Cúpula do clima em Lima

Os países se unem pela primeira vez na luta contra a mudança climática

A cúpula mundial do clima consegue pactuar na última hora um documento não obrigatório depois de 13 dias de paralisia

Seca na Tailândia, a 190 quilômetros de Bangcoc.
Seca na Tailândia, a 190 quilômetros de Bangcoc.BARBARA WALTON (EFE)

A cúpula mundial do clima foi resolvida em uma hora depois de uma paralisia de duas semanas. Os delegados dos 196 países presentes em Lima (Peru) só entraram em um acordo para apresentar um documento conjunto na madrugada do domingo. Depois de uma maratona de negociações de 14 dias, e algumas noites, foi aprovado um texto que afirma que todos os países participantes apresentarão para a ONU ao longo de 2015 seus compromissos “quantificáveis” na redução de gases de efeito estufa. Trata-se de algo inédito até agora, já que a luta contra o aquecimento global sempre recaiu sobre os países desenvolvidos, responsáveis por 80% das emissões globais. A ideia de que para haver resultados é preciso o compromisso de todos começou a pegar.

O documento acabou salvando do naufrágio um encontro ao qual se chegou com expectativas altas demais e que tinha a obrigação de não fracassar. A conferência de Lima foi a última parada rumo à cúpula das cúpulas sobre mudança climática: Paris 2015. Na França, é preciso aprovar um novo acordo para lutar contra o aquecimento global que tem de incluir a todos. A meta é substituir o já ineficaz Protocolo de Kioto, em vigor desde 2005, que apenas obriga países desenvolvidos a reduzir as emissões.

Um fracasso em Paris poria em cheque a utilidade da Convenção-Quadro das Nações Unidas contra a Mudança Climática, que nasceu em 1992 e foi ratificada por mais de 190 países. Em 2015 não há possibilidade de erro. A mensagem da ciência é muito clara: se não se começar a trabalhar desde já na redução de emissões de efeito estufa, o aquecimento global pode criar efeitos devastadores em todo o planeta.

O comissário europeu da Energia e Clima, Miguel Arias Cañete, diz que o acordo é um "bom guia"

Com a capital francesa na mira, os avanços dessa cúpula de Lima são relativos. Chegou-se ao Peru com a ideia de fazer um rascunho do futuro acordo, mas isso só foi conseguido pela metade. Os mediadores são obrigados a continuar trabalhando nisso em 2015 para chegar à França com um texto mais ou menos definido. O que consumiu todo o tempo das negociações na capital peruana foi a elaboração do documento sobre como e quando serão apresentados os compromissos individuais para contribuir com a luta comum.

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Reunir representantes de quase duzentos países durante 14 dias é um mérito em si, mas pretender que entrem em um acordo é quase uma missão impossível. Nem mesmo se partirem do mesmo ponto: a necessidade de controlar o termostato do planeta para evitar que a temperatura aumente mais de dois graus, o limite determinado pela ciência para evitar consequências catastróficas. Trata-se de conseguir o entendimento entre os que mais contaminam (e mais contaminaram) e os que mais sofrem os efeitos da mudança climática. Um debate entre países ricos e pobres que transformou o dinheiro em um dos maiores pontos de discórdia.

Os países em vias de desenvolvimento se negaram a aprovar um texto que não obrigasse as maiores economias do mundo a disponibilizar fundos para ajudá-los a enfrentar os efeitos das mudanças climáticas. Estas, entre elas a União Europeia, pressionaram até o fim para que os compromissos financeiros não fizessem parte do documento e manter seu caráter voluntário. No final, para contentar os dois lados, incluiu-se um parágrafo que não obriga mas enfatiza e “urge” a aumentar as ajudas. O resultado, que não satisfaz completamente as exigências de ninguém, venceu as resistências quando a cúpula se encaminhava, depois da meia-noite de documento, para seu segundo dia de prorrogação.

O texto, apesar de ser insuficiente para quase todos e de não ser obrigatório, foi aplaudido pelos líderes políticos. O responsável pela área de Mudança Climática da Administração Obama, Todd Stern, garantiu que o consenso permite que seja possível “continuar trabalhando no acordo da França” e o comissário europeu de Energia e Clima, Miguel Arias Cañete, mencionou um “bom guia”.

Quem pior recebeu o acordo foram as organizações ambientalistas. “As negociações climáticas fracassaram quanto aos resultados (...) Os governos falharam redondamente no sentido de alcançar um acordo para reduzir as emissões antes de 2020”, sustentou a líder a Iniciativa global de Clima e Energia da WWF, Samantha Smith. “As decisões tomadas em Lima não excluem a possibilidade de um acordo em Paris, mas fazem pouco para melhorar as probabilidades de êxito”, analisou a Oxfam.

O caminho para Paris deve ser tudo, menos fácil. O empurrão que se esperava que fosse o acordo anunciado em novembro com os Estados Unidos e China para reduzir as emissões não foi suficiente. Sequer a presença do secretário de Estado dos Estados Unidos, John Kerry, que visitou Lima para deixar claro que seu compromisso é firme e que não estão dispostos a continuar sendo rotulados como os culpados de que não haja avanços na luta comum, como aconteceu em encontros anteriores.

O pano cai em Lima e abre-se uma nova contagem regressiva. Os otimistas se agarram à frase de que nós sempre teremos Paris.