Música

A festa de Diogo Nogueira

O mais badalado sambista de hoje é fiel ao legado do pai, João Nogueira, mas vai além

Nogueira, em sua estreia no teatro musical.
Nogueira, em sua estreia no teatro musical.Lilo Clareto

Ser comparado com João Nogueira? “Baita privilégio”, responde Diogo Nogueira, filho de um dos grandes ícones da música brasileira, entre risos mansos e uma atitude ligeira porém suave, como só um sambista sabe ter. Afinal, o tempo do samba é diferente do comum, mais lento e acolhedor, assim como o jovem Nogueira, o mais badalado representante da atual geração.

Em cartaz em São Paulo com o musical SamBra, que presta homenagem aos 100 anos que o gênero completa em 2016, Diogo, 33, deixou a carreira de futebolista profissional para abraçar o legado musical da família como quem sai na chuva para se molhar. “O samba na minha vida foi muito natural. Meu pai fazia muita festa...”, ele conta, enumerando memórias.

Hoje, com quase dez anos de estrada musical, ele tem cinco álbuns solo, quatro estatuetas do Grammy Latino, um lugar à frente do programa Samba na Gamboa, da TV Brasil, e é tetracampeão no carnaval carioca junto com a Portela, onde alcançou um feito que o pai não tem – emplacar sambas-enredo que balançaram a avenida. Seus próximos passos incluem um novo CD que será lançado em abril, uma turnê europeia e encontrar espaço na agenda para continuar com o SamBra.

Diogo Nogueira canta 'Aquarela do Brasil' em 'SamBra'.
Diogo Nogueira canta 'Aquarela do Brasil' em 'SamBra'.Lilo Clareto

Pergunta. O samba, como você canta no tema de divulgação do musical, é “a música mais popular brasileira”. Mas a sensação é que se escuta menos samba no Brasil hoje do que já se escutou. Você concorda?

Resposta. Na verdade, escuta-se muito samba, em todos os lugares do país. Só que agora aumentou a quantidade de mídias. Até no telefone tem música... Então todos os ritmos aparecem – o sertanejo, o rock –, mas o samba está sempre ali. Ele “agoniza, mas não morre”. Por isso, falamos de um espetáculo sobre um gênero que representa o Brasil e o povo brasileiro, gostando ou não (risos). É uma história tão viva, bonita e interessante, que acho que ela vai viver pra sempre no coração de cada um.

P. Você traz samba no coração e no sangue de longa data.

R. Meu avô foi músico e meu pai recebeu essa herança... A coisa com o samba na minha vida foi muito natural. Eu queria ser jogador de futebol, mas aí tive uma lesão no joelho e parei de jogar. Fui mandado embora [de um clube na categoria de base de Porto Alegre]. Aí fiquei um tempão sem sair, sem fazer nada. E quando eu resolvi sair pras rodas de samba pra me divertir, a coisa foi acontecendo. Comecei a receber convites e hoje estou aqui.

P. Qual é sua primeira memória de samba em casa?

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R. Eu tenho várias. Meu pai fazia muita festa, e as festas duravam bastante tempo. Eram dois dias. Lembro da minha avó cantarolando, do meu pai colocando aqueles bolachões, aqueles vinis. Nelson Gonçalves, Dorival Cayimmi, Cauby Peixoto, Elizeth Cardoso... Essas coisas estão guardadas na gaveta da minha memória e do meu coração.

P. Você foi tetracampeão com a Portela, compondo sambas-enredo. Compor pra uma escola de samba é muito diferente de fazer um samba comum?

R. Bastante. Porque você recebe uma sinopse, tem outros parceiros e uma linha pra seguir. Você tem que fazer exatamente o que o carnavalesco descreve ali, o que ele quer e imagina. É diferente de fazer um samba de mediano. Você pode estar aqui e ver aquela luz e fazer um samba sobre ela e o que está acontecendo ao redor. É mais solto. Lá não, você tem um direcionamento.

P. A seu ver, a música de carnaval é uma arte viva no país ou as coisas mudaram?

R. Mudou. Antigamente, o compositor tinha o seu valor. Ele era o cara da escola de samba. De uns tempos pra cá, na verdade, ele não vale nada. Vamos dizer: ele vale 30% do que deveria. Não é nem “valer”, é o respeito mesmo. Hoje em dia, não tem mais isso.

P. Sua carreira é muito diversificada, mas o momento ainda é de estreia, com essa primeira vez que você atua em um musical. O que isso acrescenta ao seu trabalho?

R. Acrescenta em tudo pra mim. A coisa de atuar, de estar com pessoas do mundo do teatro, fez com que eu aprendesse bastante. O sistema dos ensaios é diferente dos shows musicais.

P. Em 2012, você gravou um álbum em Cuba [Diogo Nogueira Ao Vivo em Cuba] que não inclui só samba.

R. Sim, tem uma mistura de ritmos, afinal a música brasileira e a latina guardam muitas relações. São dançantes, têm ritmo alegre.... Fiz uma integração com os Los Van Van, um grupo cubano que representa o país no mundo inteiro. Recebemos um convite para fazer um espetáculo lá em Havana e resolvemos preparar um show com clássicos da música brasileira com essa pitada da salsa. Foi muito bacana. Gravamos um filme sobre a viagem, o DOC.SHOW, com lugares que eu visitei, como a escola de cinema de Cuba, uma santería, que parece com o candomblé daqui...

P. Imagino que sejam frequentes as comparações entre você e seu pai e o legado dele no samba. Como você se sente com isso?

R. Ser comparado com João Nogueira? Baita privilégio (risos).