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Há 11 dias que uma manifestação indígena partiu do sul do Equador para reivindicar uma lista de exigências ao Governo. A marcha, convocada pela Conaie, chegou na quarta-feira em Quito depois de percorrer mais de 700 quilômetros. Já na capital, milhares de pessoas com interesses específicos —aposentados, médicos, advogados, professores, entre outros— se juntaram aos protestos. Entre as demandas dos grupos indígenas há pontos inegociáveis, como uma reforma agrária que redistribua 60% das terras cultiváveis que ainda estão em mãos privadas, derrocar a Lei das Águas e e uma educação intercultural bilíngue. A lista de petições inclui também as demandas de outros setores da população, como impedir a reeleição indefinida para a presidência, uma auditoria dos contratos estatais, o fim da mineração e da exploração petrolífera em novos territórios e o livre acesso às universidades.

O presidente Rafael Correa argumenta que os indígenas (mais de um milhão de cidadãos, segundo o último censo) não têm motivos para protestar, já que a Constituição de 2008 finalmente reconheceu o país como um Estado plurinacional, e destaca as melhorias na saúde e na educação durante o seu Governo. "O problema é que construir esse Estado não é fácil e não termina em um determinado momento", explicou o historiador Juan Paz y Miño.

A pressão para chegar perto da sede do Governo nesta quinta para gritar palavras de ordem provocou enfrentamentos com a Polícia, que lançou bombas de gás lacrimogêneo nos manifestantes. Encapuzados se aproveitaram da situação —segundo os policiais, eram infiltrados. O Ministério do Interior apresentou vídeos para tachar os manifestantes de violentos.

Manifestação em Quito, nesta quinta-feira
Manifestação em Quito, nesta quinta-feiraEDU LEÓN

Tudo isso manchou a sensação de vitória das organizações sociais, e a isto se somou a prisão temporária de dois líderes indígenas, Carlos Pérez Guartambel e Salvador Quispe, que foram separados de seus companheiros e agredidos pela Polícia, segundo denunciaram em uma improvisada coletiva de imprensa no fim da noite.

“Não se pode calar sobre esse tipo de coisa, alguém me empurrou e me entregou para a Polícia e quando a Polícia me pegou, balançaram minha cabeça, me pegaram pelo cabelo, me arrastaram e bateram”, denunciou Quispe visivelmente alterado e com o rosto e a roupa sujos. Sobre o outro preso, informou-se que foi levado a um hospital com sua companheira para que sejam tratados das agressões. Na coletiva de imprensa estavam todos os dirigentes sociais, que comunicaram que desde a manhã “radicalizaram” suas ações. “Quito deve continuar, queremos derrubar este sistema de abuso”, disse o presidente da Conaie.

Enquanto isso, acontecia na parte externa da sede do Governo e da Assembleia Nacional uma festa, com palco e telas gigantes, para a qual só foram convidados os simpatizantes do partido governista Alianza País. A versão oficial dizia que se comemorava a democracia e o Dia da Juventude —que foi em 12 de agosto. O presidente Rafael Correa subiu ao palco no fim do dia para agradecer o apoio e anunciar que o protesto de seus opositores tinha fracassado: “Estamos em festa porque a democracia triunfou, a alegria, a construção e não a destruição”.

Normalidade total, segundo o Governo

A paralisação nacional, convocada pela Frente Unitária de Trabalhadores, começou com o fechamento de vias em todo o país. A primeira notícia era dada pelo próprio presidente Correa, pelas redes sociais: “Total normalidade nas principais cidades. Lamentavelmente, o velho país, utilizando os indígenas, bloqueou a Panamericana Sul, setor de Chasqui, com a cumplicidade do prefeito de Saquisilí”, e fazia um chamado para que se “rejeitasse a politicagem”. Continuou por toda a manhã nesse tom, informando sobre as vias fechadas e identificando autoridades eleitas do partido Pachakutik –braço político da Confederação de Nacionalidades Indígenas do Equador (Conaie)– que supostamente colaboraram com o fechamento das estradas.

Houve bloqueios em pelo menos cinco províncias, por onde os principais eixos viários cruzam. A Polícia teve de negociar com os indígenas que se colocaram nas vias para permitir a passagem de tempos em tempos, mas em outras só encontraram muros de pedra, terra ou galhos deixados de propósito para dificultar a passagem. A maioria das estradas foi liberada antes do meio-dia, mas a maior resistência ocorreu na Panamericana Sul, à altura de Cotopaxi (centro do país). Nesse local houve policiais feridos e indígenas presos.

A capital também registrou bloqueio em suas ruas, as principais paradas de ônibus foram obstruídas com a queima de pneus, o que obrigou a suspensão de certas linhas de transporte público. O Município de Quito informou sobre danos a cerca de dez ônibus, por pregos colocados nas ruas para furar os pneus.

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