Eleições EUA

Hillary Clinton apela às bases progressistas em sua campanha

A candidata democrata acentua discurso contras as desigualdades Desde 2014, ganhou mais de 90 milhões de reais com seu marido

Hillary Clinton, em uma visita de campanha a uma cafeteria de Keene (New Hampshire) em abril.
Hillary Clinton, em uma visita de campanha a uma cafeteria de Keene (New Hampshire) em abril.LUCAS JACKSON (REUTERS)

Hillary Clinton, buscando ampliar seu apoio entre as bases do Partido Democrata, começa a corrida à Casa Branca com uma mudança de eixo progressista. Clinton, uma das pessoas mais ricas entre os pretendentes ao cargo de Barack Obama, adota a retórica da ala populista de seu partido contra as desigualdades e se coloca à esquerda de Obama em imigração. Algumas propostas rompem com o centrismo de seu marido, o ex-presidente Bill Clinton.

Toda campanha com garantias de sucesso precisa, nos Estados Unidos, da mobilização dos eleitores mais convencidos. E esses, no Partido Democrata, são a base progressista, a que impulsionou o presidente Obama em 2008 e que tem receio de Clinton. Não são suficientes para ganhar as eleições —um presidenciável precisa apelar ao centro—, mas são necessários.

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Essa busca do voto progressista coincide com novas informações sobre seu status econômico. No segundo fim de semana de maio, os Clinton informaram ter ganhado mais de 30 milhões de dólares (90 milhões de reais) com suas palestras e com os rendimentos do último livro da também ex-senadora.

O perfil ideológico de Hillary Clinton nunca esteve definido. Em essência é, como seu marido, uma pragmática. Quando era primeira-dama, iniciou sem sucesso uma reforma progressista da área de saúde; dez anos depois, quando era senadora, aprovou a invasão do Iraque, um voto que a ala esquerda nunca perdoou e que contribuiu para sua derrota contra Obama nas eleições primárias de 2008.

Sua última reencarnação, após formalizar em abril sua candidatura às presidenciais de 2016, é de uma política mais progressista, alinhada com a facção mais influente no Partido Democrata, liderada pela senadora de Massachusetts Elizabeth Warren.

“Hillary Clinton não quer só ser presidenta; quer mudar os rumos do país”, foi defendida, em uma conversa em Washington, pelo Nobel de Economia Joseph Stiglitz, autor de um manifesto com propostas para acabar com as políticas de desregulação iniciadas nos anos oitenta com Ronald Reagan.

Stiglitz, que foi presidente do Conselho de Assessores Econômicos na Casa Branca de Bill Clinton, nos anos noventa, falou sobre essas propostas com a candidata. Diz que seu progressismo é crível. “É onde estava seu coração quando a conheci na primeira administração Clinton”.

Uma candidata com poucos rivais

SILVIA AYUSO, Washington

Por enquanto, Hillary Clinton não tem quem lhe faça sombra no Partido Democrata. No lado republicano, já existem mais de meia dúzia de pretendentes à candidatura presidencial, mas a ex-secretária de Estado faz campanha quase sem concorrência. Ainda que o senador por Vermont Bernie Sanders também tenha se candidatado, não é considerado um risco sério para Clinton.

Mas surgirão outros candidatos. O ex-governador de Maryland Martin O’Malley ainda precisa anunciar suas pretensões. O ex-senador de Virginia Jim Webb pode segui-lo. Nenhum é tão poderoso ou conhecido como Clinton, mas a ex-primeira-dama não baixa a guarda. Em 2008 também era a “candidata inevitável” e Barack Obama arrebatou a nominação de suas mãos.

Nas últimas semanas, Clinton atacou os multimilionários que pagam menos impostos que a classe trabalhadora. Ela propôs abrir as portas da cidadania norte-americana aos 11 milhões de imigrantes ilegais. E criticou um sistema judicial e policial que levou os EUA a quadruplicar em 35 anos a população carcerária.

A proposta de reforma judicial e policial é uma emenda às políticas de seu marido nesse âmbito, políticas que em grande parte ela compartilhou. O mesmo ocorre com seu discurso sobre as desigualdades, uma palavra que não estava no vocabulário dos democratas de Bill Clinton, amigo dos grandes bancos, e suas críticas a Wall Street.

É eloquente o silêncio de Clinton na batalha travada pela facção Warren do Partido Democrata no Congresso contra o democrata Obama pelos acordos para promover o livre comércio internacional. Clinton defendia tais acordos há alguns meses atrás; agora evita se pronunciar.

“Ela sabe que a base do partido quer que ela se mova para a esquerda”, diz em uma entrevista telefônica Roger Hickey, codiretor da Campanha pelo Futuro da América, um grupo colocado na ala esquerda do Partido Democrata. “Mas essa também é a maneira de ganhar votos não de ativistas, não de esquerdistas profissionais como Obama nos chama, mas de trabalhadores de Ohio ou da Pensilvânia que perderam seu emprego e veem como seu salário diminui”.

Warren, e não Hillary Clinton, é hoje a figura do Partido Democrata. Articula como ninguém uma mensagem compreensível sobre as desigualdades e a parada da subida social. Suas investidas contra Wall Street e sua defesa das políticas fiscais redistributivas são virais, mas ela resiste a concorrer à Casa Branca; acredita que pode influenciar mais do lado de fora do que de dentro.

Clinton abraça Warren. A candidata democrata a convidou a sua casa em Washington e escreveu na revista Time um artigo elogiando seu talento para manter os poderosos à margem: banqueiros, lobistas, funcionários de alto escalão e, acrescentou com ironia, “também os candidatos presidenciais”. “As cartas estão distribuídas a favor dos que estão em cima”, disse Clinton em um dos seus primeiros discursos de campanha, em Iowa. A frase é um eco de um dos bordões de Warren: “O jogo não é limpo”.

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