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Datena, Haddad, Marta e a batalha pela periferia de São Paulo em 2016

Se apresentador entrar na disputa eleitoral, eleitorado periférico será disputado voto a voto

"O PT acabou", diz o mecânico Roberto Gonzaga.
"O PT acabou", diz o mecânico Roberto Gonzaga.

O PT morreu filhão. Anota aí”. A frase ao lado não foi dita em um bistrô do Jardim Europa, tradicional reduto tucano em São Paulo. Tão pouco saiu da boca de um integrante da "elite branca raivosa", como e ex-presidente Lula costuma chamar a oposição. Foi ouvida no Jardim Ângela, bairro que integra o chamado cinturão vermelho na capital, que em 2012 ajudou a eleger o prefeito Fernando Haddad com 78% dos votos no distrito. E saiu da boca de um trabalhador pobre. O descontentamento de parte dos eleitores com a legenda dá a dimensão do esforço que o petista terá que fazer para se reeleger no ano que vem. Não bastasse a baixa popularidade e a crise política que atinge o PT, Haddad terá que enfrentar dois rivais que gozam de alta popularidade nos bairros afastados do centro - o apresentador José Luis Datena (PP) e a ex-prefeita e senadora Marta Suplicy. Tudo indica que haverá uma batalha pelos votos da periferia paulista.

Os bairros do cinturão vermelho, que há décadas oferecem maioria de votos ao PT, somam mais de 4,1 milhões de eleitores de um total de 8,7 milhões da capital. A derrota do candidato petista ao governo do Estado Alexandre Padilha no ano passado em alguns destes distritos já indicava que a situação estava mudando. A crise econômica e política vivida pelo PT este ano promete alterar ainda mais esse quadro, e dificultar a vida de Haddad: “Depois de fevereiro piorou muito a economia. Ficou muito ruim de serviço aqui, senti o impacto no meu comércio”, afirma Roberto Gonzaga, 46, morador de Parelheiros, extremo sul de São Paulo. O período citado por ele coincide com a alta da inflação e a baixa projeção de crescimento econômico. Para o mecânico, “o Haddad só arrumou o centro da cidade, e na periferia, nada”.

A Lava Jato, que investiga um esquema de corrupção na Petrobras envolvendo vários partidos, inclusive o PT também parece ter arranhado a imagem da legenda na periferia. “Já votei muito no PT, agora não voto mais não, é muito escândalo, principalmente de janeiro para cá”, diz Eder Luciano, 32. Ao ouvir o comentário, Edilson Oliveira, 41, que caminhava pela rua, faz questão de se somar à crítica: “Nunca mais voto no PT, só sabe roubar a gente... E o Haddad vem com essa história de ciclovia... eu tenho mais de 40 anos, vou andar de bicicleta?”.

O cientista político Pedro Fassoni Arruda observa que "atualmente há um crescimento da oposição conservadora nos redutos tradicionalmente petistas, atrelado à queda da popularidade da Dilma". No último levantamento divulgado este mês, a presidenta atingiu a ínfima marca de 7,7% de aprovação, a pior marca desde o impeachment de Fernando Collor de Mello, em 1992. De acordo com o professor, a classe C é heterogênea, o que torna difícil prever seu comportamento na hora das eleições: “Eles são trabalhadores da indústria, comércio, profissionais liberais, pequenos comerciantes, cada um com sua própria visão de mundo".

A Marta tem mais crédito aqui do que o Haddad. Ela fez os CEUs, por exemplo, que tiraram muita criança da rua

Se por um lado Haddad anda em baixa no Jardim Ângela, Marta Suplicy é lembrada com carinho por muitos moradores. “A Marta tem mais crédito aqui do que o Haddad. Ela fez os CEUs, por exemplo, que tiraram muita criança da rua", diz Gonzaga. Leonor Gomes de Oliveira, 74, abre um sorriso ao ouvir o nome da ex-prefeita: “Foi ela que começou a obra no hospital da estrada do M’Boi Mirim, sempre que vou lá sou bem atendida. Ela é muito popular por aqui”. A senadora tem participado de vários eventos em bairros periféricos da capital, onde historicamente fica sua base eleitoral, e o Jardim Ângela estava em sua agenda. “A Marta foi a melhor prefeita do Brasil”, garante a doméstica Dula Silva, 42. Além de citar os CEUs, ela lembra que a ex-prefeita foi responsável pelo Bilhete Único e pelo corredor de ônibus da estrada do M’Boi.

Além da ex-prefeita, da baixa popularidade e da crise política de seu partido, Haddad enfrentará José Luís Datena, apresentador de um programa policial de grande audiência na TV Bandeirantes. “Acho que o Datena é uma furada bem grande, mas muita gente vai abraçar”, diz o professor Jefferson Santana, 26, morador do Jardim Ângela. Ele afirma que, apesar do jornalista ser muito popular no bairro, “ele defende bandeiras que para a periferia são um tiro no pé, como a redução da maioridade penal”.

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"Datena é furada para a periferia", diz Jefferson Santana.

A cientista política Vera Chaia, da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, acredita que caso seja candidato, Datena irá se beneficiar da atual polarização do cenário político. “Ele pode capitalizar com o discurso de ódio, especialmente em São Paulo, onde o eleitorado é muito conservador”. O perfil agressivo e a grande visibilidade do apresentador colaborariam com isso. “Existe um segmento da população muito raivoso, e que pode ser trabalhado pelo Datena. Existe no ar um mal estar com o que está sendo desenvolvido pelo PT e pelo Haddad”.

Para Chaia, a viabilidade do “candidato celebridade” depende muito da qualidade dos rivais. Se por um lado a candidatura começa forte, uma vez que trata-se de um nome bem conhecido, existe uma tendência a que perca força ao longo da corrida eleitoral. Foi o que aconteceu com outro provável postulante à Prefeitura em 2016, o deputado federal Celso Russomanno (PRB-SP). O parlamentar, que também já trabalhou em programas policiais – Aqui e Agora, do SBT -, fez fama na tela defendendo o direito do consumidor. Ele chegou a liderar a corrida por alguns meses no último pleito, em 2012, mas na reta final sua popularidade desidratou, e ele ficou de fora do segundo turno, disputado entre Haddad e Serra.

Já votei muito no PT, agora não voto mais não, é muito escândalo

Com propostas desencontradas para a mobilidade urbana, o candidato chegou a virar meme na Internet após dar respostas evasivas em um programa de TV: “Vamos falar sobre São Paulo?”, disse quando questionado sobre seus vínculos com a Igreja Universal.

O PSDB tentará atingir essa fatia do eleitorado comendo pelas beiradas. Nenhum de seus prováveis pré-candidatos, o empresário João Dória e o vereador Andrea Matarazzo, têm bom trânsito com os movimentos sociais que atuam na periferia. Mas o presidente do diretório municipal tucano, Mario Covas Neto, afirma que o PSDB também vai tentar ganhar espaço no cinturão vermelho. “O PT está perdendo força, mas não quer dizer que essa força virá automaticamente para nós, então nossa tarefa é ter candidatos a vereador nestes locais”, diz Covas Neto. De acordo com ele, emplacar candidatos à Câmara onde a legenda não costuma ir bem é o primeiro passo para conseguir alavancar uma candidatura à prefeitura. “Quem serve de linha de transmissão [entre candidato ao Executivo e a população] são os vereadores, não tem jeito”.

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