Copa América 2015

Golaço de Agüero dá à Argentina vitória sobre o Uruguai

Primeira vitória dá confiança à seleção argentina, que se impôs sobre o rival

(AGENCIA_DESCONOCIDA)

Argentina e Uruguai disputaram a primeira final da Copa América, em 17 de julho de 1916. Nomes como Brown, Olazar, Isola, Badaracco, Heissinger, Chaco, Hayes, Marán, Gradín, Saporiti e Piendibene ficaram inscritos em uma súmula que é parte da história e do mito. A esta altura, pouco importa quem defendeu este ou aquele escudo. A fundação do clássico do rio da Prata remonta à fundação do próprio futebol. Transcende a trivialidade da documentação. Não menos casual é que Javier Pastore vestisse azul escuro e Álvaro Pereira estivesse de branco com detalhes celestes, na noite de terça-feira, em La Serena. Ambos prestaram tributo a essa história num momento sublime, aos 19 minutos do segundo tempo de uma partida vertiginosa. Pastore recebeu a bola de costas e a tocou de calcanhar no meio das pernas do adversário. Girou como um bailarino e voltou a dar uma caneta em Rodríguez para completar o passe a Zabaleta, que subiu pela lateral e cruzou forte, no primeiro pau. Sergio Agüero se antecipou a Giménez e se atirou como uma chapa, dando velocidade à ação. A cabeçada desviou sutilmente a bola para a rede. Um golaço. Uma fagulha de eficácia num duelo de resto estéril. O único gol de um confronto centenário, fraternal e rude.

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“Eles propuseram uma partida dura, de choque”, disse Lionel Messi, ainda junto ao gramado, após o apito final. “Não quiseram jogar muito. Nós tentamos penetrar pelos dois lados, mas eles recuperavam e jogavam bolas longas em seguida. Por sorte chegou o gol do Kun e a partida foi brigada até o final. Preferimos jogar de outra maneira, mas também temos que saber ser duros.”

A Argentina aliviou a tensão acumulada durante a primeira semana do torneio. A primeira vitória lhe dará confiança. Mas não foi simples. O Uruguai obrigou o rival a disputar cada bola dividida como se fosse a última. A Celeste explorava os velozes contra-ataques de Cavani, mas se mantinha recolhida em seu campo, formando duas linhas férreas, comandadas por Álvaro González e Arévalo Rios, e colocando à prova os nervos e pulmões argentinos. A Argentina reúne lampejos de talento, mas sofre para ordená-los. Parece algo natural em se tratando de uma equipe que acaba de ser formada. O jogo de sábado contra o Paraguai, com o gol de empate (2 x 2) sofrido no último minuto, acentuou as dúvidas entre os jogadores. Na falta de clareza, como disse Messi, os argentinos aceitaram o corpo a corpo.

“Continuem insistindo!”, gritava o treinador Gerardo Martino do banco. Havia tão poucos espaços, tanta confusão, tão pouca precisão nos passes, que o selecionador argentino deve ter pensado que seus jogadores corriam o risco de se distrair ou se precipitar. Não foi assim. Biglia e Mascherano ditaram o ritmo com rigor, e após 30 minutos Pastore começou a ganhar importância. O armador do PSG se ergueu entre os demais em campo até se situar no mesmo patamar de Messi. Juntos, esses digníssimos representantes de uma longa tradição de improvisadores chegaram aonde os métodos, treinos e preleções não podem chegar. Aprenderam dentro de campo. Foram tecendo o jogo conforme se entendiam com os companheiros. Pouco a pouco, até conduzir as manobras à área de Muslera.

Biglia e Mascherano ditaram o ritmo com rigor, e após 30 minutos Pastore começou a ganhar importância

O Uruguai não se contentou apenas em resistir. Posicionou-se para tirar proveito de qualquer passe errado dos argentinos. Cada bola perdida encontrava a resposta de um movimento coordenado de Lodeiro, Rolán e Cavani, prenúncio de um ataque geral. Não é segredo que esta seleção argentina tem dificuldade de se reposicionar e recuperar a bola. A defesa é uma atividade incômoda para a maioria. A troca de Biglia por Banega ajudou a compensar isso. E assim chegou o intervalo, com os dois times empatados e igualmente desgastados. Martino já assistia da arquibancada, porque o árbitro o expulsou por protestar.

Argentina 1 x 0 Uruguai

Argentina: Sergio Romero; Pablo Zabaleta, Ezequiel Garay, Nicolás Otamendi e Marcos Rojo; Javier Mascherano, Lucas Biglia, Javier Pastore (Éver Banega, min. 78); Angel di María (Pereyra, min. 88), Kun Agüero (Carlos Tévez, min. 81) e Lionel Messi.

Uruguai: Fernando Muslera; Pereira, Diego Godín, José María Giménez, Álvaro Pereira, Maximiliano Pereira; Cristian Rodríguez (Sánchez, min. 63), Diego Rolán, Nicolás Lodeiro (Abel Hernández, min. 78), Álvaro González, Egidio Arévalo Ríos; e Edinson Cavani.

Gols: 1 x 0, min. 60, Kun Agüero.

Arbitro: O brasileiro Sandro Ricci, advertiu com cartão amarelo os argentinos Romero, Mascherano e Rojo, e expulsou a seu treinador, Gerardo Martino. Pelo Uruguai, mostrou o amarelo a Godín, Lodeiro e Álvaro Pereira.

Partida do grupo B da Copa América, disputada no estádio de La Portada, com pouco mais de 17.000 espectadores.

Não há registro de que a Argentina tivesse um treinador no clássico de 1916. Na época, quem escalava o time era o velho Juan Domingo Brown, capitão do Alumni. Em La Serena, seus sucessores evocavam os pioneiros. “Mais rápido!”, gritava Messi. Era esquisito ver esse homem introvertido interpretar o papel de capitão, mandando, orientando. Irritava-se com os colegas quando davam mais de dois toques, porque cada segundo era precioso para a furiosa zaga comandada por Arévalo. O que se viu foi uma partida vibrante, exaustiva, às vezes magnificamente bem jogada, e às vezes desagradável e truncada. Quase sempre emocionante.

Até o gol de Agüero, já na meia hora final de jogo, Messi não conseguiu gerar desequilíbrios sérios. Muslera salvou duas bolas sobre a linha. Depois Rolán teve a chance de empatar, mas sua cabeçada ricocheteou no pé de um argentino. O mesmo fez Abel Hernández, cujo chute a média distância por pouco não surpreendeu Romero.

A Argentina se impôs sofrendo até o último escanteio. E assim voltou a recordar que, irregularidades e falhas à parte, continua sendo a equipe que melhor jogou futebol até agora nesta Copa América. Prova disso são algumas trocas de passes memoráveis e a dupla caneta de Pastore, obra-prima de um clássico imortal.