Manifestação contra o governo

Para ‘sangrar’ PT, PSDB oficializa seu apoio às manifestações antigoverno

Sigla se diz contra 'impeachment', mas que militância sairá às ruas domingo. Aécio não vai

O senador Aécio Neves, no plenário.
O senador Aécio Neves, no plenário. Moreira Mariz (Agência Senado)

O que parecia uma manifestação espontânea de uma parcela da população insatisfeita com o resultado das últimas eleições e com a condução do Governo Dilma Rousseff, ganhou nesta quarta-feira um apoio institucional. Em uma estratégia declarada para “sangrar” o já desgastado PT, a executiva nacional do PSDB divulgou pela manhã uma nota em que confirmou a participação do partido, por meio de sua militância e lideranças, no ato antigoverno marcado para o próximo domingo, dia 15, em diversas cidades brasileiras.

“O PSDB se solidariza com as manifestações de indignação dos brasileiros diante da flagrante degradação moral e do desastre econômico-social promovido pelo Governo Dilma Rousseff”, registra a nota, que ressaltou que o movimento é apartidário e “surge do mais legítimo sentimento de indignação da sociedade brasileira”.

Em entrevista à imprensa na sede da executiva nacional do partido nesta quarta de manhã, o senador Aécio Neves, que concorreu contra Rousseff nas eleições de outubro, também atacou o Governo. “Enquanto Dilma não vier a público fazer um mea-culpa pelo descalabro moral de seu Governo estará se distanciando ainda mais do sentimento dos brasileiros”, afirmou ele, que também é presidente nacional da sigla e assinou a nota. Ele ressaltou, entretanto, que o partido não apoia o pedido de impeachment da presidenta, algo que vai ecoar com força na manifestação nacional, e também disse que não irá ao ato para não "dar força ao discurso de terceiro turno no Brasil", em referência aos argumentos usados por Rousseff para explicar as manifestações contrárias a ela.

Dubiedade

Os tucanos evitavam declarar oficialmente a adesão ao protesto, já que uma boa parte deles não concorda com o discurso de impeachment que ronda os atos. Para eles, o Governo tem que "sangrar" para desgastar o PT, que está no poder desde 2003. A adesão do PSDB acontece no momento em que a crise de popularidade de Rousseff se torna ainda mais aguda. No último domingo, ela enfrentou um panelaço vindo de apartamentos de bairros de classe média enquanto se pronunciava na televisão e, na terça-feira, foi vaiada em um evento em São Paulo. 

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Os tucanos aproveitam a fragilidade do Governo, atordoado por problemas econômicos, de articulação política e imerso em uma crise de corrupção sem precedentes, para aumentar seu capital político para as próximas eleições, já em 2016. O partido decidiu realizar no próximo mês uma ampla campanha de filiação partidária para tentar, com a crise, transformar os descontentes com o Governo em militantes e, assim, ampliar sua base social que nunca teve muita força nas ruas. “O partido que perde sua conexão com a sociedade deixa de ser um partido político e passa a ser uma legenda. Esse tipo de ação é muito bem-vinda e deve ser permanente dentro do PSDB. Esse é o ano em que a gente deve fazer a formação de novos quadros para quem serão nossos candidatos a vereador e prefeito no ano que vem”, explicou ao EL PAÍS o deputado Bruno Covas.

Na outra ponta, o PT, por sua vez, se aproveita de sua base social para tentar evitar que o desgaste do Governo aumente. A Central Única dos Trabalhadores (CUT), ligada ao partido governista, fará uma manifestação nacional na próxima sexta-feira, dia 13, em defesa da Petrobras. O argumento do sindicato é que há em curso uma estratégia para desvalorizar a estatal e, com isso, privatizá-la. É o mesmo argumento usado pelos petistas. A organização também começa uma jornada de mobilizações, em que defenderá a reforma política, por meio de uma Constituinte, outra bandeira do PT.

No último sábado, a CUT se reuniu com diversos movimentos de esquerda, entre eles o Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST), o Movimento dos Sem-Terra (MST) e a União Nacional dos Estudantes (UNE), para discutir uma plataforma política comum que vai ser mostrada para a sociedade em forma de atos a partir de abril. Apesar de saírem em defesa do Governo, as entidades também prometem abordar temas espinhosos para Rousseff, entre eles o ajuste fiscal, carimbado pelos movimentos como uma política “neoliberal”. Para petistas, um dos maiores desafios do partido, neste momento, é realizar a série de medidas necessárias para equilibrar a economia, que preveem cortes em direitos trabalhistas, e ainda assim manter o apoio de sua base social. Parte da legenda, inclusive, teme que as ações dos movimentos sociais traga mais desgaste ao Governo.

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