Obituário

Morre Satoru Iwata, presidente da Nintendo e impulsor dos videojogos

Satoru Iwata, presidente da Nintendo, foi um grande impulsionador do console Wii

Satoru Iwata, nascido no município de Hokkaido em 1959, foi, antes de tudo, um visionário do mundo dos videogames. A ele se deve a aposta da companhia em 2006, instigada pelas ofertas hiper-realistas da concorrência, num console como o Wii, simples no manejo e com design gráfico igualmente simples, que conseguiu livrar os videogames do estigma da violência e do isolamento para os usuários adolescentes. Satoru Iwata apostou no controle remoto do Wii, um marco no hardware dos videogames e conseguiu ampliar o desfrute dos jogos eletrônicos para toda a família.

Antes de se diplomar em Informática pelo Instituto Tecnológico de Tóquio, Satoru Iwata já colaborava no desenvolvimento de jogos para a companhia HAL Laboratory —assim chamada por serem as três letras anteriores, no abecedário, às da IBM e como homenagem ao computador mais oniscientes dos romances e filmes da série Odisseia no Espaço –, da qual passou a ser funcionário pouco depois de terminar seus estudos.

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Em 1983 ascendeu a coordenador da produção de software e dedicou-se em especial aos itens da Nintendo que a HAL desenvolvia. A criação em 1992 da série de Kirby, um personagem com aspecto de um globo cor-de-rosa capaz de absorver seus inimigos e copiar seus ataques, que alcançou uma enorme popularidade no Japão, antecedeu sua nomeação a presidente da empresa em 1993.

A Nintendo promoveu-o a diretor no ano 2000 e apenas dois anos mais tarde a presidente, no lugar de Hiroshi Yamauchi, seu predecessor durante 53 anos, que afirmava desconhecer por completo os videogames. Quebrava-se assim uma tradição de presidências hereditárias dentro da família Yamauchi, fundadora da companhia em 1889, então como fabricante de baralhos. Apesar de ter ganhado poder, Iwata nunca se afastou de sua vocação original: "No meu cartão de visitas sou um presidente de empresa. Em minha mente sou um programador de jogos. Mas em meu coração sou um jogador", disse 1995, em seu discurso de abertura da Conferência de Desenvolvedores de Jogos, o grande acontecimento anual dos profissionais da empresa.

Diferentemente de seus grandes competidores, Sony e Microsoft, a empresa com sede em Kyoto se dedica unicamente ao desenvolvimento de software e hardware de videogames. Para o catedrático de Engenharia de Software e Inteligência da Universidade Complutense de Madri, Pedro Antonio González Calero, Satoru Iwata manteve essa tradição, mas trouxe novos ares à companhia: "Não podemos falar de uma orientação ou estilo próprios de Iwata, mas de um perfeccionismo em seus trabalhos, algo que é, aliás, a marca da casa. Ele tinha um grande gosto pelos produtos bem pensados e bem acabados, sem nenhum detalhe deixado ao acaso, tanto do ponto de vista da tecnologia quanto do conteúdo."

A chegada, em 2006, do console Wii rompeu a tendência que imperava no mercado, marcado por imagens cada vez mais hiper-realistas e pelos videogames de clima épico típicos da Sony PlayStation e da Xbox da Microsoft. O Wii não só melhorava as possibilidades gráficas de seus predecessores, e além disso incluía jogos agradáveis, projetados para divertir mas também para fazer exercícios físicos em casa. Com uma aparência de simplicidade e de maneira surpreendente, conseguiu ampliar o mercado tradicional do videogame e criar um software para ser usado por toda a família. "Hoje estamos acostumados com isso, mas em 2005 era quase impensável que um avô jogasse videogames com os netos. Isso foi o Wii que conseguiu", observa o professor González Calero.

Sua trajetória esteve marcada também pelo sucesso de vendas do console Nintendo DS, embora seu lançamento tenha sido menos transgressor do que o do irmão mais velho Wii, que não foi superado nem pelo novo console da empresa, chamado Wii U, o primeiro de mesa da Nintendo e também o primeiro com imagens digitais de alta definição, lançado em 2012. Competidora direta do PlayStation 4 e do Xbox One da Microsoft, mas também de seu predecessor, o console não conseguiu decolar nas vendas, apesar do crescente número de títulos disponíveis.

A chegada do console Wii, em 2006, rompeu a tendência que imperava no mercado, marcada pelas imagens cada vez mais hiper-realistas e pelos videogames de clima épico

Iwata impediu que sua empresa desenvolvesse videogames para celulares e tablets, apesar do auge alcançado pelos dispositivos com a chegada dos smartphones. Satoru Iwata desaprovava a qualidade desigual dos produtos para esse suporte e era inimigo de um fenômeno que, acreditava, acarretaria perda de profissionalismo dos desenvolvedores.

Por causa de seus problemas de saúde, Iwata não esteve presente a um dos grandes encontros anuais da indústria, o E3, em junho. Sua morte, ocorrida no dia 11 [sábado passado], só se tornou pública na primeira hora desta segunda-feira, anunciada em Tóquio pela companhia, que a atribuiu a um "crescimento anormal das vias biliares". Em seu breve comunicado oficial, a divisão europeia da Nintendo manifestou pesar e definiu Satoru Iwata como "um líder forte, uma figura única na indústria do videogame e uma parte importante da história da empresa. Era um visionário no pleno sentido da palavra".

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