Crise na Grécia

França e Comissão Europeia tentam evitar saída da Grécia da zona do euro

Juncker descarta um acordo rápido sobre a Grécia na cúpula desta terça-feira

Jean-Claude Junker, presidente da Comissão Europeia. (overonaelpais)

O presidente da Comissão Europeia, Jean-Claude Juncker, descartou no Parlamento Europeu um acordo rápido sobre a situação da Grécia na cúpula desta terça-feira, apesar da gravidade da crise, especialmente no setor financeiro. "Sou contra a saída da Grécia do euro", disse o chefe do braço executivo da União Europeia, embora tenha reconhecido que alguns Estados membros são a favor do Grexit — termo que aglutina as palavras Greek (Grécia) e exit (saída) em inglês. "Na Europa, as respostas simples geralmente estão equivocadas: a saída da Grécia é um erro, e ainda assim um acordo hoje [terça] seria muito simples. É preciso negociar por etapas para conseguir um pacto", disse.

Há apenas uma semana, Juncker havia transformado o referendo sobre a proposta europeia em um plebiscito sobre a Europa. Agora, volta atrás em sua opinião. "O não grego é um não à Europa, não é um não para o euro: é um não a uma proposta que já estava superada. Tsipras tem de explicar o que o resultado significa".

Juncker descarta um acordo nesta terça-feira, mas o tempo está se esgotando: o Banco Central Europeu (BCE) na noite de segunda-feira tornou as condições de liquidez mais difíceis para as instituições financeiras gregas, que estão perto da asfixia. Enquanto isso, a França pressionou os outros parceiros da zona do euro antes da cúpula extraordinária para alcançar a base de um acordo com a Grécia. Depois que o presidente da França, François Hollande, e a chanceler alemã Angela Merkel concordaram na segunda-feira em abrir a porta para o diálogo com Atenas e evitar a saída da Grécia do euro, Hollande e vários de seus ministros contataram líderes de outros países para um chamamento “à responsabilidade”, disseram fontes do Executivo francês.

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O primeiro-ministro da França, Manuel Valls, mostrou-se "convencido" de que existem "as bases de um acordo", mas Paris está ciente de que vários países mantêm posições muito duras em relação a Atenas, que só podem ser superadas se a Grécia apresentar uma "proposta coerente". Em declarações à rádio RTL, Valls destacou que a França vai fazer "todo o possível" para evitar a saída da Grécia.

"A França está convencida de que não podemos correr o risco de uma saída da Grécia da zona do euro, tanto por razões econômicas e, acima de tudo, políticas." A saída, pela primeira vez, de um país da moeda única representaria "um risco para o crescimento e para a economia global".

Mas, para evitar isso, Paris pressiona principalmente o primeiro-ministro grego, Alexis Tsipras, para que apresente a proposta "séria, precisa e confiável" pedida por Hollande e Merkel. Depois de ouvir a "mensagem de dignidade" da população grega no referendo, disse Valls, Tsipras deve exercer suas "responsabilidades" e colocar sobre a mesa uma proposta que inclua reformas importantes, “algumas propostas que permitam sair da crise".

"Solidariedade e responsabilidade andam de mãos dadas", disse o primeiro-ministro francês, em linha com as declarações de Hollande na segunda-feira, "e todos devem estar à altura das responsabilidades deste momento histórico". O acordo é necessário, disse, "para a Grécia, para a coerência da zona euro e para a Europa".

A França, que lidera o grupo de países que busca a todo custo um acordo com a Grécia, é o único que tem se mostrado disposto publicamente a considerar até uma reestruturação da dívida grega. "Não há nenhum assunto tabu sobre a dívida," repetiu Valls.

Enquanto isso, as pesquisas na França indicam que a população está completamente dividida sobre a questão. Assim como o parlamento. A esquerda defende o pacto com Atenas, mas a direita é a favor da saída da Grécia do euro. Valls disse que, em breve, talvez nesta quarta-feira, haverá um debate parlamentar sobre a posição francesa.

Com os bancos fechados, corralito (retenção de depósitos bancários) e controle de capitais, o primeiro default ao FMI em um país desenvolvido, o final do segundo resgate e o recente referendo, a situação na Grécia se torna cada vez mais delicada. Diante da reunião do Eurogrupo e da cúpula desta terça-feira, estes são os cenários dos próximos dias.

1. PROGRAMA-PONTE. O grupo de trabalho do Eurogrupo (representantes dos Ministérios das Finanças da zona do euro) se reuniram em Bruxelas na segunda-feira e deixaram claro que ainda não é certo que os Estados membros devem dar um mandato para que as instituições comecem a negociar. Tudo depende da proposta que a Grécia apresente para os parceiros. Se a proposta for atraente o suficiente (e isso significaria que o primeiro-ministro Alexis Tsipras teria saltado muitas de suas linhas vermelhas), o Eurogrupo e a cúpula do euro dariam o sinal verde para esse mandato. Nesse caso, o BCE poderá ampliar as linhas de liquidez de emergência aos bancos gregos e evitar as falências, diante da constatação que os recursos das instituições estão secando. Em Bruxelas, especula-se sobre um programa-ponte, liderado pelo BCE e com uma possível reestruturação da dívida grega (uma extensão dos prazos e redução dos juros, e até períodos mais longos de carência) no final do ano. Isso daria aos gregos algum tempo para negociar o mais rápido possível um terceiro resgate bilionário.

2. PREOCUPAÇÃO NO SETOR BANCÁRIO. Se a proposta de Tsipras não for suficientemente ambiciosa, haverá impacto no setor bancário que poderia precipitar o primeiro passo para a saída da Grécia da zona do euro já na noite desta terça-feira. Os quatro principais bancos gregos estão à beira de um colapso; o corralito e o controle de capitais estão castigando o setor financeiro e a economia em geral. O BCE não facilitou as coisas na segunda-feira. Com o não no referendo, o final do resgate e o default ao FMI, se os parceiros do euro não derem um sinal político e um mandato para negociar esse terceiro resgate, o BCE poderia, entre esta terça e quarta-feira, fechar a torneira de liquidez aos bancos. Nesse caso, seria necessária uma recapitalização fulminante: sem dinheiro europeu e sem o apoio dos bancos gregos, aumentaria a possibilidade da criação de uma moeda paralela, o que colocaria a Grécia e a zona do euro em águas desconhecidas: duas moedas circulando ao mesmo tempo em um país do euro. Junto com a recapitalização, é provável que os poupadores sejam punidos de alguma forma, ao estilo de Chipre, de modo que os credores dos bancos (os detentores de dívida em primeiro lugar, mas talvez também correntistas) paguem parte da conta.

3. ‘GREXIT’. A teoria da conspiração tem surgido após os acontecimentos na Grécia. O historiador americano Mark Mazower acredita que o referendo foi uma manobra para consolidar o poder de Tsipras dentro de seu partido. Mas Mazower destaca outra explicação no The New York Times: que Tsipras na verdade queria tirar a Grécia da zona euro. "Ele pediu aos gregos para votar “não” a um programa de resgate que já havia terminado. A única inferência lógica, embora ele negue, é que quer ver a Grécia fora do euro. Sabe que seria impopular e uma aposta enorme." Fontes diplomáticas disseram que Tsipras parece ter feito todo o possível para que o resgate vencesse; o controle de capitais e o default do país tornam muito difícil evitar uma saída do euro, de acordo com a mesma fonte.