Análise
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Francisco, o novo teólogo da Terra

A primeira encíclica é a mais ecumênica de todas as proclamadas por um pontífice

O papa Francisco, na quarta-feira no Vaticano.
O papa Francisco, na quarta-feira no Vaticano.Alessandra Tarantino / AP

A primeira encíclica de Francisco, Laudato Si (Louvado Seja), dedicada à “dívida ecológica” contraída com nosso planeta, confirmou, se é que era necessário, que a Igreja tem hoje em sua liderança um Papa que foge de todos os esquemas do passado. Nos encontramos, de fato, diante do mais diferente bispo de Roma desde os tempos do apóstolo Pedro.

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Sua primeira encíclica coloca do mesmo lado a fé e a ciência, Deus e a Terra e cria um novo pecado, o ecológico, poderá fazer estremecer muitos católicos tradicionais.

Em vez de falar aos céus com uma encíclica sobre Deus vociferando contra os pecados contra a fé e a moral, Francisco desceu até os sete infernos dos detentores do poder que, com sua ganância em querer dominar a Terra segundo seus cálculos capitalistas, deixaram para as novas gerações um planeta “de escombros, desertos e sujeira”.

Francisco, ao melhor estilo dos teólogos da libertação (condenados ao ostracismo por seus antecessores por serem considerados teólogos mais do humano do que do divino) se coloca ele mesmo como a versão mais moderna de “teólogo da ecologia”, na expressão criado pelo teólogo brasileiro Leonardo Boff.

A nova encíclica quebra paradigmas na Igreja que um dia condenou Galileu e que viveu um longo divórcio de séculos com a ciência e os não crentes. Nela se dá voz e credibilidade aos cientistas modernos mais sérios, não importa se religiosos ou não, empenhados em demonstrar que somos nós, com nossa cobiça e descuido, os responsáveis pelas graves mudanças que já ocorrem no planeta.

Lendo com atenção a nova encíclica fica claro que o Papa, que apostou desde o primeiro momento de seu pontificado pela periferia pobre e saqueada da Terra, pela escória humana, com clara e valente visão evangélica, sabe o que está em jogo.

Sabe que a Igreja joga seu presente e seu futuro, sua credibilidade e a própria fidelidade a sua mensagem original, não nas velhas teologias e direitos canônicos, mas na defesa do que é mais nosso como é a Terra. Uma riqueza que é social, que não deve ter donos definitivos, mas que pertence a todos, especialmente aos que mais sofrem as consequências de sua exploração pelos que acreditam ser deuses intocáveis do poder.

Uma encíclica que aborda um tema fundamental que afeta a todos, crentes, agnósticos e ateus, ricos e pobres, por seu interesse universal e os perigos que espreitam a humanidade inteira, e é por sua vez a mais ecumênica de todas as até agora proclamadas por um pontífice.

Em um mundo órfão de líderes mundiais capazes de imporem-se por sua força moral e de enfrentarem os tiranos como fez Jesus com Herodes, a arriscada decisão do papa Francisco de dedicar sua primeira encíclica não ao céu, mas à Terra, condenando os responsáveis pelo novo holocausto ecológico, o consagra como uma grande líder mundial não somente espiritual, mas também social e até mesmo político.

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