Crise na Grécia

Merkel avisa que o acordo com a Grécia não será a qualquer preço

A chanceler alemã assegura que o pacto para um terceiro resgate é muito complexo

Merkel e Tsipras conversam na presença de Hollande.EFE/ euters-live!

A Alemanha envia sinais de que o pacto necessário para um terceiro resgate grego é muito complexo. “A moeda mais importante que perdemos é a confiança”, assegurou o chanceler alemã, Angela Merkel, em sua chegada ao encontro de países do euro que acontece na tarde deste domingo em Bruxelas. A dirigente alemã aludia assim aos temores expressos por políticos e especialistas sobre o golpe mortal ao euro que pode provocar uma saída da Grécia da moeda comum. “Não terá um acordo a qualquer preço. Hoje teremos conversas duras”, previu Merkel.

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A chanceler é a chave para tornar coesa uma Europa que se encontra dividida entre a ala mais dura, resistente a estender a mão para a Grécia mediante o terceiro resgate, e a mais conciliadora, partidária de manter Atenas como sócia da zona euro. Esta última é a postura do presidente francês, François Hollande: “A França vai fazer tudo o que for necessário para encontrar um acordo que permita que a Grécia fique no euro”. O líder francês considerou que o encontro deste domingo é a cúpula "da última oportunidade".

O desejo expresso pelo primeiro-ministro grego, Alexis Tsipras, ao chegar neste domingo à reunião com seus colegas, revela as enormes dificuldades que terão os dirigentes para encontrar uma posição comum. "Estamos preparados para o compromisso. Podemos chegar a um acordo… se todas as partes quiserem”, afirmou Tsipras com uma eloquente pausa entre as duas partes da frase.

Como a França, a Comissão Europeia também trabalha para um acordo que impeça o temido Grexit (expressão que se refere à saída da Grécia do euro). “Lutarei até o último minuto pelo acordo”, prometeu o presidente da Comissão Europeia, Jean-Claude Juncker. “A Grécia precisa fazer mais a curto e médio prazo”, disse o comissário europeu de Assuntos Econômicos, Pierre Moscovici.

Depois de longas horas de negociações entre os líderes europeus, há uma mensagem comum que emerge nos discursos de boa parte dos mandatários: “Queremos manter a Grécia no euro, mas não a qualquer preço”. É a ideia que, quase com idênticas palavras repetem a maioria dos chefes de Estado e de Governo, bem como seus ministros de Finanças.

Cancelada a cúpula da União Europeia

A reunião dos 28 chefes de Governo da União Europeia prevista para ocorrer na noite deste domingo, em Bruxelas, foi cancelada por decisão do presidente do Conselho Europeu, Donald Tusk, para que a negociação entre a Grécia e seus credores possa durar mais tempo. Foi mantida, no entanto, o encontro vespertino com os líderes dos 19 países da UE que usam o euro, que deverão decidir sobre um mandato político para negociar um terceiro pacote de resgate financeiro para Atenas.

“Cancelei a cúpula europeia de hoje”, escreveu Tusk no Twitter. “A [reunião dos países] do euro começará às 16h [11h em Brasília] e durará até que terminem as negociações sobre a Grécia.” Essa decisão é, antes de mais nada, um bom indício sobre o andamento da atual rodada de discussões, que teve início ontem com a sessão do Eurogrupo (a reunião de ministros de Finanças e outras autoridades da zona euro). O processo continuou na manhã do domingo, no mesmo formato da véspera, e terminará à tarde, com a presença dos chefes de Governo. A convocação extraordinária dos 28 países da UE – incluindo 9 que não usam o euro – decorria, segundo anúncio feito por Tusk na segunda-feira, da necessidade de debater com todo o bloco as possíveis medidas de ajuda humanitária caso a Grécia deixe o euro. A chanceler (primeira-ministra) alemã, Angela Merkel, minimizou a convocação, alegando que a cúpula serviria apenas para a eventualidade de ser necessário tomar decisões orçamentárias que afetassem a todos os países da UE.

Ao cancelar o encontro, o presidente do Conselho dá mais margem aos líderes do euro para que decidam sobre esse terceiro resgate, afastando assim os cenários mais tensos, ao menos para este domingo. Os ministros de Economia e Finanças deveriam concluir no sábado o exame da solicitação do terceiro resgate, mas as divergências entre as delegações a respeito da necessidade de Atenas se comprometer a aplicar mais medidas e a perda de confiança nas autoridades helênicas impediram que o Eurogrupo fechasse esse capítulo. O diálogo foi retomado na manhã de domingo.

Os mais duros quanto à ampliação da ajuda à Grécia são a Eslováquia e a Finlândia, que chegaram a pedir inclusive que o país saia da zona do euro. O ministro de Economia finlandês, Alexander Stubb, reafirmou essa postura na manhã de domingo. “Não acredito que a esta altura iremos conceder um novo resgate à Grécia. Certamente não com o tipo de declarações que estamos escutando no Eurogrupo”, afirmou ele num intervalo da reunião ministerial. Stubb afirmou que metade de seus colegas compartilha dessa visão.

Um pouco mais comedidos que Finlândia e Eslováquia, outros países, capitaneados pela Alemanha e com a participação da Espanha, receia esse terceiro resgate por causa da falta de confiança na Grécia. Caso a ajuda seja concedida, esses Governos defendem duras contrapartidas que garantam o cumprimento de reformas. São representativas dessa tendência – dura, mas ao mesmo tempo pragmática para evitar danos irreparáveis na zona do euro – as palavras do ministro de Finanças austríaco, Hans-Jörg Schelling, segundo quem o desenrolar das negociações com a Grécia está sendo “muito difícil” por causa dos muitos desacordos que ainda restam. Mesmo assim, ele se declarou otimista com a possibilidade de acordo. Schelling reconheceu que há “muitos pontos” sobre os quais não há consenso, “nem dentro da zona do euro nem com a Grécia”.

“O Eurogrupo vai continuar as discussões. Como vocês viram, elas são bastante complicadas, então esperamos mais progresso", observou Valdis Dombrovskis, vice-presidente da Comissão Europeia para o euro, ao chegar para a reunião. O Executivo comunitário está consciente de que o terceiro resgate pode se complicar. “Acredito que é relativamente pouco provável que a Comissão obtenha hoje um mandato para começar as negociações formais sobre um terceiro programa, mas acredito que o Eurogrupo possa dar sua contribuição às discussões posteriores dos líderes”, afirmou o dirigente.

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