Coluna
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A pedra de Sísifo e os trabalhadores prejudicados

A semelhança entre os trabalhadores brasileiros e o castigo imposto pelos deuses a Sísifo

O mito grego da pedra do rei grego Sísifo, que Homero narra na Odisseia, me veio à memória neste momento de inquietude de milhões de trabalhadores brasileiros aos quais a crise econômica pode privar, mais do que a outros mais favorecidos, de seus direitos trabalhistas.

O rei Sísifo foi condenado pelos deuses a subir uma montanha empurrando uma pesada pedra. Quando chegava ao topo, a pedra escorregava de suas mãos e rolava de novo até o chão. E Sísifo devia carregá-la de volta montanha acima, repetidas vezes, até o infinito.

Uma das interpretações mais conhecidas do mito grego é a do escritor e filósofo francês Albert Camus, que afirma que “não existe castigo mais terrível que o do trabalho inútil e sem esperança”.

Os trabalhadores que dependem de um salário para viver e sustentar sua família, têm de fazer muitas contas para não cair nas garras do cheque especial ou dos juros estratosféricos do cartão de crédito, têm de fazer cada vez mais malabarismos para terminar o mês sem dívidas.

A classe trabalhadora brasileira suporta uma das maiores cargas tributárias do mundo e recebe muito menos do Estado em benefícios sociais que seus colegas dos países mais desenvolvidos.

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Esses trabalhadores que sempre encontravam trabalho e que hoje começam a temer o fantasma do desemprego são os menos escolarizados e profissionalizados, os primeiros a escorregar para o desemprego forçoso.

É essa sensação de inutilidade de que escrevia Camus que devem sentir milhões de trabalhadores brasileiros cada vez que veem cortados seus direitos, diminuir seu salário e aumentar os preços. Eles nos recordam o castigo que os deuses impuseram a Sísifo.

No Brasil, um país rico e de pessoas criativas, os trabalhadores sentem a angústia do personagem do mito grego de ter de fazer, todo mês, o esforço de subir a montanha com a pedra de seu trabalho até que, por fim, ela escorregue e se vejam outra vez de mãos vazias ou, o que é pior, sujas de dívidas.

Como recordou com ironia o professor de Políticas Públicas da Universidade de Harvard Felipe Campante em um simpósio da Fecomercio em São Paulo, não é verdade que os governos brasileiros são incompetentes. Pelo contrário, segundo ele, existe um campo em que o Brasil se mostra mais desenvolvido que a maioria dos governos do mundo: na arte de impor aos trabalhadores impostos diretos ou indiretos.

O Brasil figura, de fato, entre os países com maior carga tributária do planeta. Com 36,4%, a maior em 30 anos, os brasileiros são hoje os que pagam mais impostos entre os países da América Latina, segundo a OCDE, e estão entre os 14 países mais taxados do mundo.

É cruel que países como os Estados Unidos tenham uma carga tributária de 24,3% ; o Japão, de 28%; a Suíça, de 28%; o Canadá, de 30% e até o México, de 19,7% e o Chile, de 20,8%, e o Brasil ganhe de todos eles com seus 36,4%, que o governo ainda gostaria de aumentar.

Com a diferença de que nesses outros países o Estado oferece aos trabalhadores uma série de serviços públicos e sociais de primeira qualidade do berço até a morte. Pagam, mas recebem. Os brasileiros, pagam e recebem serviços que só os mais pobres usam. Disso resulta que uma família de classe média é mais sacrificada no Brasil que em outros países com impostos maiores.

Segundo o Índice de Arrecadação Tributária (IVAT), a carga fiscal brasileira cresceu 164,40% entre 2001 e 2010 e, desde então, não parou de aumentar. No primeiro governo Dilma, aumentou quase 2%.

Os especialistas calculam que um trabalhador brasileiro precisa trabalhar cinco meses para pagar impostos e outros cinco para pagar serviços públicos que deveriam estar a cargo do Estado, como transportes de qualidade, ensino ou saúde. O que sobra para viver?

E enquanto o Brasil é um dos países mais sobrecarregados de impostos, o PIB per capita contrasta com o de outros países.

Em uma lista do PIB de 80 países, o Brasil figura, segundo dados do FMI, entre os três últimos, com menos riqueza pessoal.

Enquanto o PIB brasileiro seria hoje, segundo a cotação do dólar, de pouco mais de 8.000 dólares, o dos Estados Unidos, por exemplo, é de 51.248, o do Canadá, 43.594, o da Alemanha, 39.993, o da França, 35.942 e o do Reino Unido, 51.248.

Até na América Latina, o PIB per capita brasileiro é menor que o do Chile (19.475) ou que o do México (15,932) e até menor que o da Venezuela (13.634)

Os números podem parecer frios, mas a realidade dos trabalhadores que sofrem uma das maiores cargas tributárias do mundo, que gozam de um PIB per capita menor e sofrem índices de violência que estão entre os maiores do planeta, constitui uma triste realidade.

Não se parecem esses trabalhadores brasileiros com o rei Sísifo, condenado pelos deuses ao trabalho duro e inútil de subir a montanha com uma pedra para, ao final de tanto esforço, ficar de mãos vazias?

Às vezes cruzo na rua com algum desses trabalhadores socialmente mais frágeis, que limpam o que ninguém quer limpar, erguem edifícios pendurados no vazio e na insegurança ou vigiam as noites tristes dos doentes amontoados nos hospitais públicos.

Minha tentação é pensar que estão realizando o castigo dos deuses imposto a Sísifo, mas prefiro ficar com a interpretação do mito grego que fazia Camus, quando escrevia que devemos, apesar de tudo, fazer um esforço para conseguir “ver Sísifo feliz”, às voltas com sua pedra montanha acima.

Esses trabalhadores cujos direitos o poder tem a tentação de morer quando aumentam as crises, são, como dizia o escritor francês, “donos de seu destino”, orgulhosos do que fazem por vocação ou necessidade.

Sem eles, o mundo, a começar pelo dos privilegiados cuja pedra outros levam montanha acima, seria um deserto ou um inferno.

Eles não merecem ser as cinderelas da crise, os sacrificados, mas sim os mais bem cuidados e protegidos.

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