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Governo da Grécia aceita as condições propostas pela União Europeia

Itália e França ainda acreditam em um acordo antes do referendo de domingo

O ministro de Finanças grego, Yanis Varoufakis, com o presidente do Eurogrupo, Jeroen Dijsselbloem.
O ministro de Finanças grego, Yanis Varoufakis, com o presidente do Eurogrupo, Jeroen Dijsselbloem. AP

Nova reviravolta desesperada na crise grega. O primeiro-ministro Alexis Tsipras enviou outra carta às instituições europeias aceitando praticamente todas as condições da proposta que tinha rejeitado na semana passada antes de convocar o referendo. O texto, divulgado nesta quarta-feira pelo Financial Times, diz que a Grécia “está disposta a aceitar” as condições da proposta europeia, com algumas emendas. Com isso, Tsipras espera obter a extensão do segundo resgate – que expirou na terça-feira – e a elaboração de um terceiro, que solicitou aos sócios europeus e foi rejeitado pelos ministros do euro em uma reunião emergencial por telefone também na terça-feira. A Comissão, no entanto, rejeita uma extensão do atual programa “porque expirou” e avisa de que agora o cenário é “novo”, ressaltou o vice-presidente do Executivo comunitário, Valdis Dombrovskis.

Sobre a proposta de última hora das instituições – IVA (imposto) turístico de 13%, pacote de crescimento de 35 bilhões de euros e alguma referência à reestruturação da dívida – Tsipras acrescenta outras exigências. Quer fixar um desconto especial de 30% no IVA das ilhas gregas, um pequeno atraso no aumento da idade da aposentadoria (começar a prolongá-la em outubro, em vez de agora, para chegar aos 67 anos em 2022) e ampliar os prazos para eliminar o complemento dado às aposentadorias mais baixas. Mais problemática pode ser a proposta de reduzir o gasto militar em 200 milhões de euros (680 milhões de reais) em 2016 e mais 400 milhões em 2017 (os sócios pediam uma redução de 400 milhões de euros já de início). Quanto ao mercado trabalhista, Tsipras se compromete a estabelecer um novo marco no segundo semestre.

O Eurogrupo deve examinar essas exigências em uma nova reunião nesta quarta-feira. Nenhuma delas parece disparatada (na realidade, são retoques mínimos sobre a última proposta apresentada pelo presidente da Comissão Europeia, Jean-Claude Juncker). O problema é que os parceiros podem achar que chega muito tarde e que não estão dispostos a negociar nada antes do referendo, como concluiu a chanceler alemã Angela Merkel na terça-feira. Ou que, fartos das seguidas reviravoltas de Tsipras, façam objeções até mesmo às leves emendas exigidas pelo primeiro-ministro grego.

Depois de várias semanas como voz mais otimista sobre o desenlace do problema grego, Juncker recusou-se a avaliar a nova carta e suas consequências. Disse apenas estar “em permanente contato com as autoridades gregas e com outras autoridades”.

Na terça-feira, a Grécia passou do prazo imposto pelas instituições e acordado com o ministro das Finanças grego, Yanis Varoufakis, em 20 de fevereiro: o resgate expiraria em 30 de junho. E assim foi. Atenas não pagou ao Fundo Monetário Internacional (FMI) a dívida de 1,5 bilhão de euros e a Grécia entrou para a lista de países inadimplentes. Apesar desse último desencontro, e de a chanceler alemã, Angela Merkel, insistir em deixar acontecer o referendo de domingo, o Eurogrupo – os 19 ministros de Finanças da zona do euro – voltará a se reunir na quarta-feira, a pedido de alguns integrantes, para chegar a um acordo in extremis com as autoridades gregas.

“Até onde sei, os ministros [da zona do euro] ainda estão abertos a um acordo”, disse Pier Carlo Padoan, ministro das Finanças italiano, à emissora britânica BBC. Padoan, que também participará da teleconferência com seus 18 colegas do euro, ressaltou que a Grécia precisa “voltar a crescer, voltar a ter confiança, liquidez, e realizar reformas estruturais”. Sobre uma possível ruptura do euro com um Grexit (a saída da Grécia da moeda única), Padoan confessou estar na incerteza, mas afirmou que o mais relevante e urgente é “acelerar uma integração institucional em torno do euro”, a começar por uma boa união bancária.

Aposentados gregos fazem fila em frente aos bancos.

A França, por meio de seu ministro no Eurogrupo, Michel Sapin, tenta remar em direção ao entendimento com a Grécia. “Nosso objetivo é encontrar um acordo antes do referendo, se for possível”, declarou à emissora RTL. Quase nenhum país, exceto a Alemanha, quer chegar ao domingo sem um acordo com Atenas. Todos tentarão até o segundo último voltar à mesa de negociações com a Grécia. “Nosso objetivo é ver, até o último minuto, se é possível encontrar um acordo que pavimente o caminho para o retorno da estabilidade à Grécia e que tranquilize a Europa e o mundo”, acrescentou Sapin.

O Eurogrupo discutirá em profundidade nesta quarta-feira a última proposta em que o Governo de Alexis Tsipras pede uma extensão do programa atual – que expirou ontem – e uma reestruturação da dívida, algo que os parceiros recusaram no dia anterior. Ao mesmo tempo, o Banco Central Europeu (BCE) discutirá em Frankfurt se mantém ou não a linha de liquidez de emergência para Atenas, algo que parece provável, segundo afirmou um funcionário da instituição à agência France Presse.

Na terça-feira, Atenas pediu mais liquidez para enfrentar a dívida de pouco mais de 29 bilhões de euros que tem com vários credores (entre eles, 12 bilhões com o Fundo) até 2017. Em carta aos presidentes da Comissão, Jean-Claude Juncker, e do Eurogrupo, Jeroen Dijsselbloem, Tsipras ressalta que o país tem “problemas urgentes de liquidez”, tanto que teria proposto suspender o referendo do próximo domingo, 5 de julho, se os parceiros do euro e as instituições aceitarem as condições de sua última proposta.

Três dias de corralito (controles de capital com um limite de saque de 60 euros por dia), segunda reunião do Eurogrupo por telefone em uma semana, o primeiro calote no FMI e quatro dias para o referendo. Diante desse cenário trágico, o ministro das Finanças britânico – que não pertence à zona do euro –, George Osborne, declarou que está se preparando “para o pior”.

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