Espionagem Internacional

Oposição alemã ameaça ir à Justiça por escândalo de espionagem

Os partidos A Esquerda e Verdes exigem que o Governo de Merkel entregue informações

Merkel, junto ao ministro de Chancelaria, Peter Altmaier, em uma conferência em novembro de 2014.
Merkel, junto ao ministro de Chancelaria, Peter Altmaier, em uma conferência em novembro de 2014.WOLFGANG KUMM (EFE)

A revelação de que as agências de inteligência norte-americana e alemã cooperaram em assuntos de espionagem está prestes a se transformar em uma grave questão de Estado na Alemanha, com potencial para abrir uma crise sem precedentes na história política do país. Martine Renner e Konstantin von Notz, líderes dos partidos A Esquerda e Verdes na CPI que apura o caso, ameaçaram no domingo mover uma ação judicial contra o Governo se não receberem uma lista completa dos chamados seletores, uma ferramenta informática criada pela Agência de Segurança Nacional (NSA) dos EUA e compartilhada com o Serviço Federal de Inteligência (BND) para espionar políticos e empresas da Europa, além de Governos aliados, como os da França e Áustria.

“Se não tivermos acesso à lista vamos proceder legalmente”, afirmou Von Notz ao jornal Welt am Sonntag. “A senhora Merkel deve demonstrar se está disposta a informar ou a continuar acobertando”, acrescentou ele. Renner, do A Esquerda, afirmou que há na CPI a certeza de que o Governo mentiu propositalmente ao entregar informações falsas.

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O escândalo de espionagem estourou na quinta-feira, quando o site da revista Der Spiegel revelou que a NSA havia realizado durante anos um bem-sucedido trabalho de vigilância e espionagem na Europa graças à ajuda de seus colegas alemães do BND. A parceria na espionagem, que agora ameaça a estabilidade política da nação e mantém a chefia de Governo em estado de alerta permanente, começou há cerca de dez anos, quando os técnicos da NSA entregaram a seus colegas do BND os chamados seletores, que permitem espionar números de celulares, endereços IP de conexões à Internet e contas de e-mail.

Desde que a Der Spiegel fez as primeiras revelações, a imprensa alemã vem descobrindo, dia após dia, novas facetas da espionagem feita conjuntamente pela NSA e o BND. Um dos desdobramentos mais graves foi o de que a espionagem tinha como alvos também funcionários da presidência e do ministério de Relações Exteriores da França, a Comissão Europeia, o Governo austríaco e empresas europeias emblemáticas, como a Airbus.

A informação, publicada pelo jornal Süddeutsche Zeitung e pelas redes de televisão, NDR e WDR, sacudiu a política do país mais rico da Europa e obrigou o Governo à incômoda necessidade de dar explicações —o que ainda não aconteceu.

A imprensa alemã também descobriu que o atual ministro do Interior, Thomas de Maizière, mentiu ao Parlamento sobre o caso —uma revelação que levou o temido tabloide Bild a colocar um nariz de Pinóquio sobre uma foto do ministro. O Bild, jornal mais lido da Alemanha, também descobriu que o BND armazenara para seu uso interno as informações obtidas graças aos seletores, e que a NSA também havia espionado as comunicações de um alto funcionário da Chancelaria (chefia do Governo).

O escândalo adquiriu uma grave dimensão política quando se soube que a Chancelaria fora informada em 2010 da espionagem exercida conjuntamente pela NSA e pelo BND contra grandes firmas europeias e alemãs. Não está claro, inclusive, se a chanceler (primeira-ministra) Angela Merkel foi informada da espionagem. “Seria surpreendente se Merkel não estivesse a par das operações, mas seria ainda pior se não tivesse sido informada”, observou a Der Spiegel.

O semanário publicou uma longa reportagem sobre o escândalo e escreveu em sua capa a palavra “traição” para definir a dimensão que o caso está adquirindo no país. “O BND e o Governo federal contra os interesses alemães. O mais recente escândalo de espionagem provoca a maior crise no BND e afeta também o centro do poder: Angela Merkel e a Chancelaria”, diz a revista, sugerindo que o escândalo pode provocar a primeira grande fissura nos alicerces de poder da chanceler. “Seria um momento crucial para ela”, afirma a revista.

As revelações jornalísticas convenceram os executivos da Airbus a abrirem um processo, e a procuradoria geral alemã anunciou que está estudando a possibilidade de iniciar uma investigação formal para determinar se o BND violou as leis ao colaborar com a NSA e se o serviço de inteligência alemão cometeu um delito ao apagar 12.000 capturas de dados que continham informações sobre altos funcionários franceses, conforme revelou a Der Spiegel em sua última edição.

A lista era explosiva, e quando o funcionário que a descobriu, em setembro de 2013, pediu instruções a seus superiores sobre o que fazer com ela recebeu uma resposta categórica: “Apague-a”.