Crise na Grécia

Draghi e FMI pedem que parceiros europeus façam concessões à Grécia

Após fracasso das negociações, gregos descartam a ideia de apresentar nova proposta

O primeiro-ministro grego, Tsipras, ao lado do ministro das Finanças, Varoufakis, no sábado, em Atenas.
O primeiro-ministro grego, Tsipras, ao lado do ministro das Finanças, Varoufakis, no sábado, em Atenas. (EFE)

Os parceiros do euro têm a Grécia na mira: apertam o cerco para que o primeiro-ministro Alexis Tsipras dê o braço a torcer esta semana. O BCE e o FMI exigem também reformas e cortes a Atenas, mas nesta segunda-feira, a parcos três dias de uma decisiva reunião do Eurogrupo (instância que reúne ministros de Finanças e outras autoridades da zona do euro), pediram mais complacência aos parceiros. O chefe do BCE, Mario Draghi, pediu no Parlamento Europeu concessões por parte dos parceiros europeus para evitar um calote de efeitos imprevisíveis. E o FMI se alinhou com uma das propostas mais controversas do ministro grego das Finanças, Yanis Varoufakis: ele reivindica uma reestruturação da dívida.

Tsipras: “São cinco anos de saque”

A Alemanha endureceu um pouco mais nesta segunda-feira o seu discurso sobre a Grécia. Mas Atenas também não ficou atrás: o primeiro-ministro Alexis Tsipras atribuiu o fracasso das negociações com os credores a fatores políticos, e não tanto a divergências sobre cifras. Apesar da crescente tensão, Tsipras não se conteve: “A insistência das instituições em novos cortes das pensões depois de cinco anos de saque por meio dos programas de resgates pode ser explicada por conveniências políticas”, denunciou. Seu Governo “esperará pacientemente” até que as instituições europeias “se alinhem ao realismo”, disse. “Não vamos enterrar a democracia europeia no lugar onde nasceu”, encerrou, desafiador.

A ladainha europeia já dura meses: a Grécia tem de dobrar os joelhos, seu Governo tem que esquecer-se das promessas eleitorais e precisa oferecer a seus credores reformas e cortes para ter acesso a mais ajuda financeira e evitar, assim, uma suspensão de pagamentos de consequências imprevisíveis. Se quer mais recursos, não tem outro remédio a não ser aplicar uma dose extra de medidas de austeridade ao país. O BCE e o FMI romperam nesta segunda-feira – em parte – esse discurso monolítico: a Grécia tem que aprovar outra rodada de medidas dolorosas, repetiram, mas os parceiros europeus também precisam fazer concessões a fim de conseguir um acordo político essencial para evitar um desastre.

Um eurodeputado do Podemos pergunta a Mario Draghi a respeito da situação da Grécia. "Qual era a pergunta?", responde o chefe do BCE.VÍDEO: ATLAS

O chefe do BCE, Mario Draghi, apresentou essa nova nuance em um discurso substancioso no Parlamento Europeu. A Grécia e os parceiros, disse, devem limar as asperezas para chegar a “um acordo político”: as discrepâncias já não são econômicas nem financeiras, mas pura e simplesmente políticas, reconheceu. “A bola está claramente no telhado da Grécia”, disse Draghi, que depois deixou a mensagem fundamental para os parceiros: “Todos os atores envolvidos têm de fazer concessões”. Não só a Grécia. A atmosfera das negociações continua esfriando. Atenas e a Comissão Europeia se meteram em uma amarga controvérsia sobre o que uns oferecem aos outros. O braço executivo da UE explicou que as metas fiscais estão praticamente definidas, com os objetivos menos exigentes, tendo em vista as dificuldades econômicas. Bruxelas garante que Atenas rejeita o acordo por apenas 2 bilhões de euros (7 bilhões de reais). Mas Atenas argumenta que a cifra é maior: o Executivo diz que os parceiros exigem um ajuste de pensões e aposentadorias de 1,8 bilhão de euros, e um aumento do IVA de 1,8 bilhão, além de novos cortes nos salários dos funcionários públicos. Um porta-voz da Comissão negou mais uma vez as informações procedentes de Atenas: afirmou que Bruxelas não pede cortes de pensões, mas o endurecimento na concessão antecipada de aposentadorias e o retardamento da idade de aposentadoria. E pediu à Grécia “um pacote substancial, que faça sentido econômico”. Mas Atenas qualifica a oferta europeia de “absurda”.

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O grau de complexidade da crise grega contribui para que o final da saga seja incerto. O FMI deixou a mesa de negociações há alguns dias: alegou que Atenas foi incapaz de apresentar uma proposta convincente, com reformas e cortes conscienciosos que permitam modernizar a economia. E o economista-chefe do FMI, Olivier Blanchard, pediu novamente nesta segunda-feira “medidas confiáveis” de ajuste. Mas, como Draghi, ao mesmo tempo se atreveu a dizer que o rei está nu: explicou que as metas menos ambiciosas de superávit fiscal primário obrigam os europeus a permitir uma reestruturação da dívida. Blanchard, por fim, reconheceu que Varoufakis tem razão: Atenas precisa de financiamento extra e “um alívio da dívida”, com prazos mais longos e juros mais baixos.

A Comissão afirmou que os credores “já fizeram grandes concessões”. Por sua vez, Atenas diz exatamente o mesmo. A tensão e o medo do calote foram nesta segunda-feira gasolina para os mercados, e assim será, com toda a probabilidade, até a reunião do Eurogrupo na quinta-feira. E até mais adiante, se no final os agoureiros tiverem razão e Atenas e seus parceiros forem incapazes de entrar em acordo.

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