Barack Obama no Quênia

Obama pede na África o tratamento igualitário à mulher

Obama diz que os desafios do continente poderão ser superados somente se os africanos exigirem de si próprios os padrões aos quais aspiram

Um jovem nas proximidades do estádio Indoor Arena, de Nairóbi.
Um jovem nas proximidades do estádio Indoor Arena, de Nairóbi.G. G. (AFP)

O presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, lançou em Nairóbi, Quênia, uma mensagem de confiança no futuro e uma exigência à sociedade civil africana para que não se conforme em somente queixar-se de seus problemas. Em seu discurso, Obama disse que os desafios do continente poderão ser superados somente se os africanos exigirem de si próprios os mesmos padrões aos quais aspiram. A corrupção e a discriminação contra mulheres e homossexuais têm remédio, afirmou Obama aos quenianos.

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Após se reunir com o presidente Uhuru Kenyatta, veio agora o momento da sociedade civil. Auma Obama brilhou no palco do estádio Indoor Arena antes de se apresentar a seu irmão. A decoração mostrava bandeiras quenianas e norte-americanas enquanto a música benga, típica do Quênia, ambientava o ato. Os trajes de gala revelavam as expectativas em torno do último discurso de Obama antes de partir rumo à Etiópia. Alguns chapéus. Lenços prontos para a ação.

Seu discurso foi um claro chamado à luta contra qualquer tipo de discriminação, aos jovens como empreendedores e líderes da mudança na África e às mulheres como elementos imprescindíveis à sociedade. “Todos os países e todas as culturas têm tradições especiais que os ajudam a ser o que são. Mas que algo faça parte de seu passado não significa que deva definir seu futuro [...]. Tratar as mulheres como pessoas de segunda classe é uma tradição ruim. Impede sua evolução. Não existem desculpas para uma agressão sexual e a violência doméstica. Não existe razão para que as garotas sofram mutilação genital. Não há lugar em uma sociedade civilizada para o casamento forçado de crianças”, disse Obama entre constantes aplausos.

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“Está demonstrado que as comunidades que dão às suas filhas as mesmas oportunidades que aos seus filhos têm mais possibilidades de sucesso. Isso é verdade tanto na América como no Quênia”. Da mesma forma que no dia anterior, quando falou sobre direitos dos homossexuais diante do presidente do Quênia, Obama quis colocar a sociedade civil africana frente aos seus tabus e deixar claro que o progresso exige seu enfrentamento.

O presidente dos EUA destacou como mostra de progresso o fato de que nas eleições de 2007 o Quênia sofreu com a violência étnica que deixou mais de 1.200 mortos (até dezembro, o presidente queniano enfrentou acusações na Corte Penal Internacional). Nas últimas eleições, “mesmo com problemas”, pelo menos não existiu violência.

“A participação cívica e a liberdade são essenciais para erradicar o câncer da corrupção”, o grande desafio para as economias em desenvolvimentos da África. “Aqui no Quênia, e em outros lugares, a corrupção é tolerada porque é como as coisas sempre foram feitas”, afirmou o líder americano. Obama quis mostrar aos quenianos que não estão sozinhos nesse problema e não são os únicos, e citou sua própria cidade, Chicago, como exemplo de sujeira nos anos vinte. “É hora de mudar os hábitos e romper esse ciclo. Porque a corrupção freia todos os aspectos da vida civil econômica”.

Foi também o discurso da conexão pessoal de Obama com este lugar. No Quênia, o presidente dos Estados Unidos pôde falar não de uma perspectiva longínqua, mas como mais um, uma pessoa cuja história familiar de submissão ao colonialismo britânico é identificável por qualquer queniano.

O presidente utilizou sua própria história, a do neto de um cozinheiro que chegou a líder do mais poderoso país do mundo, para mostrar ao seu público “as enormes barreiras para o progresso que os quenianos enfrentam há somente duas gerações”.

“Graças ao progresso do Quênia, graças ao seu potencial, podem construir um futuro aqui e agora”, disse Obama entre aplausos, não de uma audiência estrangeira, mas de sua própria gente.