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Papa em estado de graça

O crédito de Francisco continua crescendo fora do Vaticano enquanto aumenta a perplexidade interna com sua forma personalista de exercer o poder

O papa Francisco chega ao Vaticano o 17 de dezembro, quando cumpria 78 anos.
O papa Francisco chega ao Vaticano o 17 de dezembro, quando cumpria 78 anos.Reuters

A chave está no poder. Os moralistas do século XVII afirmam que o poder é um hábito que se perde apenas com a morte. Joseph Ratzinger, no entanto, sentiu que a sua incapacidade de exercê-lo o estava asfixiando e, em um gesto desesperado - o único grito de um homem que jamais havia levantado a voz -, decidiu encerrá-lo. Jorge Mario Bergoglio não tem esse problema. É encantado pelo poder. Ama exercê-lo. E, se não fosse o suficiente, de Buenos Aires teve uma boa perspectiva para contemplar o que acontece com o Vaticano quando dois papas consecutivos - João Paulo II, durante sua longa doença, e Bento XVI, pela sua incapacidade para dar ordens - deixaram o destino da Igreja nas mãos de uma Cúria omissa, rachada e à mercê dos instintos mundanos. De forma que, à parte de isso estar mais ou menos de acordo com seus planos, já não há dúvidas no Vaticano que o hóspede de 78 anos, que cada madrugada acorda às quatro e meia, acende a luz do quarto 201 da residência de Santa Marta, reza durante duas horas, diz a missa às sete e toma café da manhã logo depois com grande apetite, está disposto a usar todo o seu poder para mudar a Igreja.

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Como conseguirá, quando, com o apoio de quem, por qual caminho e até onde continuam sendo perguntas sem respostas. Porque, ao contrário do mundo externo, onde o crédito de Francisco não para de crescer desde a sua eleição há um ano e meio, no pequeno país reina uma certa perplexidade. Não foram poucos os que sonharam que, apesar dos seus gestos - a cruz de prata, os sapatos gastos, o carro pequeno, a renúncia ao luxuoso apartamento papal, - Francisco terminasse dentro do cercado dos papas que sucumbem diante da pesada burocracia, cheia de compromissos, atados à história e à doutrina. Erraram. Bergoglio chegou sozinho e continua praticamente sozinho. Ninguém sabe quem - exceto pelos problemas práticos que são solucionados pelo seu secretário Fabian Perocchio - forma a equipe do Papa, em quem confia às cegas.

Um alto membro do Vaticano admite, entre admiração e surpresa, que Bergoglio parece ter mil microfones escondidos ou dispor de uma legião de confidentes: "É incrível. Ele sabe tudo. Às vezes chama alguém e pergunta: me disseram que não concorda com isso que disse, me diga por que, talvez eu esteja errado. Imagina como você fica. É claro que os papas não vêm com um livro de instruções, cada um segue da sua maneira. Houve o carisma extrovertido de Karol Wojtyla ou a timidez intelectual de Joseph Ratzinger, mas Jorge Mario Bergoglio é um caso especial, a ser estudado. Quando tentamos descobrir por onde está vindo, já passou".

“Às vezes chama alguém e pergunta: me disseram que não concorda com isso que disse, me diga por que, talvez eu esteja errado”, explica um alto membro do Vaticano

Do outro lado do telefone, a jornalista argentina Alicia Barros não consegue conter o riso. A amiga do "padre Jorge" há muitos anos não estranha a surpresa do Vaticano. Ela tem uma explicação. "É uma pessoa que desperta empatia. Todos gostam dele e todos vão contar-lhe as coisas. E quando digo todos são todos, inclusive os guardas suíços e os funcionários. Mas uma coisa é ser popular, carismático, uma pessoa que todos gostam, para quem cantam tango ou dão um bolo de aniversário de presente, e outra muito diferente é exercer a liderança. O padre Jorge é um líder e exerce como líder. Essa é a mudança. E é isso, talvez, que as pessoas não esperavam".

Um diplomata do Vaticano concorda. Quando, poucas horas depois da sua eleição, na sala Pablo VI, diante de centenas de jornalistas do mundo inteiro, Bergoglio disse que "gostaria de uma Igreja pobre e para os pobres", não foram poucos os que pensaram - alguns ainda acreditam - que não se tratava de nada mais do que uma frase bonita, um desejo que nasceu para não ser cumprido, uma maquiagem que poderia esconder as rugas, mas não as feridas.

Já parece que não será assim. Altos cargos do Vaticano, que falaram com este jornal sob a condição de anonimato, reconhecem que a mudança já está em andamento; "mesmo que às vezes atue ignorando os protocolos estabelecidos e provocando por isso alguma ou outra reação contrária". A razão para um comportamento acelerado como esse, segundo sua amiga Alicia, é que o Papa sabe que não tem um minuto para perder: "Não o vejo chegando a ser um papa velho. Não acredito que se eternizará no cargo, que tenha um longo papado. Fundamentalmente, porque gosta de liderar. Ele é o comandante. E não deixará que ninguém mande por ele. Gosta de conduzir, estar por dentro de todos os detalhes. Escreve seus próprios discursos e com muita antecedência. Gosta de fazer isso, é doutor em Letras e um poeta da Bíblia. O padre Jorge - eu o continuo chamando assim - não lê nada que não tenha escrito. Por isso tem pressa. Sabe que tem que mudar a Igreja e que tem que fazê-lo agora".

Existe o mesmo sentimento dentro do Vaticano. Pode-se dizer que Jorge Mario Bergoglio atua em dois níveis. Um deles é público. Suas declarações, suas viagens, suas arriscadas iniciativas, entre elas o encontro entre palestinos e israelenses no Vaticano ou a mediação entre Estados Unidos e Cuba. Em uma época em que a fama é tão efêmera quanto uma mensagem de 140 caracteres, na qual a máquina midiática exige constantemente heróis novos e descartáveis, o Papa - o chefe da Igreja Católica! - está há um ano e meio depois de sua surpreendente eleição entre a lista de personagens mais valorizados, elevado ao pedestal das notícias mais lidas. Um bom exemplo é sua recente visita a Estrasburgo. Seu longo e intenso discurso foi interrompido constantemente pelos aplausos dos parlamentares europeus. Mas não de todos ao mesmo tempo. Quando atacou o sistema econômico mundial, os privilégios e as castas, um setor aplaudiu e assobiou, e outro ficou quieto ou se manifestou com timidez. Mas quando fala a favor do "respeito à vida desde o momento da concepção", os papeis se invertem. O estado de graça midiática de Bergoglio faz com que todos escutem o que querem escutar e não se incomodem com o que não lhes convém. "A atriz Virna Lisi, falecida na quinta-feira", disse uma fonte, "anunciou há alguns anos uma pasta de dentes na qual se via o seu sorriso espetacular e uma legenda que explicava: com essa boca, pode dizer o que quiser! Isso pode ser aplicado ao Papa. Se alguns de seus antecessores dissessem algumas coisas que ele diz, montaria-se um grande escândalo".

O outro nível de atuação do papa Francisco acontece escondido dos olhos do grande público, mas não é menos importante. Um alto membro do Vaticano o resume com um par de frases: "Está mudando a Igreja. Basta ver o caso da Espanha. Está mudando o perfil das sedes dos arcebispos. Já o fez em Madri, Valencia, Zaragoza, Badajoz e está fazendo em Granada, Barcelona, Burgos. Em um ano, terá mudado sete ou oito arcebispos. A sua opinião é que a hierarquia eclesiástica espanhola é muito ruim. Porque eles não têm grande informação e nem são pastores. Se considerarmos que, em 2015, 15 bispos serão jubilados, e que ele os substituirá por gente de sua confiança, e que em Roma fará o mesmo - em fevereiro acontecerão novas nomeações -, em quatro anos haverá mudado o perfil do próximo conclave".

“O segredo é que adora ser padre.  E está cumprindo seu sonho sendo Papa. Os sacerdotes se frustram porque não têm poder, mas agora Francisco tem” ,  conta a jornalista argentina Alicia Barrios

Não se trata, portanto, apenas do seu pontificado. Bergoglio sente que as pedras nas quais a Igreja foi construída estão ameaçadas pela ruína, e colocou as mãos à obra para modificá-las diante da perplexidade do Vaticano. "Está decidido", disse outra fonte, "a descentralizar a Cúria romana, colocá-la ao serviço das conferências episcopais, reduzir os departamentos e o número de cardeais, constituir um gabinete de governo e dar voz aos fiéis. Não quer que apenas opinem os que estão acima - os bispos e cardeais-, mas também os que sofrem os problemas reais. Levar a Igreja à periferia ao pé da letra".

De Buenos Aires, sua amiga Alicia Barrios disse que não está surpresa. E explica: "O segredo é que adora ser padre. E está cumprindo seu sonho sendo Papa. Os sacerdotes se frustram porque não têm poder, mas agora Francisco tem. A prova de que está cumprindo seu sonho está estampada no seu rosto. Está feliz. Há quem diga que mudou. Não é verdade. Mantém seu senso de humor, continua fazendo piadas". Há uns dias, o cardeal alemão Gerhard Müller, prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé e um dos que mais relutam à abertura, contou a Bergoglio que, como arcebispo emérito de Ratisbona, teria que cavalgar em uma procissão. O Papa respondeu: "Pobre cavalo". Ao gigante Müller, restou se constranger com as piadas de Francisco. Talvez porque não as entenda, talvez porque não as considera apropriadas para um Papa.

Durante o recente Sínodo sobre a Família, Francisco quis que cada sessão fosse aberta com um testemunho. Houve um que teve um impacto especial. O dos australianos Ron e Mavis Pirola. Contaram que alguns amigos seus haviam educado seus filhos na moral católica e estavam com um problema porque um deles disse que queria participar do jantar de Natal com um companheiro homossexual. Não sabiam o que fazer. Por um lado, haviam ensinado a rejeição. Por outro, era seu filho. Depois de escutar, o sacerdote Bergoglio, vestido de Papa, pediu aos bispos e cardeais que encontrassem uma solução.

O que saiu daquela discussão foi um grande mal-entendido retransmitido entre o setor mais tradicional e aquele que, em sintonia com Francisco, quer abrir a porta às novas famílias. O Papa sabe que os próximos meses serão difíceis. O hóspede do quarto 201 tem um difícil desafio pela frente antes de mudar o rumo da Igreja. Se possível, sem quebrá-la.

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