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Maduro, deslocado

O chavismo muda dos EUA para a Espanha em sua busca por um inimigo exterior da Venezuela

A aproximação entre Washington e Havana, que aconteceu na Cúpula das Américas, deixou completamente deslocado o presidente venezuelano, Nicolás Maduro, cujo discurso populista precisa de um inimigo externo que justifique e oculte os problemas internos. Por isso, a grave crise diplomática aberta entre Venezuela e Espanha, com grande carga agressiva por parte do regime chavista, apresenta importantes diferenças em relação a situações anteriores.

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Ao contrário do que sustenta o mandatário venezuelano, o Parlamento espanhol não aprovou nenhuma resolução contra seu país. O que fez foi se unir ao coro de reputadas vozes internacionais que pedem a libertação dos presos políticos na Venezuela, indispensável para sair da profunda crise em que se encontra. O Parlamento não se imiscuiu na soberania venezuelana.

Maduro reagiu em duas frentes: por um lado, o insulto pessoal contra o chefe de Governo espanhol, Mariano Rajoy, assim como contra a instituição do Congresso, inaceitável em um marco internacional civilizado, e a ameaça de castigar os interesses espanhóis na Venezuela sob o eufemismo de “revisar exaustivamente” as relações com a Espanha. Além disso, o ex-presidente Felipe González foi difamado pelo presidente do Parlamento venezuelano, Diosdado Cabello. Desde modo, Rajoy, González e o Parlamento espanhol ocuparam neste momento o posto de Bush, Obama e o Congresso dos EUA na retórica oficialista bolivariana.

A linguagem de Maduro não é nova. Seguindo o caminho de Hugo Chávez, as expressões “racista” e “conspirador”, entre outras, abundam em ataques. O que mudou é que – ao contrário do que acontecia há poucas semanas – não aplica mais essa linguagem contra os EUA. A reação espanhola se ajustou ao manual das relações diplomáticas. O protesto verbal feito ao embaixador venezuelano em Madri não é uma resposta com o objetivo de aumentar a tensão. Ao contrário. As relações com a Venezuela são importantes, mas isso não quer dizer ignorar que importantes líderes opositores venezuelanos estejam presos de forma arbitrária. Como afirmou muitas vezes o jornalista Teodoro Petkoff – que ganhou ontem o Prêmio Ortega y Gasset – são presos “sem sentido e sem justificativa”. E o Congresso espanhol acertou ao denunciar isso.

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