refugiados na europa

Chegada de imigrantes irregulares à Europa triplica em 2015

Fluxo alcançou a marca de 57.300 pessoas no primeiro trimestre deste ano

Grupo de imigrantes na sexta-feira em Lampedusa.
Grupo de imigrantes na sexta-feira em Lampedusa.Francesco Malavolta (AP)

A recente onda de imigração irregular demonstra que a Europa enfrenta um desafio sem precedentes. Quase 57.3000 imigrantes irregulares chegaram à Europa no primeiro trimestre de 2015. Esse número representa praticamente o triplo do mesmo período de 2014, ano em que foram quebrados todos os recordes, inclusive os atingidos durante as primaveras árabes. Os números frios da agência europeia de controle de fronteiras externas (Frontex), aos quais este jornal teve acesso, confirmam que a UE enfrenta um emaranhado de problemas entrelaçados: a onda de conflitos no Oriente Médio (em especial o caos na Líbia), a pressão demográfica na África, a crescente capacidade da indústria dos traficantes de pessoas, a emigração econômica procedente dos Balcãs e as próprias dificuldades da UE para administrar de forma homogênea suas fronteiras se sobrepõem para gerar números de pesadelo.

Por trás de cada um desses números há uma história pessoal que desmente o rótulo banal dos chamados sem papeis: um refugiado sírio, uma família foragida da guerra no Iraque; um jovem do Chade que atravessa o chamado vale das gazelas até chegar à Líbia com a intenção de encontrar um bilhete para o continente rico, onde estejam mais próximos das oportunidades que não têm em seu país. Mas bastam os dados para se ter uma ideia das consequências desse fenômeno: 32.400 pessoas (na maioria do Kosovo) entraram na UE pelos Balcãs até o momento neste ano, frente a menos de 1.000 no ano passado. Pelo Mediterrâneo Central —Itália, basciamente— ingressaram mais 10.200, e isso sem contar os 10.000 adicionais resgatados em alto mar nos últimos seis dias, segundo a Organização Internacional para as Migrações (OIM). Pela rota do Mediterrâneo oriental –as ilhas gregas e a Bulgária— penetraram 13.500 pessoas, quase o triplo do período de janeiro a março de 2014, e, pela Espanha, outros 1.200. Totalizam quase 57.300 pessoas, segundo os dados da Frontex; no primeiro trimestre de 2014 eram praticamente um terço, 22.500.

As fontes consultadas na Frontex afirmam que os números dispararam com o tempo bom no Mediterrâneo –como já se viu nas primeiras semanas de abril; como já aconteceu em 2014— e apontam para “aumentos importantes que vão gerar, sem dúvida nenhuma, um acúmulo de situações preocupantes” para o conjunto do ano.

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Cada vez que os ministros se reúnem em Bruxelas e cada vez que a televisão registra uma tragédia se repete o discurso de que a Europa vai reforçar a agência que protege as fronteiras; mas a Frontex não é uma agência de salvamento e resgate, e sim uma instituição que vela pela segurança da Europa. “Na prática não existem recursos e pessoal suficientes, e a disponibilidade dos Estados membros para ceder meios –barcos e aviões de salvamento— é limitada ou muito limitada”, afirma o diretor-adjunto da Frontex Gil Arias. “Sobram críticas e boas intenções por parte dos Estados membros; falta vontade política e recursos”, acrescentam fontes diplomáticas.

No ano passado, mais de 3.200 homens, mulheres e crianças perderam a vida ao tentar cruzar o Mediterrâneo para a Europa. Essas mortes não reduziram a maré humana que foge da violência dos países em conflito, ou da falta de oportunidades na África subsaariana. A Europa continua empenhada em encarar um problema humanitário –em grande parte uma crise de refugiados, salvo nos Balcãs— com uma resposta meramente policial. Sem ambição para deter essa sangria na origem, os tampões que Síria e Líbia representavam até agora foram pelos ares e deixam um panorama carregado de incertezas.

“Os fluxos migratórios para a Europa não vão deixar de aumentar as péssimas situações na origem, do Iraque e Síria ao Chifre da África”, diz Giovanni Grevi, diretor do centro de estudos FRIDE. “Deter os barcos de imigrantes não acaba com o problema e provocará enormes custos humanitários. A Europa deveria unir forças com uma política externa e de segurança robusta em um momento crítico para a coesão europeia”, acrescenta.

Os avanços, onde há, são tímidos. E as ameaças se multiplicam. A ascensão de partidos contra a imigração se espalha pela Europa rica (Reino Unido, França e Alemanha) e, inclusive, na periferia. A Bulgária pretende construir um muro de mais de 150 quilômetros de extensão para conter a imigração procedente da Turquia. Berlim e Londres estudam medidas para mitigar o chamado turismo de bem-estar, apesar de não existirem dados que respaldem que a imigração abusa dos serviços sociais. E assim ad infinitum.

A Europa enfrenta pressões ligadas aos conflitos na vizinhança do sul. Os sócios abordam o problema com uma dupla vertente, nenhuma delas muito bem-sucedida. A primeira, um maior controle das fronteiras. Quando ocorrem tragédias como a de Lampedusa, todos os países (especialmente a Itália) se voltam para a Frontex cobrando medidas para frear os naufrágios. Mas a Frontex quase não tem ativos e se nutre basicamente do que é aportado pelos Estados.

Os líderes políticos custam a fornecer mais meios; em muitos casos, porque acreditam que a existência de barcos que na prática vão salvar vidas provoca um efeito chamativo nas máfias e nos próprios imigrantes, o que eleva a magnitude do problema. Em outros –os países nórdicos e a Alemanha— porque consideram que já sofrem sua própria pressão ao receberem mais pedidos de asilo.

A segunda via é uma mudança na política migratória do bloco comunitário. Bruxelas pretende ampliar os canais legais para se entrar no continente: acredita que isso vai dissuadir muitos a adotar a via desesperada de se lançar ao mar em busca da costa europeia. Também porque, a longo prazo, os problemas demográficos da Europa farão com que precise de trabalhadores. Mas, com a crise ainda cicatrizando, as capitais não querem nem ouvir falar disso.