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Raúl sai da sombra de Fidel

O acordo com os Estados Unidos consolida o perfil próprio do irmão mais novo, que reafirma o apego ao modelo socialista e suas tímidas reformas

O presidente de Cuba, Raúl Castro, em Havana.
O presidente de Cuba, Raúl Castro, em Havana. EFE

Nem uma linha no Granma, nem uma foto sua na televisão. Três dias depois de o presidente Raúl Castro anunciar aos cubanos o restabelecimento das relações diplomáticas com os Estados Unidos, Fidel Castro ainda não havia dito uma palavra – por escrito ou pessoalmente – sobre o acordo alcançado com Washington para superar mais de meio século de distanciamento e hostilidades. Neste episódio da história, Raúl é o protagonista. E assim o aceitam os cubanos, sem maiores dramas.

O atual líder cubano voltou a ficar em primeiro plano neste sábado com seu discurso no encerramento sessões da Assembleia Nacional, em que advertiu que “a luta” para alcançar a suspensão do embargo de Washington será “longa e difícil”, mas que confia que seja possível “abrir uma nova etapa entre os Estados Unidos e Cuba”. Raúl Castro agradeceu novamente a vontade do presidente Barack Obama de normalizar os vínculos com Cuba, mas ao mesmo tempo criticou a decisão do Congresso americano de impor sanções à Venezuela por causa da repressão aos protestos naquele país em fevereiro passado e pediu respeito ao sistema político da ilha.

“Assim como respeitamos o sistema político dos Estados Unidos, exigimos respeito ao nosso”, disse Castro, que defendeu o plano de reformas econômicas empreendidas na ilha para “atualizar” seu modelo socialista e assinalou que é “necessário compreender” que o povo cubano decidiu “em livre referendo” fixar na Constituição seu “rumo socialista”. “Não se deve pretender que, para melhorar as relações com os Estados Unidos, Cuba renuncie às ideias pelas quais lutou durante mais de um século”, disse. Aplaudido por seus correligionários, concluiu o discurso com vivas a um Fidel ausente como nunca antes do debate público.

Ainda afastado da vida pública, a palavra de Fidel Castro nunca tinha faltado em forma de memórias ou artigos, onde costumava referir-se a temas tão diversos como a possibilidade de uma guerra na Coreia ou a expansão do universo. “Às vezes saía na imprensa pelo menos um comentário do comandante. Mas por esses dias, nada”, comenta Rodolfo, enquanto conserta o motor Nissan embutido em seu velho Chevrolet. A última dessas notas apareceu no jornal Granma em 22 de fevereiro, quando o presidente chinês XI Jinping visitou Havana. Naquele mesmo dia, a imprensa oficial divulgou uma imagem da reunião com o presidente Xi, onde aparece de pé, com o olhar perdido, segurando com a mão direita o pulso esquerdo do presidente chinês. Essa é a fotografia mais recente que o Governo cubano mostrou dele, que foi visto em público pela última vez em 8 de janeiro, na inauguração de uma exposição de arte em Havana.

Quando Raúl Castro assumiu o poder em 2006, a dúvida era se ele seria capaz de encarar as reformas de que o Estado cubano precisava enquanto seu irmão Fidel vivesse. Em abril de 2011, a plenária do Partido Comunista definiu as linhas sobre as quais se fomentaria um novo modelo de gestão econômica, política externa e investimento, para reestruturar um Estado ineficiente, limitado pela crise financeira e pelas demandas sociais . Algumas mudanças ocorreram lentamente desde então, que ainda não transformaram as velhas estruturas, mas têm tornado mais suportável – e caro – o cotidiano dos cubanos: agora podem trabalhar por conta própria em setores designados pelo Estado, viajar ao exterior com prévia autorização governamental, comprar e vender automóveis, e alugar imóveis através de empresas autorizadas pelo Estado. E o grande marco de sua gestão é ter acordado na noite de terça-feira, durante uma conversa telefônica com Obama e após um ano e meio de negociações secretas, o restabelecimento de relações diplomáticas com os Estados Unidos, que poderia conduzir ao fim do embargo.

David, que nasceu na década de 1990 – o período especial e da crise dos balseros, quando seus tios partiram para exílio – acredita que sua história pessoal e familiar teria sido diferente se Raúl Castro tivesse assumido o poder antes. “Raúl pouco a pouco foi ganhando o protagonismo, embora ele também já esteja soltando [atribuições] e delegando tudo ao primeiro vice-presidente [Miguel Díaz Canel], que é o próximo [a assumir o poder] pela lei da vida”.

Raúl Castro, agora com 82 anos, anunciou em fevereiro de 2013 que não optará pela reeleição quando seu mandato atual terminar em 2018, e nomeou como primeiro vice-presidente do Governo o engenheiro civil Miguel Díaz-Canel, de 53 anos, em substituição ao octogenário José Ramón Machado Ventura.

Díaz-Canel atuou desde então como o porta-voz do “socialismo próspero e sustentável” que Castro se propôs a construir sobre as velhas estruturas do Estado revolucionário, e como seu eventual sucessor quando chegar o dia de passar o poder.

Castro, no entanto, rodeou-se também de velhos companheiros de armas em cargos chave do Governo. O general Leopoldo Centra, de 73 anos, é o ministro das Forças Armadas Revolucionárias de Cuba, cargo que Raúl ocupou no passado. O general Abelardo Colomé Ibarra é ministro do Interior e vice-presidente do Conselho de Estado e de Ministros. E Ramiro Valdez continua no Conselho de Estado como vice-presidente. O Ministério de Planejamento e Economia está a cargo do coronel Marinho Alberto Murillo.

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