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Um ferido grave no aniversário da morte do jovem negro em Ferguson

Polícia repele ataque de grupo em distúrbios durante protesto em memória de Brown

Um ano depois, Ferguson revive alguns dos seus fantasmas. As reivindicações pacíficas de domingo, no primeiro aniversário da morte de um jovem negro desarmado por disparos de um policial branco nesse subúrbio de Saint Louis (Missouri), provocaram durante a noite cenas de caos e confrontos entre manifestantes e policiais. Um jovem ficou gravemente ferido numa troca de tiros com quatro agentes à paisana que ele havia atacado inicialmente, segundo a polícia.

Policiais do condado de Saint Louis intercederam depois que dois grupos de pessoas começaram a disparar entre si numa região da avenida West Florissant, perto do local em que Michael Brown morreu em 9 de agosto de 2014 e epicentro dos protestos do ano passado. “Não eram manifestantes. Eram criminosos”, disse aos jornalistas na madrugada desta segunda o chefe do corpo policial, Jon Belmar, segundo a imprensa local.

Os disparos foram o último capítulo de uma escalada de tensão nos protestos noturnos de que participaram ao redor de 100 pessoas, bem menos que as cerca de mil presentes às festivas concentrações diurnas na rua residencial em que Brown morreu. Antes dos tiros, um pequeno grupo saqueou vários comércios – como aconteceu nos distúrbios do ano passado – e enfrentou policiais que tentavam expulsá-los da calçada da West Florissant.

Os incidentes voltam a evidenciar a dificuldade dos ativistas pacíficos de isolar os manifestantes radicais

Os incidentes voltaram a evidenciar, em 2015, a dificuldade dos ativistas pacíficos em isolar os manifestantes radicais para evitar que deslegitimem sua causa em defesa dos direitos da comunidade negra. Nos protestos do ano passado – após a morte de Brown, em agosto, e a exoneração judicial em defesa própria do agente que o matou, em novembro –, houve saques e incêndios em comércios. A polícia reprimiu os manifestantes com dureza, mas sem abrir fogo.

A morte do jovem de Ferguson, no Meio-Oeste dos Estados Unidos, motivou um debate nacional sobre as práticas policiais e o tratamento da comunidade afro-americana. A repetição de mortes de negros desarmados pela polícia no último ano em todo o país deu mais subsídios ao debate. Também propiciou uma maior análise da polícia e levou o Governo federal a propor mudanças nas práticas policiais e a limitar a entrega de equipamento militar aos corpos locais.

“Os manifestantes são os que estão falando de um modo de conseguir a mudança. Não podemos permitir esse tipo de violência, seja numa noite como esta ou em qualquer momento, se [quisermos] avançar na direção correta”, disse o chefe policial Belmar após os disparos da noite de domingo.

Média de vítimas negras por disparos policiais é maior que a de brancas

Nos cinco primeiros meses de 2015, a polícia dos EUA matou 385 pessoas, mais de duas por dia, segundo levantamento do jornal The Washington Post, o dobro das incompletas cifras oficiais. A média de vítimas negras é três vezes maior que a de brancas. Oitenta por cento das vítimas estavam armadas. Das desarmadas, dois terços eram negras ou latinas, proporção bem superior ao seu peso demográfico.

Três agentes ficaram levemente feridos nos confrontos com os manifestantes. De madrugada, dois jovens foram atingidos por disparos de outra pessoa num incidente perto do local em que Brown morreu, mas tiveram apenas ferimentos leves.

Em Ferguson, a morte de Brown em circunstâncias confusas desencadeou mudanças visíveis. Uma investigação federal revelou um padrão de discriminação racial da polícia local, predominantemente branca num município de 21.000 habitantes de maioria negra.

A partir da investigação, o chefe policial – que era branco – foi obrigado a renunciar (seu substituto temporário é afro-americano). E foram instaladas câmeras de vídeo nos uniformes dos agentes. Ao mesmo tempo, a Prefeitura limitou a renda obtida através de multas e intimações, que até então afetavam intencionalmente sobretudo a comunidade negra.

No entanto, os protestos de domingo evidenciaram que ainda há muito a melhorar nas práticas policiais. Segundo o relato de ativistas locais, a robusta mobilização de agentes e viaturas contra os distúrbios acirrou os ânimos dos manifestantes, como ocorreu no ano passado, embora desta vez sem o uso do questionado gás lacrimogêneo nem das balas de borracha.

O Conselho de Ação de Ferguson, que reúne vários grupos de ativistas surgidos após os protestos, criticou nesta segunda-feira o fato de que os agentes que trocaram tiros com o jovem ferido estavam vestidos à paisana e sem identificação nem câmeras de vídeo. “Após um ano de protestos e conversas sobre a responsabilidade policial”, isto é “claramente problemático”, disseram, porque faz com que exista apenas a versão do agente sobre o incidente.

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