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Al Azhar convoca a “crucificar” os membros do Estado Islâmico

Grão-imã Ahmed al Tayeb qualifica milícia jihadista de “satânica”

O grão-imã Ahmed al-Tayeb saúda François Hollande, em um ato protocolar em Riad, em 24 de janeiro.
O grão-imã Ahmed al-Tayeb saúda François Hollande, em um ato protocolar em Riad, em 24 de janeiro. AFP

A Universidade Al Azhar, uma das mais influentes instituições teológicas do islamismo sunita, elevou o tom de sua condenação ao autodenominado Estado Islâmico horas depois de ter sido difundido um vídeo que mostra o brutal assassinato na Síria do piloto jordaniano Muath al-Kassasbeh. Em um comunicado, o grã-imã da Azhar, Ahmed al Tayeb, qualifica a milícia jihadista de “satânica” e faz um chamado para a execução de seus membros.

“O Corão ordena que quem perpetrou esse ato covarde, que vai contra a palavra de Deus, merece ser morto, ou crucificado, ou que lhes sejam amputados os braços e as pernas”, reza o texto, em referência ao fato de que o piloto jordaniano – capturado havia várias semanas, depois que seu avião foi abatido – tinha sido queimado vivo diante de uma câmera. Na mensagem Al Tayeb insta a comunidade internacional a lutar contra o Estado Islâmico, ao qual descreve como “satânico e selvagem”, e esclarece que o grupo viola com seus atos os ensinamentos do Islã e seu profeta, Maomé. No final do texto, o imã expressa condolências ao rei da Jordânia, Abdullah II.

Um dia depois do assassinato, que comoveu a sociedade jordaniana, numerosos clérigos muçulmanos do mundo inteiro condenaram a ação, e negaram qualquer tipo de credencial ao Estado Islâmico, grupo jihadista que controla uma ampla faixa de território na Síria e Iraque. O presidente egípcio, Abdel Fatah al-Sisi, também condenou o homicídio e descreveu o Estado Islâmico como uma “organização selvagem e covarde que viola todas as doutrinas divinas”.

Embora a Al Azhar, que se vangloria de patrocinar uma interpretação moderada do islamismo, tenha censurado sem rodeios o Estado Islâmico e outros grupos jihadistas em numerosas ocasiões, suas palavras nunca contiveram antes uma carga tão violenta. “Suas palavras estão claramente dirigidas a uma audiência muçulmana. O efeito na Europa será bastante diferente”, opina Nathan Brown, professor da Universidade George Washington, que escreveu vários ensaios sobre a Al Azhar. “A lei islâmica inclui a pena capital para vários tipos de ofensas. Não conheço quais os casos em que fala de crucificação, mas sei que é um dos métodos que têm uma base religiosa. Em todo o caso, nunca ouvi falar que tenha sido aplicada em tempos modernos”, acrescenta.

Até o momento, as condenações do Estado Islâmico por parte da Al Azhar e outras instituições islâmicas oficiais não parecem ter diminuído a capacidade desse grupo de recrutar jovens para sua causa. De concreto, a própria Universidade Al Azhar realizou em dezembro uma conferência internacional à qual compareceram mais de 600 clérigos de todo o mundo, destinada a combater a ideologia jihadista no âmbito teológico. Segundo alguns analistas, o fato de que as autoridades religiosas oficiais de muitos países muçulmanos mantenham uma estreita relação com os governos locais, com frequência tirânicos e corruptos, limita sua capacidade de influenciar os corações e as mentes da juventude muçulmana.

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