Eleições EUA

Donald Trump sequestra a campanha do Partido Republicano

A maluca campanha do empresário prende os candidatos em um redemoinho midiático

Donald Trump cumprimenta a imprensa do seu carro, na quinta-feira, no Texas.
Donald Trump cumprimenta a imprensa do seu carro, na quinta-feira, no Texas.

O Partido Republicano rendeu-se ao fenômeno Donald Trump. Incapazes de competir com a atenção que o empresário desperta na imprensa, graças a uma verborragia incontrolável, os outros 15 candidatos lutam para respirar. Até mesmo um homem forte do establishment republicano, como Jeb Bush, com 114 milhões de dólares nos cofres da sua campanha, precisa atacar Trump para conseguir uma manchete hoje em dia. O que começou como uma piada a quem ninguém deu importância agora é um rápido redemoinho que gira em torno do Partido Republicano. Segundo uma pesquisa da CNN, divulgada neste domingo, Trump lidera a corrida republicana nos Estados Unidos: 22% dos entrevistados disseram que acreditam que ele será o candidato do partido à presidência. 

"O que está acontecendo é maior que ele é maior que essa eleição. Isso pode definir o futuro do Partido Republicano", diz Héctor Barreto, estrategista republicano especialista no voto latino e sócio da Latino Coalition. Trump nem mesmo é republicano. No passado, contribuiu generosamente para as campanhas dos Clinton. Declarou-se a favor do aborto, um dos temas principais dos republicanos nesta campanha. "Há quem diga que se trata de um agente dos democratas para prejudicar os republicanos. Seus insultos obviamente vão ter um impacto", afirma Barreto.

Mulher protesta contra Trump na fronteira do Texas: "McCain é um herói, Trump é um idiota".
Mulher protesta contra Trump na fronteira do Texas: "McCain é um herói, Trump é um idiota".

Trump é um dos fanfarrões oficiais dos EUA. "Não há estratégia. Acorda todos os dias pensando em quem vai insultar", diz Barreto. Mas para o público republicano, isso parece ser muito atrativo. Ele não apenas lidera as pesquisas, mas consegue perdão por tudo. Há uma semana, diante de evangélicos conservadores, não poderia dizer se falava com Deus ou se pedia perdão pelos seus pecados. Além disso, insultou veteranos de guerra que foram prisioneiros. Deu no mesmo. O público recebeu-o com uma ovação e se despediu com outra.

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Daniel Cole é secretário-geral dos republicanos de Colorado Springs, um distrito republicano até a medula, um autêntico bastião do partido. Em seu trabalho de organizador, conhece bem o republicano da rua, o militar, o cristão evangélico do sul do Colorado. "Há duas semanas, estou recebendo muitas ligações de pessoas que querem ser voluntárias do partido", diz Cole, por telefone. "Nesse período, a única novidade foi a entrada de Trump. Ele está energizando as bases". Por outro lado, afirma Cole, "outra noite, houve uma reunião aqui e o organizador perguntou quem votaria em Trump. Ninguém levantou a mão".

Isso pode definir o futuro do Partido Republicano", diz Héctor Barreto, estrategista republicano.

As bases republicanas gostam dele. Talvez não votem nele, mas valorizam o fato de ter movimentado o partido, uma tarefa que cumpre com uma eficiência até exagerada. "Quem gosta de Trump busca um contraste com o que considera ser uma liderança apática do partido. É mais a atitude que o conteúdo das declarações que lhes agrada", afirma Cole. "No geral, na política, eu creio que as pessoas gostam de alguma coisa por alguma razão. Há uma razão para gostarem de Trump, e isso é uma lição para o resto dos candidatos".

"As pessoas que aplaudem o que disse sobre o México não necessariamente estão de acordo que os mexicanos sejam estupradores e assassinos, mas valorizam o fato de ele ter rompido o silêncio em temas que são tabus na política e que para elas são importantes", pondera Cole.

As palhaçadas de Trump estão dando a volta ao mundo. Ninguém escuta os candidatos republicanos falarem sobre Hillary Clinton ou Barack Obama. "Ninguém fala dos outros candidatos. Se quiserem atenção, precisam atacar Trump", diz Barreto.

As palhaçadas de Trump estão dando a volta ao mundo. Ninguém escuta os candidatos republicanos falarem sobre Hillary Clinton ou Barack Obama

Os discursos e apresentações são sistematicamente enterrados por Trump. "Esse é o fator mais importante na tática dos outros candidatos neste momento", assegura Daniel Cole. "Os demais precisam descobrir como navegar ao seu redor". O caso paradigmático é o de Rick Perry, que chamou Trump de "câncer" do partido, e com isso, conseguiu sua maior cobertura até o momento. Compete em virulência anti-Trump com Lindsay Graham. Jeb Bush, Marco Rubio ou Scott Walker, candidatos sérios e bem posicionados, criticaram Trump com firmeza, mas sempre de longe. Ted Cruz não o criticou, segundo Cole, porque "está se colocando como possível herdeiro de seus eleitores", caso Trump desista da corrida.

As primárias nas quais o partido de Nixon e Reagan joga pelo seu futuro foram convertidas em uma discussão de bar sobre os mexicanos serem ou não estupradores. A risada final de Donald Trump. O pesadelo do Partido Republicano.