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José Mujica: “A sobriedade é um luxo para poder ser livre”

Ex-presidente uruguaio defende que a globalização seja dirigida pela política

José Mujica, na sexta-feira em Madri.
José Mujica, na sexta-feira em Madri.Ballesteros (EFE)

“Nossos interesses nacionais nos mantêm tolhidos, nos dividem. Mas nós, latino-americanos, pertencemos a uma nação comum ainda não constituída e que está dividida em vários países”, afirmou o ex-presidente do Uruguai José Mujica na sexta-feira em Madri. Ele comemorou o fato de que, “pela primeira vez em 10 ou 15 anos os governantes da América Latina falam entre si”, mas os incentiva a avançar na integração. “O mundo não vai nos esperar.” O ex-presidente insistiu na importância de criar uma estrutura política capaz de dirigir a globalização, na qual agora “os mercados” mandam, e voltou a preconizar a austeridade como modo de vida: “A sobriedade é um luxo para poder ser livre”.

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Mais de 300 pessoas compareceram à Casa da América para escutar Mujica em um ato do qual também participaram o diretor da instituição, Tomás Poveda, e o reitor da Universidade Pontifícia de Comillas, Julio L. Martínez. Lotação esgotada. Diante delas, o ex-presidente uruguaio lamentou que a globalização careça de direção política, com Governos nacionais preocupados “com quem ganhará as próximas eleições”. “Não temos uma estrutura política para a civilização que fizemos surgir. Funciona de acordo com os interesses do mercado. É o problema mais dramático do nosso tempo”, afirmou. Por isso, depois de enumerar contradições como que haja cachorros na Europa “que comem melhor que cidadãos africanos”, ele instou o ser humano a pensar globalmente. “O homem pode levar a água ao Saara. Nunca teve tantos recursos na mão. Mas o homem não raciocina como espécie. Está raciocinando apenas com interesses nacionais, e isso no melhor dos casos.”

O desafio ao qual Mujica aludiu constitui um assunto político, e não há desculpas. “Não podemos nos amparar na falta de recursos em um mundo no qual gastamos dois milhões de dólares por minuto em orçamentos militares”, acrescentou. Na opinião do ex-presidente, é preciso enfrentar os problemas ecológicos e a pobreza de forma global. “Inventamos um comércio de coisas supérfluas para poder manter a economia. E não temos a coragem de aplicau um keynesianismo para os indigentes do mundo. A economia do mundo tem problemas de demanda, mas de coisas úteis: de casas, de escolas, de água, de medidas contra a desertificação... Não temos que andar inventando um telefone novo todos os meses para que multidões vivam pagando prestações.”

“[Na América Latina] pensávamos que a salvação viria da Europa. Mas nos equivocamos. Está enfurnada em sua digestão e em seus problemas, que não são pouca coisa”, afirmou Mujica. “Apareceu a China. Lenta, segura, sistemática. Pelo menos a parte da América Latina a que pertenço, o sul, não pode renunciar a comercializar com a China. Oferecemos à Europa, mas não vieram”, prosseguiu, antes de diagnosticar o problema da América Latina – “falta-lhe estatura”. Por isso, pediu ao papa Francisco, a quem considera um amigo –“e diz isso um homem que não acredita em Deus”– que dê uma mão na moleira dos governantes” para que construam a integração. “Tenho respeito político à Igreja Católica porque é um dos eixos da cultura latino-americana”, reconheceu. “Apesar de todos os pesares”, ressalvou.

Mujica fez um chamado pelo aprofundamento dos avanços tecnológicos. Mas fez também uma advertência: “Que o esforço técnico não esteja separado da moral. A ciência, sem ética que a conduza, não necessariamente é fator de progresso. Pode ser fator de exploração e submissão”.

O ex-presidente incentivou as pessoas a aprenderem a viver com o necessário. “Meu maior bem é a vida. As possibilidades de não estar vivo são enormes. A questão material não me complica. Já tenho 80 anos. [O dinheiro] não vale na mortalha”, afirmou. “É preciso ser como a maioria das pessoas, e não como a minoria. Para lá, eles [os que acumulam dinheiro]. Para mim o que interessa é que paguem impostos e não deem o calote. E se ganham mais, mais lhes vamos cobrar para dividir.”

Mujica, o homem “que quando jovem queria mudar o mundo”, mas agora se limita a “tentar consertar a vereda de seu país”, o dirigente que passou 15 anos na prisão, diz que se enganou. “Ser jovem tem muitas vantagens. Ser pujante, não ter câimbras nas pernas..., mas vê muito curto porque viveu pouco. Eu acreditava que a ajuda social simplesmente consertava o sistema. E eu queria mudá-lo. Mas são duas frentes de luta. É preciso mudar o mundo. Mas é preciso se comprometer com quem não tem o que comer".