Crise na Grécia

França busca uma refundação da zona do euro após a crise na Grécia

Paris criará uma vanguarda para acertar medidas de uma união fiscal e social

Merkel e Hollande, em 6 de julho em Paris.
Merkel e Hollande, em 6 de julho em Paris.ETIENNE LAURENT (EFE)

A França ganhou protagonismo na Europa durante a gestão da crise grega e sente-se com autoridade para liderar as profundas mudanças necessárias na zona do euro. Assessores do presidente François Hollande afirmam que no final de 2015 Paris criará uma vanguarda, um grupo de países – “os que querem ir mais longe” – para acertar medidas a uma união fiscal e social. Medidas que incluem um salário mínimo e um imposto de sociedades harmonizado. Convencida de que a união monetária é inviável sem união econômica, Paris quer frear as divergências na zona do euro. Já negocias essas mudanças com a Alemanha.

Hollande reiterou que a zona do euro deve ter um Governo econômico próprio – com um delegado à frente –, um orçamento – para poder gerir investimentos de grande porte – e um Parlamento – para democratizar as decisões. Foi o sinal público de que a França toma as rédeas da transformação da zona do euro, cujas carências a deixaram à beira do abismo pela crise grega.

Um dos principais assessores de Hollande afirma: “Não se trata de liderar por liderar”, mas de ter a capacidade de fazer propostas. “Hollande tem a vontade e a França, a capacidade de fazê-lo”. O deputado socialista Philip Cordery, responsável pelos assuntos europeus no Partido Socialista francês, comenta por telefone que a França “quer agora fazer valer seus pontos de vista” após uma década afastada da primeira linha europeia pelo trauma do não no referendo de 2005 sobre a malograda Constituição Europeia.

As principais propostas francesas

Governo econômico comum para todos os países da zona do euro.

Fundo Monetário Europeu como instrumento de intervenção rápida e de solidariedade.

Orçamento próprio na zona do euro.

União bancaria efetiva, além da atual supervisão centralizada dos bancos, com garantias de depósitos e mecanismos para enfrentar fugas de capitais.

Parlamento de países da zona do euro.

Salários mínimos semelhantes para evitar o atual "dumping social" entre países da zona do euro.

Imposto de sociedades harmonizado contra o outro tipo de dumping ou concorrência desleal: o fiscal.

Seguro europeu de desemprego complementar.

Clement Beaune, assessor para assuntos europeus do Ministério da Economia, afirma que Paris irá definir suas propostas em setembro e que, depois, entrará em consenso com Berlim. A Alemanha não pode pegar essa liderança porque a crise grega a deixou “muito prejudicada” diante da opinião pública europeia, concordam as fontes consultadas. Essa “vanguarda” seria criada posteriormente. “O trabalho já começou”, afirma Beaune, que considera que a Espanha e a Itália devem estar nesse grupo. Ele diz que o ministro da Economia, Manuel Macron, já conversou com seus homólogos italianos e espanhóis. Em 10 de julho esteve em Madri com Luis de Guindos e José Manuel Soria. Paris afirma que os seis fundadores da UE acabarão entrando no grupo.

O Palácio do Eliseu explicou a situação da seguinte maneira: “Desde a criação da moeda única, as economias da zona do euro divergiram; se o crescimento e, sobretudo, o crescimento potencial, for tão diferente em alguns países, ocorrerá uma implosão”. Em busca de uma convergência fiscal e social, Hollande e seu Executivo propõem um salário mínimo semelhante e um imposto de sociedades harmonizado para evitar o atual “dumping fiscal e social”, como denuncia Macron. Defendem também a criação de um Fundo Monetário Europeu como “instrumento de intervenção rápida e de solidariedade”, diz o ministro. E a união bancária real, além da atual supervisão centralizada dos bancos, com garantias de depósitos e mecanismos para enfrentar fugas de capitais. Ou um seguro complementar de desemprego. E, obviamente, uma política econômica comum com maiores poderes para a Comissão Europeia.

Paris assume que deve acertar todas as mudanças com Berlim, mas, por sua vez, não aceita a hegemonia europeia que é unanimemente concedida à Alemanha. “Seu dinamismo econômico não se transformou em um domínio político”, afirma a equipe de Hollande, onde a escassa iniciativa dos alemães é até mesmo criticada: “É difícil encontrar uma ideia central em suas contribuições”. “A França propõe e a Alemanha negocia”, conclui um assessor do presidente francês.

Concepções diferentes

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Paris e Berlim têm concepções diferentes da Europa atual. “A França é muito resistente a compartilhar mais soberania, e a Alemanha, a compartilhar mais riscos”, escreveu o ex-presidente da Comissão Jacques Delors. Mas as propostas de Paris implicam perda de soberania e, a médio ou longo prazo, um novo Tratado da UE, uma opção que Paris vê com espanto: deverá organizar uma consulta, a população francesa se dividirá e somente a ultradireita da Frente Nacional sairá ganhando.

Ainda assim, a França encara o risco, porque é inevitável e porque acredita que ele está distante. “Não é possível fugir do debate por medo”, afirma o assessor Beaune. “No futuro... sim, será necessário mudar os Tratados”, admite o Palácio do Eliseu. “É um assunto delicado”, reconhece Cordery, “mas no final será preciso fazê-lo”. A Alemanha mostra-se gratamente surpresa por essa disposição francesa. “Fiquei encantado ao ouvir Hollande dizer que a França agora está pronta [para uma revisão dos Tratados]”, disse o ministro alemão das Finanças, Wolfgang Schäuble, à revista Der Spiegel. Um sintoma de que o processo começa com boas vibrações franco-alemãs. O final de 2015 será fundamental para saber se esse embrião implantado por Paris terminará no surgimento de uma nova zona do euro.

A Itália também pede uma união política para salvar o euro

PABLO ORDAZ

O ministro italiano da Economia, Pier Carlo Padoan, afirma que para evitar que o euro deixe de ser irreversível – "uma opção que agora está sobre a mesa, não podemos enganar a nós mesmos" – é necessário que a Europa caminhe "em linha reta a uma união política". Em uma entrevista ao jornal Financial Times, o homem forte do Governo de Matteo Renzi alerta que os pequenos ajustes já não funcionam, e aposta em "um euro diferente, mais forte", que só pode surgir de um grau maior de convergência política.

Padoan, que antes de ser indicado por Renzi foi economista chefe da OCDE, deixa claro que a Itália, da mesma forma que a França, continua apostando em uma série de medidas – conclusão da união bancária, um orçamento comum para a zona do euro – que incidam no fortalecimento do euro. “Para ter uma união econômica e monetária plena é preciso uma união fiscal e uma política fiscal”, explica o ministro italiano, “e essa política fiscal deve responder a um Parlamento que deve ser eleito. Caso contrário, não poderá prestar contas”.

O Governo italiano vê como uma ameaça o crescente ceticismo das pessoas pela Europa, alimentado por partidos como a Liga Norte de Matteo Salvini e o Movimento 5 Estrelas de Beppe Grillo. Diante disso, Pier Carlo Padoan afirma que “o desafio” da União Europeia é responder às perguntas reais e concretas dos eleitores.