feminismo

As mulheres se fazem ouvir no Vaticano

Grupo de católicas acusa Igreja de lhes ter oferecido “sobras ideológicas” durante séculos

O papa em sua chegada à audiência desta quarta-feira.
O papa em sua chegada à audiência desta quarta-feira.tony gentile (reuters)

Quatro meses apenas depois de ser eleito Papa, durante aquele voo de regresso do Rio de Janeiro em que disse que ele não era ninguém que pudesse julgar os gays, Jorge Mario Bergoglio também deixou claro que a porta do sacerdócio de mulheres foi fechada definitivamente por João Paulo II, mas acrescentou: “Porém, no tocante à participação das mulheres na Igreja, não podemos nos limitar às mulheres coroinhas, à presidenta da Cáritas, à catequista... É preciso fazer uma profunda teologia da mulher.”

À espera de a citada teologia ser formulada — as coisas “do palácio” continuam a avançar muito devagar —, o próprio Papa Francisco e alguns setores do Vaticano procuram dar passos nesse sentido. O mais recente – não isento da polêmica que parece ser inerente a cada sinal de abertura — consiste na celebração em Roma, nestes dias, de jornadas organizadas pelo Pontifício Conselho da Cultura e que visam incentivar a Igreja a levar em conta a opinião das mulheres sobre temas tão diversos (e que lhes dizem tanto respeito) quando a violência de gênero, os casamentos forçados, a cirurgia estética e também a parca presença de mulheres na organização eclesial.

MAIS INFORMAÇÕES

Embora ocorram a portas fechadas, os debates partem de um documento — este, sim, público — redigido por quatro profissionais italianas prestigiosas, em linguagem direta e forte, em se tratando de algo da Igreja. Por exemplo, o texto provisório acusa a Igreja de há séculos oferecer às mulheres apenas “sobras ideológicas e ancestrais” e descreve a cirurgia estética como uma “burca de carne”, na medida em que seria uma agressão ao corpo feminino.

Até o organizador dos encontros, o cardeal Gianfranco Ravasi, presidente do Pontifício Conselho da Cultura, admite que alguns parágrafos do texto são “demasiado avançados, não suportáveis pela comunidade eclesial”. Mas as redatoras – entre as quais se destacam Anna Maria Tarantola, presidenta da RAI (a televisão pública italiana), e a atriz de comédias Nancy Brilli – estão convencidas de que essa linguagem ajudará a dar visibilidade às suas propostas. A primeira destas é que bispos e cardeais, quando decidam tratar de algum assunto relacionado às mulheres, ouçam primeiramente as próprias mulheres.

Não se trata de mais que secundar as palavras de Francisco — “as mulheres veem as coisas de modo diferente e formulam perguntas diferentes, mais profundas” —, incluindo seu modo de agir: no último sínodo da família, celebrado em outubro, a primeira intervenção de cada sessão ficava a cargo de casais. Alguns clérigos estranharam, mas o que é verdadeiramente estranho é um mundo feito apenas de homens. Assim, nos próximos dias personagens tão importantes da Cúria quanto Gerhard Ludwig Müller, prefeito da Doutrina da Fé, e Marc Ouellet, prefeito dos Bispos, terão que ouvir ao vivo e diretamente o que pensam as mulheres de sua relação com a Igreja.