Crise na Grécia

Grécia pedirá à Europa um resgate completo por pelo menos três anos

Não foi divulgado o valor, mas fontes consultadas avaliam que pode ser de 50 bilhões de euros

Jeroen Dijsselbloem (à esq.) com Euclid Tsakalotos nesta terça.
Jeroen Dijsselbloem (à esq.) com Euclid Tsakalotos nesta terça.M. E. (AP)

A Grécia vai pedir um terceiro resgate. O pedido será feito nas próximas horas. Será um programa completo de até três anos. E o valor ainda não está claro, mas as fontes consultadas explicaram que chegará aos 50 bilhões de euros (175 bilhões de reais). A Grécia destila incerteza: Alexis Tsipras foi a Bruxelas, na terça-feira, sem o esperado pedido, o que teria tornado as coisas mais fáceis e reduzido o risco de seus bancos. Mas Bruxelas está concluindo o projeto final, com um programa que combina um plano de curto prazo – seis meses e 15 bilhões, com condições e medidas prioritárias para as necessidades financeiras imediatas da Grécia – e outro a médio e longo prazo. Tsipras deve aceitar as condições dos sócios tendo como base a oferta de 30 de junho se quiser evitar a saída do euro.

No final da cúpula de líderes da zona do euro, o primeiro-ministro italiano, Matteo Renzi, disse na noite de terça-feira que espera que a solução seja conseguida em uma nova cúpula extraordinária da UE no domingo. “Espero que seja a cúpula decisiva, mas a bola ainda está no campo grego. Eles devem apresentar propostas”, disse Renzi à imprensa em Bruxelas. Esta cúpula será precedida por uma reunião no sábado dos Ministros de Economia e Finanças da zona do euro.

A chanceler alemã, Angela Merkel, também disse ao final da cúpula que “ainda não se deram as condições” para iniciar as negociações sobre um terceiro programa de ajuda à Grécia, e espera que Atenas apresente “propostas detalhadas” antes de quinta-feira. “Só posso levar [a proposta] para o Bundestag e votar esse programa depois que tivermos propostas detalhadas sobre o programa a médio e longo prazo”, disse a chanceler que, apesar de tudo, está otimista e espera que os gregos apresentem reformas necessárias para aprovar a nova ajuda.

A Grécia não cumpriu as expectativas na terça-feira e chegou a Bruxelas, à reunião do Eurogrupo [instância que agrupa ministros de Finanças e outras autoridades da zona do euro] e à cúpula de chefes de Estado e de Governo da zona euro sem o pedido de resgate esperado. Os credores, tão duros em outros momentos, não colocaram objeções: Bruxelas assumiu – a contragosto, sem dúvida – que esse pedido vai chegar até quinta-feira, e se for assim os credores vão gerar o sinal político necessário para começar a negociar esse programa e para que o BCE não desconecte os bancos do financiamento de emergência, explicaram várias fontes europeias e gregas. Atenas não quis negociar no âmbito do Eurogrupo: reservou a parte mais substancial das negociações para a cúpula de líderes. A chanceler alemã, Angela Merkel, assumiu que o fim da saga grega deve ser em “questão de dias, não de semanas” se Atenas quiser eliminar todos os riscos de acidentes no sistema bancário ou até mesmo uma saída do euro. Embora quase todos os detalhes do penúltimo capítulo da crise grega ainda estejam em aberto.

Tsipras ganhou no último domingo, no controvertido referendo sobre a proposta europeia, o apoio político necessário em casa para evitar problemas com o que está por vir. O primeiro-ministro conseguiu fechar um consenso entre os principais partidos gregos, o que minimiza a possibilidade de uma crise política. Agora resta saber exatamente o que ele quer e, acima de tudo, o que irá conceder aos sócios: quais condições tem esse programa. Os sócios, disse um dos ministros, não serão suaves.

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Embora ainda existam muitas questões não resolvidas, as fontes consultadas afirmaram que a Grécia pedirá o citado terceiro programa ao mecanismo de resgate europeu (Mede) por um período de dois a três anos e “com base na proposta apresentada no último dia 30 de junho, com as adaptações necessárias após o referendo e para responder às necessidades urgentes de liquidez”, explicaram fontes do Governo grego. Resumindo: Atenas quer que o prazo seja o mínimo imprescindível, porque o programa de ajuda acarreta condições e exames contínuos das instituições conhecidas anteriormente como troika. Esse prazo é a questão central: os gregos querem um empréstimo de dois anos, mas os sócios preferem três. O valor não está claro: a Grécia poderia solicitar um número fechado, mas o normal é que os credores estimem as necessidades de financiamento nas próximas semanas. As fontes consultadas avaliam em 50 bilhões. O FMI estimou há uns dias que são necessários 52 bilhões de euros para os próximos três anos e isso sem contar o dano causado pelo corralito e os controles de capital no sistema financeiro.

A reestruturação da dívida, em princípio, não está incluída no pedido da Grécia. Mas é um elemento fundamental para Atenas, e os sócios estão dispostos a ampliar prazos – e talvez reduzir juros – no outono. “Essa não é a questão mais urgente”, disse o ministro espanhol de Economia, Luis de Guindos.

A proposta de 30 de junho incluía concessões por parte da Grécia no imposto IVA, nas aposentadorias e nos gastos militares, apesar de que persistiam algumas diferenças com os credores. Nessas áreas, Tsipras não está disposto a avançar mais. Em troca, as fontes consultadas afirmam que o esforço adicional poderia chegar na área de privatizações ou com reformas nos mercados de produtos e de serviços, já que Atenas não quer uma reforma mais radical nas aposentadorias.

O pacote inclui um plano para lidar com as necessidades financeiras da Grécia no curto prazo – seis meses –, com a ajuda do BCE e talvez desembolsos rápidos se a Grécia conseguir aprovar medidas concretas nesta semana.

Solução de urgência

Os sócios procuram hoje à noite uma fórmula para evitar um default ao BCE no dia 20 de julho próximo, em um vencimento de 3,3 bilhões de euros (11,6 bilhões de reais). A Grécia deve concordar em aprovar medidas prioritárias – quer dizer, cortes ou reformas – se quiser ter acesso a esse dinheiro para evitar um default que levaria a sérios problemas. De forma paralela, a Europa deve garantir alguma margem para que os bancos gregos, à beira do colapso pela contínua saída de depósitos, peçam falência nos próximos dias.

Tsipras se comprometeu hoje à noite a chegar a um acordo sobre essas medidas prioritárias antes da próxima cúpula do euro, prevista para o próximo domingo. O primeiro-ministro se reuniu na terça-feira com Merkel, o presidente da Comissão Europeia, Jean-Claude Juncker, e o presidente francês, François Hollande, para limpar o caminho. Também conversou por telefone com o presidente dos EUA, Barack Obama, que vem acompanhando de perto as negociações e que também conversou com Merkel. E na quarta-feira Tsipras vai ao Parlamento Europeu em Estrasburgo.