Termômetro Econômico e Social da América Latina

Má saúde mental é um obstáculo ao desenvolvimento da América Latina

Transtornos mentais representam quase um quarto das doenças na América Latina

Um hospital psiquiátrico em Manaus.
Um hospital psiquiátrico em Manaus.antonio cruz (Agência Brasil)

Um vídeo da Organização Mundial de Saúde (OMS) descreve o problema como um cachorro negro que acompanha a pessoa em todo lugar, sem deixá-la dormir ou comer bem. Essa descrição foi celebrizada pelo estadista inglês Winston Churchill. O nome do cachorro preto é “depressão”.

A depressão é o transtorno mental mais comum em todo o mundo. Na América Latina, 5% da população adulta sofre dela, mas, segundo a OMS, a maioria não busca nem recebe tratamento.

Nos casos mais graves, a depressão pode levar ao suicídio; estima-se que cerca de 63.000 pessoas se suicidam a cada ano nas Américas. Quando o sofrimento é mais leve, também pode afetar o cotidiano, o trabalho e as relações pessoais.

Para dar uma ideia da dimensão do problema, os transtornos mentais e neurológicos representam quase um quarto da carga das doenças na América Latina e no Caribe. Esses problemas abrangem desde a depressão e a ansiedade até o transtorno bipolar.

“Essas doenças causam impacto sobre o dia a dia das pessoas – desde o trabalho até qualquer atividade cognitiva, o estudo, atividades familiares, atividades sociais”, disse o Dr. José Miguel Uribe, psiquiatra e consultor do Banco Mundial.

Perda de produtividade

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Além do impacto sobre a vida pessoal, as doenças mentais também afetam o desenvolvimento de um país, já que são uma das maiores causas mundiais de incapacitação. “Os transtornos mentais são uma das principais causas de perda de produtividade em nível nacional (pelo menos no caso da Colômbia) e mundial”, afirma o psiquiatra.

“É um problema que afeta muitas pessoas e tem um impacto importante sobre a produtividade”, assinala Roberto Iunes, economista do Banco Mundial. “Muitas pessoas perdem tempo de trabalho e têm sua produtividade reduzida.” Segundo ele, fala-se com frequência do impacto sobre a produtividade exercido pelos problemas “físicos”, mas discute-se muito pouco a saúde mental.

A saúde mental inadequada também afeta mais aos pobres, agravando o círculo vicioso da desigualdade nos países latino-americanos. “Existe uma relação clara entre a condição de vida e os transtornos mentais comuns”, explica Paulo Rossi Menezes, professor do Departamento de Medicina Preventiva da USP.

Os pobres não apenas correm risco maior de sofrer de um transtorno mental como a depressão – pelo fato de enfrentarem mais dificuldades na vida --, como também têm menos acesso a um atendimento adequado.

Apesar disso, segundo a OMS, menos de 2% do orçamento de saúde na região se destina à saúde mental. E em todas as regiões do mundo, a parcela de recursos destinada a essa finalidade é insuficiente para cobrir as necessidades básicas, segundo José Miguel Uribe.

Por isso o Banco Mundial, cuja finalidade principal é fomentar o desenvolvimento econômico e o combate à pobreza, quer incluir o tema da saúde mental como elemento importante na agenda de desenvolvimento e prioridades das autoridades econômicas e de saúde de seus países membros.

Informação para combater o estigma

De acordo com Uribe, vários problemas contribuem para fazer com que seja difícil dedicar a atenção adequada à saúde mental. “O primeiro é o estigma que cerca os transtornos mentais, fazendo com que as pessoas frequentemente hesitem em buscar ajuda, porque têm vergonha ou ideias preconcebidas sobre como são os tratamentos.”

Isso pode se dever em parte a uma falta de informações. “As pessoas não têm informações, e isso contribui para as barreiras ao atendimento”, observa Paulo Rossi Menezes. “As pessoas não sabem que aquilo que sentem pode ser o que chamamos de depressão. Ou, se reconhecem que têm depressão, não acham fácil dizer isso às outras pessoas.”

Por outro lado, as pessoas com transtornos mentais foram discriminadas historicamente e apenas recentemente estão podendo ter um papel mais visível e lutar por seus direitos à saúde e à inclusão social.

Por ser também uma questão de direitos humanos, a iniciativa SaluDerecho, do Banco Mundial, apoia esforços na área da saúde mental na América Latina.

“Precisamos dar normalidade também aos pacientes de saúde mental”, opina Nieves Domínguez González, médica e cirurgiã da Universidade de Santiago de Compostela e ex-gerente do Serviço Galego de Saúde.

“É preciso ensinar à população que esses pacientes podem levar uma vida normal, com determinadas circunstâncias.” A especialista espanhola conta que na Galícia, por exemplo, o cinema foi usado como ferramenta: no final de um filme ligado a transtornos mentais, um especialista falava com o público.

Outros desafios estão ligados ao número de médicos com a experiência necessária para tratar transtornos mentais. “Não há profissionais suficientes”, diz José Miguel Uribe. “E o outro problema é que a saúde mental tradicionalmente não tem sido prioritária para os sistemas de saúde.”

Reforçar o atendimento primário

As organizações internacionais propõem algumas estratégias para enfrentar o problema. “Reforçar o atendimento primário de saúde e de saúde mental”, diz Uribe. Isso significa atendimento perto das pessoas, nas comunidades, mas também quer dizer que os profissionais médicos gerais sejam capacitados para reconhecer transtornos mentais.

“Muitos dos problemas comuns de saúde mental podem ser resolvidos por uma equipe de atendimento primário.” Também é importante uma coordenação boa entre os médicos de atendimento primário e os especialistas, para que casos mais complexos sejam encaminhados ao especialista adequado.

Menos de 2% do orçamento de saúde na América Latina se destina à saúde mental

As coisas já estão mudando em alguns países da América Latina. No Brasil, por exemplo, se 20 ou 30 anos atrás a estratégia visava principalmente os transtornos mentais graves e os pacientes em hospitais psiquiátricos, agora ela foi ampliada, explica Menezes.

“Houve uma mudança muito grande na política de saúde mental do país”, ele explica. “Hoje nossa política de saúde mental não se baseia nos hospitais, mas em centros de atendimento psicossocial e na integração da saúde mental ao atendimento primário e geral.”

Embora ainda existam muitas dificuldades a ser enfrentadas, segundo o especialista, também estão sendo feitos esforços para abrir o acesso aos serviços de saúde mental a um número grande de pessoas que podem sofrer de transtornos mentais mais leves, como, na maioria dos casos, a depressão.

Os especialistas dizem que o objetivo é aprimorar o atendimento à saúde mental na região, para que cada vez mais latino-americanos tenham a possibilidade de derrotar esse cão preto que acompanha muitos deles em todo lugar.

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